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APRENDIZADO >> Carla Dias >>



Para a Dona Elisabete, a professora
que viu em mim a pessoa que eu jamais
conseguiria reconhecer sozinha.


Ensinou os cinco filhos a beleza que inspira um mecânico a sê-lo. Carro tem sentimentos, costumava dizer, mesmo enquanto a mãe torcia o nariz, e comentava, com um quê de ironia no ponto de deixá-la charmosa, que carro é só um jeito de levar as pessoas aonde os sentimentos acontecem.

Todos os dias, levantava-se cedo, tomava banho e se vestia bonito, depois encontrava a esposa na cozinha, beijando-lhe os lábios demoradamente. Com tanta criança na casa eram raros os momentos em que eles podiam flertar, feito os namorados que sempre foram. Então, pegava uma caneca com café e dava uma voltinha pelo jardim, a fim de colocar os pensamentos em ordem.

Tirar os cinco moleques da cama era a atividade do dia mais prazerosa para ele, e que sempre acabava em alguma brincadeira, depois em beijos de despedida. Ele saía para o trabalho e a mulher ficava em casa, endoidecida, de um jeito amoroso, com cinco moleques relutantes em se arrumarem para ir para escola.

Naquele prédio, ele entrou várias vezes. Lá foi assistente de limpeza, zelador, um faz-tudo de primeira. Durante quase trinta anos, sustentou sua família com um salário mais miúdo do que as despesas. Nos finais de semana, trabalhava dedicadamente nos velhos carros dos amigos da vizinhança. Era o prazer que contribuía financeiramente com a sua família. E ele adorava ser chamado de “Seu Mecânico”.

Hoje é um dia diferente para um homem que nunca imaginou que sua vida pudesse ser diferente da que os irmãos e primos levavam. Esse prédio, hoje o receberá de uma maneira como ele jamais imaginou possível. Não antes de conhecer a Dona Iara, aquela mulher falastrona, mas nem sempre simpática, que o fazia limpar os corredores do lugar até ficarem lustrosos. Quero andar por esses corredores como se caminhasse sobre diamantes, ela sempre dizia. Ele se esforçou para que ela ao menos pudesse se imaginar nessa passarela de diamantes. E se esforçou para que cada canto ficasse em ordem, cada menino e menina na sala de aula, que eles se distraíam fácil com as conversas pelos corredores.

Todos gostavam de Pedro, mas a Dona Iara o admirava. Via nele o desejo tímido de aprender sobre o que encontrava nas lousas, quando limpava salas de aula vazias. Ela o observou por muito tempo, e lhe emprestou livros sobre mecânica, contou-lhe sobre gênios de todas as áreas, encantou-o com a história de vida de personagens da literatura. Não era incomum ela dar a ele uma verdadeira aula de história, enquanto Pedro lavava o banheiro.

Para Dona Iara, a curiosidade de Pedro era a sua melhor qualidade. Não era uma curiosidade para se gastar com bobagens, como a vida alheia, fofocas e tal. Era a curiosidade do aprendiz, que deseja mais informações sobre aquilo que lhe encanta, e Pedro se encantava com tudo o que ela dizia, não por necessidade, tampouco por educação. Era um encantamento genuíno.

Para Pedro, esse aprendizado todo lhe fez muito mais presente na vida escolar dos filhos. Ele fazia questão de, depois de um dia de trabalho pesado, sentar-se com os moleques e ajudá-los com a lição de casa, enquanto a mãe, que era quituteira de primeira, preparava suas delícias para alguma festa de aniversário.

Com os livros que Dona Iara lhe emprestou, ele se tornou um mecânico muito mais habilidoso, e até clientes de cidades vizinhas ele teve. Mas sua relação com os carros era mais emotiva, de apreciação. Aos poucos, foi passando os clientes para o amigo mecânico profissional, o Josué. A esposa ficou tinindo de brava, que eles nunca tiveram a vida mais tranquila do que ele trabalhando nos carros, nos finais de semana. O que ela não sabia, e ele tinha receio de compartilhar, ao menos até ver se daria mesmo certo, é que Pedro agora trabalhava somente meio período lá na escola.

