sexta-feira, 24 de outubro de 2014

INVEJOSO >> Zoraya Cesar

Espichou o pescoço acima do muro e olhou longamente para a grama do vizinho. Que, se não era mais verde, parecia mais apetitosa. (Não que Antonio fosse um ruminante no sentido estrito da palavra – talvez no sentido lato, vejamos). 

Sua esposa seria definida como “mulata sestrosa”, se ainda soubéssemos o que isso significa. Todos diziam que Antonio era um homem de sorte: cama, mesa e banho, ela dava conta de tudo, com louvor. 

Algumas pessoas, no entanto, nascem com o germe da verde, pegajosa, jamais assumida inveja. O invejoso nunca se contenta com suas posses e haveres; mesmo vestindo Armani, cobiça a camiseta Renner do vizinho. Quase uma doença, não fosse mau-caratismo mesmo.

Falávamos de apetites, então, e também de mulheres, gramas, muros e o que mais? Ah, vizinhos. Cortemos as psicanálises e entremos diretamente no terreno alheio. 

Moema, a mulher do vizinho (que, ao contrário da letra do João Bosco, não sustentava  qualquer vagabundo), era uma coisinha franzina e esquálida, loura pálida, de grandes e aquosos olhos azuis que pareciam constantemente espantados com o mundo. Desenxabida que fosse, tinha marido. E que marido! Trabalhador, gentil, bonito. Mais que bonito, usemos de sinceridade, Romualson era gostoso, pronto. E babava de amor por sua branquelinha. (Gosto não se discute. Quem ama o feio, bonito lhe parece. O coração tem razões que a razão desconhece. Nenhuma dessas platitudes explica coisa alguma, mas dão assunto pra conversa).

Escondido atrás da janela, como uma maricotinha qualquer, Antonio se retorcia de inveja vendo Romualson sair, feliz da vida, de mãos dadas com sua lambisgoinha. E a inveja – é bom que vocês saibam – estimula a imaginação. Antonio, mesmo tendo um mulherão em casa, sonhava com o corpo ossudo, mais parecendo o de um menino, a pele branca de Moema, seus vestidos largos, seus olhos desmesurados. 

Começou a cercar a vizinha, cheio de boas atitudes. Vou dar uma volta, D. Moema, quer alguma coisa? Pão quentinho? Jornal? Deixe que eu carrego suas compras. Ao encontrá-la, parava, falava sobre o tempo, a inflação, as eleições. Aos poucos foi se tornando mais íntimo. A senhora parece pálida, ta tudo bem? Seu cabelo, me permita, está mais bonito hoje... e assim por diante. 

Verdade seja dita que Moema, tímida, respondia a tudo negativa ou monossilabicamente, dependendo da abordagem. E mais a desejava Antonio, que, aliás, passara também a reparar na casa dos vizinhos, achando-a maior e mais bonita que a sua. Pura distorção, claro, uma vez que todas as casas do condomínio eram iguais.

E a mulher de Antonio? Nada percebia? Nada dizia? Ah, percebia sim, não era boba. O marido sempre fora invejoso, mas ganhava um bom salário e lhe dava conforto. Desde que não deixasse de pôr dinheiro em casa, nem abandonasse o casamento, ela deixava o barco correr.

Mas, como tudo na vida, essa história também chega a um fim. 

Dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Um dia Moema, inesperadamente, convidou-o para entrar e tomar um café, numa voz baixinha e musical. Ele vibrou. Mais do que satisfazer sua luxúria com aquela esbranquiçada lavada a sabão em pó, ele queria ver se, por dentro, a casa dos vizinhos era melhor que a sua. 

Moema não pareceu contrariada com a mudança de atitude. Mostrou-lhe a casa toda, cômodo por cômodo, inclusive o banheiro, onde ela o trancou. Começou o pesadelo. Me tira daqui, me tira daqui, gritava ele. Só se você passar toda sua roupa pelo basculante, exigiu Moema, inclusive a cueca. Antonio, desesperado, passou. Espere um instante, ela ciciou. 

O instante chegou junto com Romualson. Que abriu a porta e deu logo duas chapuletadas num desnorteado Antonio, que, nu e apavorado, foi facilmente subjugado pelo forte – tanto mais que irado – vizinho. 

- Tava dando em cima da minha branquela, né palhaço? - Antonio bem que tentou, mas a dor dos tapas e o medo o impediram de responder o que quer que fosse. - Toma aí o que você queria, disse o ofendido vizinho.  

E o inusitado aconteceu. Moema subiu o vestido, desceu as calçolas e deixou à mostra um enorme – digamos – membro viril. 

Sem entrar nos detalhes sórdidos, revelo, no entanto, que a situação fora previamente combinada entre os vizinhos – já cansados do assédio - e a mulher de Antonio, que, parada à soleira da porta, a tudo assistiu e filmou. Depois, Romualson levou Antonio até a porta, jogando suas roupas na calçada.

Morto de vergonha e de outras dores, ele correu pra casa, segurando suas roupas na mão, rezando pra ninguém ver sua ignomínia. 

Sua mulher o esperava, com um banho de assento já pronto, uma pomada para assaduras e uma declaração:

- Se um dia, qualquer dia, você sequer pensar em sair de casa e me deixar sem nada, eu divulgo esse filme pros amigos, pro pessoal do trabalho, pra toda família. Tá entendendo?

Antonio abaixou a cabeça, humilde e arrasado.

Alguns meses se passaram, e, da janela, Antonio viu chegarem novos vizinhos ao condomínio, numa caminhonete já bastante usada. Que pick-up bonita, pensou ele, muito melhor que a Hilux que tenho na garagem...

(..."querer o que é dos outros é o seu gozo, e fica remoendo até o osso, mas sua fruta só lhe dá caroço... " Invejoso, Arnaldo Antunes)




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6 comentários:

Ana Luzia disse...

ô, minha amiga, contra inveja, cobiça e mau olhado, só muito patuá... esse pelo menos declarava a inveja, rsrs...

bj!

Anônimo disse...

Quem muito inveja acaba recebendo, mas nunca é o que imaginava.
E ele, como todo invejoso, não consegue se livrar do bicho da cobiça ao que é do próximo...

Cecilia

aretuza disse...

boa paga para o invejoso! melhor que arruda e sal grosso contra!

sergio geia disse...

Poxa, Zoraya, essa você pegou de jeito. Não foi a branquelinha que eu imaginei rsrs Muito boa

Erica disse...

Tem invejoso que não aprende, né?... Ri muito.. Vc é máaaaaaaaaaaaaaaaaa kkkk

albir silva disse...

Na minha infância diziam: quem procura o que não guarda, quando acha não conhece!