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PEDRA NO CAMINHO >> Whisner Fraga


Vovô e família moravam em um sítio beirando o Rio Tijuco. Os filhos, lógico, estudavam em uma escola rural, mas não sei ao certo onde ficava, porque os detalhes das histórias que ouvi me escapam. Não tive muito contato com parentes, confesso que não me apeguei a primos e tios e os considerava “pessoas de fora”. Tenho a impressão que o desdém era mútuo, pois eram raras as visitas que nos faziam. O que não quer dizer que estou me lixando para as pessoas. Não. Valorizo a amizade como poucos.

Então, os dois meninos acordavam de madrugada, se arrumavam com a ajuda de minha avó, tomavam um leite, e seguiam, embirrados, sonolentos, para a escola, palco de suas diabruras. Experimentavam de tudo para cabular a aula, para tirar sarro dos colegas e da professora. Coitada, se soubessem mais a respeito de sua vida, de seu salário, de suas dificuldades, talvez fossem mais condescendentes. Ela ralhava, ameaçava, enviava bilhetes aos pais, mas a trégua era momentânea. Memória de moleque é bastante curta.

Não havia banheiro na escola. O que existia era um mato mais alto, uma árvore mais encorpada e era agachar atrás de uma moita mais densa e rezar para tudo dar certo. Se fosse o número um, a coisa ia bem, era simples, rápido, limpo. Mas se tivessem comido algo estranho na noite anterior, se um milho, uma canjica ou um feijão caísse meio torto na janta, então o negócio podia complicar. Não havia papel higiênico, não havia jornal, e, dependendo da sujeira, seria um Deus nos acuda.

A professora era esperta, lógico. Já imaginou se deixasse duas crianças irem ao mesmo tempo ao banheiro? E mesmo que não fosse ao mesmo tempo. Controlar a saída delas em meio à balbúrdia, à agitação, às lições de álgebra e geografia, era uma tarefa complexa demais para qualquer pessoa. Daí que ela achou a solução: uma pedrinha, que ficava em sua mesa e, para ir ao banheiro, o garoto ou a garota devia levá-la. E ai de quem a perdesse. Se o objeto não estivesse ao lado dos livros, do apagador, já sabia: alguém estava fazendo suas “necessidades”. Era preciso esperar este voltar para que outro pudesse ir. Mesmo que o aperto fosse grande.

Meus tios haviam degustado umas pamonhas no dia anterior. Exageraram, claro. Ambos suavam no fundo da sala. O mais apertado levantou a mão e, antes que a professora autorizasse, saiu correndo, pegou a pedrinha e se enfurnou na vegetação vizinha. Os alunos tinham um medo terrível de perder a pedra, então, assim que a tocavam, arremessavam-na para o fundo da boca. Daí que o moleque fez uma baderna danada com sua dor-de-barriga. Esparramou sua diarreia terra afora. O cheiro avançava e até os bichos fugiam, impressionados. Enquanto isso, o irmão passava apurado na sala. Rezava para que a pedra ressurgisse logo.

Parece-me que esses tios eram uns capetas. Ninguém os segurava. Daí que, após se aliviar, o menino teve uma ideia: lambuzou a pedrinha na pasta marrom que depositara ali, perto dos pés e voltou para a sala. O irmão, desesperado, nem teve tempo de pedir licença, saiu atropelando cadeiras, arrancou a pedra da mão do outro e, como de costume, a lançou na boca. Durante os segundos de correria, sentiu um gosto estranho se alastrando pela língua, mas a afobação era tanta que nem se importou.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Puxa, esses nao perdiam tempo! Inveja de nao ter tido uma infância tâo movimentada! Agora, sério, voce também teria feito uma maldade dessas, nao?
Muito boas e divertidas essas suas histórias de infância, Whisner.

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