Ele estava limpando a sala dos professores quando chegou o intervalo. Como sempre, parou o que fazia para sair da sala e deixar os professores aproveitarem os minutos de descanso. Dona Iara, porém, pediu que ele ficasse e que se sentasse, pois eles tinham algo a dizer. Naquele dia, Pedro compreendeu o que é alguém lhe querer tanto bem, respeitá-lo como indivíduo e ser humano, que até lhe oferece oportunidade de ser. Sob a batuta de Dona Iara, os professores ofereceram ao Pedro a oportunidade de estudar ali mesmo, na escola. Ele sorriu, agradeceu, quase chorou por conta de tanta atenção a sua existência, mas tenho de trabalhar... não dá pra estudar, não.

Pedro levou dois meses para contar a sua esposa o que acontecera. Durante esse tempo, ele trabalhou meio período e estudou para terminar o ensino fundamental. Depois de dois meses, completamente embevecido pela capacidade de aprender, viu-se incapaz de ser outra pessoa que não aquela que vivia dentro dele, mas não sabia como se manifestar. A esposa chorou, esperneou, chamou Pedro de irresponsável. Então, ela parou e se deu conta: em dois meses, o dinheiro entrara normalmente. Como?

Os professores foram convencidos, sem muito esforço, por uma Dona Iara decidida. Pessoas como Pedro precisam que nós, os professores, as ajudem a seguir o seu caminho, ela repetiu várias vezes, e depois explicou como ele era dedicado, interessado em saber, em descobrir o mundo. Foi assim, com o respaldo de uma professora muito querida e respeitada, que Pedro conseguiu receber o pagamento integral por meio período de trabalho. Eles se juntaram, tiraram um pouco do pouco que recebiam, e complementaram o pagamento do assistente de limpeza. Foi assim que Pedro chegou aqui, a esse agora.

Dona Iara o recebeu na porta, sorrindo, assim como os outros professores, alguns dos que o ajudaram em sua jornada. Pedro continua apaixonado por carros. Dois de seus filhos se apaixonaram por barcos, e são sócios em uma empresa de locação,  no litoral. Um se apaixonou por geografia, e antes de se tornar professor de uma bem-conceituada faculdade, viajou pelo mundo, colocou os pés no que aprendeu na escola. Outro se apaixonou por comida, e se tornou chef de cozinha de um badalado restaurante. E teve o que se apaixonou pelo Charlie Watts, dos Rolling Stones, comprou uma bateria e montou uma banda, que vai muito bem, obrigado.

Pedro chegou à escola para o seu primeiro dia de trabalho, depois de tantos anos. Entrou na sala dos professores, juntou-se a eles, bebeu café com eles, conversaram sobre a vida, a aprendizagem. Com os olhos marejados, o novo professor de Língua Portuguesa é recebido com carinho e admiração, que antes de voltar para cá, construiu uma carreira invejável como escritor.

Dona Iara e Pedro parados no corredor. Quem diria, Dona Iara. Quem diria que eu voltaria para cá assim, de forma tão bonita?”. Ela sorri, diz que sempre soube, você só precisava de quem entendesse que aprender muda tudo, muda o quem somos, o quem nos tornamos”.

Aprender muda o nosso dentro e o nosso entorno. Aprendendo, Pedro inspirou os filhos em suas carreiras, ajudou a mulher a criar uma instituição em prol da alimentação saudável em escolas públicas. Tornou-se a pessoa que morava dentro dele, silente, sem jeito de sair e ver o mundo.

Para Pedro, sem a intervenção de Dona Iara, a sua vida seria completamente diferente, empobrecida pela incapacidade de chegar aonde ele poderia. Para ele, os mestres, os professores são essenciais na formação de pensantes, pessoas capazes de tomar as melhores decisões, de fazer as descobertas pelas quais o mundo espera e necessita.

Imagem: freeimages.com

carladias.com

Comentários

Zoraya disse…
Lindo, como sempre, Carla!
Anônimo disse…
Espectacular este texto... Bastante motivante e educacional. Fico contente por lê-lo toda vez que aqui venho. Agradecido pelo texto exposto.
Carla Dias disse…
Zoraya... Obrigada, como sempre!

Anônimo... Que bom que você gostou. Fico mesmo feliz por isso.

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