segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O CAMISA-VERDE (Continuação) >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação)

Quando os homens da lei desafivelaram seus próprios cintos, Dito estremeceu. A coisa podia ser bem pior que uma morte pura e simples – apavorou-se.

Mas as ditaduras podem ser generosas quando o adversário não representa grande ameaça. E tudo o que Dito experimentou foi uma surra de cintos militares e civis. Siá Maria o encontrou um frangalho, deitado numa folha de bananeira e coberto com outra. Se sua pele não estava muito íntegra, dignidade e macheza foram preservadas. Até porque surras não lhe eram novidade e não maculavam sua honra.

Siá Maria cuidou dele como sempre, lavou, aplicou compressas, ungüentos e rezas por três dias. No quarto dia ele se levantou, colocou roupa limpa, procurou trabalho, foi à igreja, se confessou e espantou primeiro Siá Maria, depois a todos. Pagou dívidas, pediu desculpas, agradeceu, participou de mutirões.

Veio a guerra e Dito felizmente não participou, arrimo de Siá Maria, que mentiu para o sargento do alistamento, dizendo que só tinha ele de filho. A comunidade, que a essa altura gostava dele, silenciou, e Dito foi poupado.

Dito acompanhou entusiasmado a campanha na Itália e a volta dos pracinhas. Seu nacionalismo, que tinha silenciado a vergastadas, não arrefecera, apenas mudara de lado. Estava mais brasileiro que nunca.

Getúlio Vargas, herói que tinha derrotado o eixo, estava agora ameaçado. Exigiam que ele entregasse o poder, numa tal de redemocratização. Um absurdo de ingratidão.  E como Dito não estava sozinho nesse entendimento, marcou-se uma manifestação de apoio a Getúlio na Candelária, lá no Rio de Janeiro.

Siá Maria, que levantava antes do Sol, estranhou que Dito acordasse tão cedo, mas calou porque ainda não sabia de nada . Dito pediu uma certa roupa que não usava para trabalhar.

- Cê vai aonde, Dito?

Ele custou a responder, o que fez sem olhar pra ela, como se discursasse de cima do coreto:

- É um absurdo o que tão querendo fazer com Getúlio. Mas não vai ser tão fácil, não! Nesse país ainda tem macho de coragem!

Siá Maria ficou só olhando.

Dito encheu com três cacimbas o caldeirão de ferro e foi pra casinha no fundo do terreiro. Siá Maria andou até o marmeleiro. Quando ouviu o barulho da primeira cuia de água caindo, ela entrou na casinha.

- Quê que é isso, Siá Maria, eu tô pelado?!

- Pois é assim mesmo que eu te quero.

Quando as quase indestrutíveis varas de marmelo atingiram pela primeira vez as costas, Dito, que tentava proteger o rosto, fez um escândalo. Depois foi diminuindo o volume. Perdeu a noção de tempo, mas foram muitos minutos.  No final já não gritava, gemia guturalmente a cada fustigada. Siá Maria saiu do banheiro e deixou cair no chão o que sobrou da rama.

Dito não vestiu a roupa, mas amarrou a toalha na cintura. Mingau de fubá e café já estavam na mesa quando entrou. Enquanto ele comia, Siá Maria aplicou compressas e unguentos nas suas costas. Depois foi ao roçado avisar que ele acordou com desarranjo e não ia trabalhar.


Dito, hoje, velhinho, acha que em política não há lado bom. E que quanto mais longe, melhor.


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2 comentários:

Zoraya disse...

Rsrsrs, boa!

Carla Dias disse...

O que uma vara de marmelo não faz pela política :) Fica o dito pelo não dito.