quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O PREÇO DE SER DE VERDADE >> Fernanda Pinho



Acabei de ler um livro que me marcou bastante. Chama-se “A Extraordinária Garota Chamada Estrela”, do autor Jerry Spinelli. Estrela tem um rato de estimação, fica feliz quando seu time faz cesta no basquete (mas quando o outro time pontua, também), distribui cartões de aniversários para desconhecidos, usa as roupas que gosta (e isso pode ser um vestido que esteve na moda duzentos anos atrás), tenta trazer um pouco de alegria tirando canções de seu ukulele que leva sempre a tiracolo. Num primeiro momento, junto com o impacto de sua chegada à escola nova, Estrela desperta simpatias. Afinal, este livro nada mais é que uma delicada e verdadeira metáfora da vida. 

E a princípio somos assim. Grandes admiradores da autenticidade. Capazes de fazer discursos inflamados defendendo a liberdade de cada um fazer o que quiser, respeitar as próprias convicções, seguir o que seu coração manda, persistir nos seus sonhos, manter relações com quem se sente à vontade, construir seu próprio caminho. Lindo, maravilhoso. Se ficar só no discurso, melhor ainda.

Porque em algum momento, Estrela vai levantar suspeitas. “Ninguém pode ser tão legal assim”. E da suspeita para a rejeição se passa num piscar de olhos. Por que ninguém pode ser “tão legal assim”? Porque ser legal demais implica em ser diferente e a gente pode até admirar pessoas que fazem tudo o que dá na telha, desde que mantenham uma distância de segurança de nós, por favor. E, veja bem, quando eu falo de gente que faz tudo o que “dá na telha”, eu não estou me referindo a nada que possa machucar ou prejudicar o outro de alguma forma. Estou falando de atitudes inocentes mas que, por sair da previsibilidade, são tratadas quase como se fossem atos imperdoáveis. 

Gente que dança como se ninguém estivesse olhando, que ignora a uniformização das vitrines e faz a própria moda, que se recusa a fazer social em ambientes inóspitos, que fala a verdade quando questionado, que dá abraços de dez minutos, que ri na hora que tem vontade de rir, que chora na hora que tem vontade de chorar, que fala “eu te amo” quando sente que ama, que escolheu não perder tempo com quem lhe faz mal, que muda o rumo da própria vida, que ignora as etiquetas e as convenções. Sabe essa gente louca, sem noção, desvairada, sem juízo, perturbada? Então, elas não são nada disso. São apenas pessoas autênticas e verdadeiras, que se respeitam muito (e só quem se respeita muito é capaz de respeitar o outro).  Elas não estão fazendo nada de mau. Nada que irá prejudicar você ou quem quer que seja.  E por que te incomodam tanto? Bom, apenas porque optaram por fazer o que tinham vontade, e não o que você, preso em seu mundo limitado e previsível, esperava.

Imagem: sxc.hu


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Um comentário:

Zoraya disse...

Maravilhoso, Fernanda,maravilhoso, maravilhoso. Me deu uma vontade tremenda de voltar a ser eu mesma. Obrigada, beijos