quinta-feira, 7 de junho de 2012

BOA COMPANHIA >> Fernanda Pinho


Um dia desses uma amiga desabafava comigo dizendo que, cada vez mais, tem gostado - e mais que gostado, preferido - sair para se divertir sozinha, em vez de acompanhada. Ela se sentia estranha por isso, e me perguntava o que eu achava. O que eu acho é: se ela é estranha, eu também sou.

Por não gostar de depender de ninguém, por ter meu próprio ritmo acelerado, por trabalhar em casa, por ter estado muito tempo solteira, eu me habituei a fazer muitas coisas sozinhas. E, assim como para minha amiga, o hábito se tornou preferência em determinadas situações.

Trabalhar sozinha, por exemplo. Claro que estou o tempo todo conectada com as pessoas que trabalham virtualmente comigo mas, fisicamente, estou sempre só. E acho uma maravilha. Nada me desconcentra, otimizo meu tempo pois não tenho com quem jogar conversa fora e não preciso dar explicações a ninguém sobre a desordem dos meus materiais de trabalho. Na minha bagunça silenciosa me encontro. E só a mim. Já nem sei mais se consigo produzir de outra forma.

Nem malhar. Malhar só funciona se eu estiver sozinha ou acompanhada de desconhecidos, o que, para mim, é o mesmo que estar só. Porque malhação só existe com música e música me exige demasiada concentração. Viajo, crio histórias. visito o passado e o futuro, a depender da trilha sonora. Quando estou embalada pela música sou incapaz de dar ouvidos a alguém.

O mesmo acontece com os filmes, o que me faz ter particular predileção pelas sessões de cinema na minha própria companhia. Adora a liberdade de poder gargalhar e chorar sem nenhum constrangimento. De poder ficar cinco minutos num silêncio embasbacado depois de um final de filme chocante. De poder comer toda a pipoca ainda no trailer, sem parecer mal educada aos olhos de ninguém.

E a essa listinha somam-se outros pequenos prazeres individuais: fazer compras, almoçar, me locomover de um local ao outro, fazer qualquer tipo de arrumação. Tarefas que me fizeram descobrir em mim uma ótima companhia. E só depois dessa descoberta, só depois de entender que o bem que eu me fazia ninguém mais poderia me fazer, é que encontrei em mim também uma ótima companhia para oferecer a outra pessoa.

Outra pessoa com quem, hoje, eu tenho o prazer de dividir absolutamente tudo. Sem neuras, preocupações ou constrangimentos. Posso gargalhar, chorar, fazer minhas bagunças ou ficar 40 minutos em silêncio. Está tudo bem. Como se ele fosse eu. Ou como se eu fosse ele. Já nem sei. 



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2 comentários:

Jujú disse...

Que linda...

Eu tambem adoro fazer as coisas sozinhas, e amaria poder trabalhar sozinha. Faxina por exemplo, eu AMO fazer sozinha. Também prefiro dirigir sozinha, adoro comer sozinha, e também ver filmes em minha companhia!

E hoje em dia adoro dividir isso com meu amoreco, e sempre te disse que essa pessoa também apareceria, e que vc amaria fazer tudo com ele! E assim foi, e assim é, e assim será!

Zoraya disse...

Uma ode ao amor. Muito gostoso, obrigada por compartilhar.