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ESTAMOS EM GUERRA >> Whisner Fraga

Aspectos religiosos vira e mexe ganham destaque em eleições. Neste momento em que depositaremos na urna a esperança de uma sociedade mais justa e melhor, é importante deixar de lado nossas crenças, principalmente no que diz respeito a aspectos religiosos. O Brasil deve abandonar uma história de submissão a igrejas e se tornar de fato uma nação laica.

Há temas muito polêmicos nesta eleição, que estão sendo tratados com parcimônia por ambos os candidatos à presidência: aborto, casamento gay, legalização da maconha, pena de morte, entre outros. Nenhum deles desconhece o fato de que somos um país católico e que não podem se dar ao luxo de perder os votos dos fiéis. Então permanecem em cima do muro. Não é necessário que o cidadão se desespere, pois o novo presidente, seja quem for, não apoiará a descriminalização do aborto ou legalizará a maconha ou instaurará o casamento gay. Nenhum deles. Simplesmente porque não podem perder o importante apoio dos crentes. Apenas por isso.

Mas o eleitor deveria ir às urnas como um cidadão e não como um católico ou como um evangélico ou como um budista. Quando digitar o número de seu candidato deveria pensar sempre a favor da vida. E a vida em nosso planeta é produto que caminha para a extinção. Por que se discute tanto a questão do aborto e pouco se fala sobre a água, que no estado de São Paulo se torna cada dia mais rara? Ora, não é tudo vida? Por que o cidadão se posiciona fortemente contra o casamento gay e corre a uma loja de móveis para comprar uma mesa produzida com madeira ilegal? Ora, não é tudo vida? Quem se preocupa com os índios assassinados em prol do extermínio de árvores, se temos em nossa sala todos os móveis mais chiques, para inveja de nossos vizinhos? Ora, não é tudo vida?

A vida está em baixa em nosso mundo. A sociedade se posiciona sobre a pena de morte – a favor ou contra, se dividindo, mas em sua maioria crê que bandido bom é bandido morto. Católicos saem de suas missas com a boca ainda salivando a hóstia para xingar em uma querela de trânsito o mesmo irmão que abraçou durante a comunhão. Evangélicos que tentam curar um homossexual logo após o sermão do pastor. Somos mesmo um povo selvagem. Metade de nossa população é formada por analfabetos funcionais, o que quer dizer que não sabem interpretar aquilo que leem. 49% não gostam de ler ou de raciocinar, o que os torna vulneráveis a dogmas e outras crendices. Assim, é fundamental que sigamos a defender que o dinheiro do pré-sal seja para a educação.

A vida está em baixa mesmo. Na Internet, nas redes sociais, nos pontos de ônibus, nas rodoviárias, no clube, na escola, no trabalho, tudo é política, na pior acepção do termo. Somos todos esquerda, centro ou direita. E, em todos os casos, contra a vida. Somos contra a existência quando nos tornamos consumidores compulsivos, quando não pensamos em como deixar um mundo um pouquinho melhor após nossa devastadora passagem por ele, quando sabemos que nosso estilo não chega nem perto de ser sustentável, quando não defendemos, com unhas e dentes, o direito a uma educação de qualidade. Que os outros paguem e se preocupem, o que importa é que meu umbigo está bem e a salvo.

O egoísmo é a tônica desta nossa sociedade precária. Diante da urna devíamos nos esquecer de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossas desavenças, de nossos desafetos, de nosso egocentrismo, de nossa egolatria, e depositar um voto à vida.

Comentários

Kanokosou disse…
É realmente indubitável seu ponto de vista quanto ao mal uso das urnas, que mesmo sendo um ápice da tecnologia política, continua em utilização equivocada por seus usuários, e mesmo presenciando todos os holocaustos aterradores consequentes do voto aleatório, incrivelmente votam outra vez....(No brasil, vez por outra a educação é falha, hospitais estão na mesma rota, já as urnas, superam-se,contudo, as consequências nela impostas, que nos condenam, e retornamos a base, ou talvez, a menos que isso).
(Kanokosou)
Carla Dias disse…
Pois é, Whisner, concordo com você. À vida foi delegado um indigesto segundo lugar. Mas me mantenho esperançosa de que, dia desses, o ser humano - não o ser humano outro, mas aquele que é o outro e eu também - reconhecerá que, sem a vida como importância maior, estamos somente navegando rumo a um suicídio coletivo.
Zoraya disse…
Whisner, seco, contundente, colocou a questão em perspectiva. Mas vamos manter a esperança. Tem muita, muita gente boa por aí. E ah, sim, adorei o texto, demais.

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