domingo, 17 de junho de 2012

CRÔNICA DE FADAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Escrevo para os noivos, em sentido amplo. Para aqueles que estão se casando, querem se casar ou intencionam continuar casados como se fossem personagens de um conto de fadas. À parte as solteironas e os solteirões convictos — e as crianças ainda não flechadas pela seta do cupido —, escrevo para todos.

Os votos de casamento podem assustar algumas pessoas: ser fiel, amar e respeitar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza todos os dias da vida em comum pode parecer um projeto ousado. Paracantarolando Belchior, eu acalmo o noivo leitor e a noiva leitora: não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo, isso é somente uma crônica, o casamento realmente é diferente, ao vivo é muito pior.

Cada um, no casamento, tem uma ideia diferente do que seja respeitar, amar e ser fiel. Isso já faz uma grande diferença nos (des)acertos. Um cônjuge desavisado pode avaliar o outro cônjuge com base em sua própria maneira de amar, respeitar e ser fiel. E aí é que a aliança aperta. Mas isso não é tudo, caro leitor, cara leitora. Um casal em convivência intensiva está sujeito a coisas que desafiam até mesmo a imaginação de um cronista fantasioso como este que vos escreve.

Você pode descobrir, num dia qualquer de seu enlace matrimonial, que a coisa mais natural do mundo — para você — constitui uma ameaça para a sua cara metade. Imagine-se conversando com seu amor, talvez até discutindo a relação — que Deus nos livre! —, e o fluxo da conversa é interrompido porque (e aqui eu deixo o leitor imaginar e escolher por si mesmo):

a) Você peidou, em baixo volume e sem grandes impactos olfativos, mas definitivamente um peido.
b) Você tirou meleca do nariz e ficou secando a catota com um movimento circular do polegar e do indicador.
c) Você bocejou, chegando a emitir um quase inaudível som ao expelir o ar.

Se você respondeu a), eu digo que não desanime. Seu cônjuge pode interpretar que você está "cagando para ele", mas conheço o caso de pelo menos um casal que fez seu "batismo" de intimidade num peido conjunto embaixo do lençol.

Se você respondeu b), cuidado. É um pecado venial, mas não o repita. Seu cônjuge pode interpretar que você tem mais interesse — até físico — no seu próprio excremento nasal do que no outro corpo humano que está à sua frente. Mas vá lá, desde que você lave as mãos o quanto antes e em seguida toque seu amor com dedos de lavanda.

Agora... se você respondeu c), você é o leitor ideal desta crônica. Você entrou no casamento tão ingênua e espalhafatosamente quanto uma drag queen em uma celebração eucarística. Porque seu cônjuge irá interpretar que você não está nem aí para ele, que você não lhe dedica atenção e que preferia estar dormindo, que você não lhe está sendo fiel, que você não o ama e não o respeita.

Não, não se espante. A terceira guerra mundial — que Deus nos livre, mas só depois que nos livrar das discussões de relação — começará por algo tão aparentemente simples quanto um bocejo. Pode ser um resto de fio dental deixado na bancada do banheiro, pode ser não fechar o olho completamente (escondendo a pupila, mas deixando a parte branca à mostra), pode ser a oleosidade do cabelo em uma almofada. Pode ser qualquer coisa insignificante para você, caro leitor — até mesmo um silêncio —, que significa uma verdadeira declaração de animosidade para o seu cônjuge.

Mas não encarne rapidamente o papel de vítima, caro nubente. Porque o outro também tem suas naturalidades: roncar, acordar e fazer barulho antes do sol nascer, brigar e ficar de bem num intervalo de 37 segundos — e vice-versa —, não escolher por si um filme para assistir, deixar o cesto de lixo transbordar por dias seguidos, encontrar mau cheiro até em coisas recém-lavadas, entulhar objetos que não usa em cômodos e armários, falar alto, falar muito, guardar os problemas para si (tudo bem, sobra um pouquinho para você também, caro leitor cônjuge), esmaltar nas unhas, aplicar tintura no cabelo, passar batom, só comemorar o Natal na casa da mãe.... Essas coisas, que são naturais para o outro, podem lhe atormentar a alma. É lá e cá! Bateu, levou. Alisou, leva mais ainda. A interação — e a relação entre causa e consequência — num casamento é mais errática que bêbado voltando para casa de madrugada e é impossível prever a trajetória do cambalear. Esses detalhes tão pequenos de vocês dois podem ser coisas muito grandes pra esquecer e ficam morando em sua memória feito uma visita indesejada, à moda de um parente — mãe, irmão, sobrinha — de sua alma gêmea.


Então o leitor e a leitora estão por mim avisados. Conto de fadas não tem só princesa e príncipe. Tem também bruxa e lobo mau. E quase nunca vem facinho o tal final feliz.




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6 comentários:

albir disse...

Mestre Edu,
consultor sentimental. Mais uma habilidade que lhe conheço.

Zoraya disse...

Bom demais, podia vir como conclusão Manual dos Nubentes! Evitaria um bocado de confusão. E o tal do final feliz não é mesmo um final, é um caminho a ser escolhido todos os dias. Agora, só um protesto: as Bruxas e os Lobos Maus ta´mbém amam! (e você acaba de me dar uma ideia...)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Acho que tô mais pra DESconsultor, Albir. :)

Zoraya, vê lá o que você vai fazer com essa ideia que eu lhe dei. :)

Anônimo disse...

Amei seu ponto de vista! Sua simplicidade, comédia e leveza deixou esse assunto já surrado muito mais interessante e menos doloroso. Não soou como conselho, mas sim como uma observação que todos os relacionados deveriam saber.

Eu gostaria de saber se poderia colocar sua crônica como exemplo para o meu trabalho de base para as Olimpíedas de Língua Portuguesa. É claro que colocarei na bibliografia minha fonte e seu nome como pessoa decente que sou. Então, eu poderia?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato pelo comentário, Anônimo. Pode incluir a crônica em seu trabalho, desde que indicando a minha autoria e uma referência ao Crônica do Dia.

Anônimo disse...

Ah, muito obrigada! \o