quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O CORAÇÃO DO OUTRO >> Carla Dias >>


Hoje, um amigo muito querido passará por uma cirurgia em benefício do seu coração. Muitos são os que têm enviado boas vibrações para ele, já que, em matéria de nos fazer sentir bem, ele é bom à beça. É o toma lá dá cá da benquerença fazendo o seu papel.

Neste momento, não há como eu falar sobre outro assunto que não seja coração. Caso contrário, seria como comentar política e finalizar com “tem coração envolvido?”, para então lidar com olhares políticos estranhando pergunta feito essa, em um cenário feito aquele, onde o coração raramente abre a boca.

E quando a pessoa alimenta o coração alheio, assim, por que sim? Não é só o meu que se curva à beleza da música e da poesia daquele coração. Presenciei muitos se tornarem fãs do artista, para então concluírem, com apreço escancarado, que tiveram boa sorte de conhecê-lo. Porque acontece de conhecermos pessoas que, com seu talento, e gentileza ao compartilhá-lo, influenciam a felicidade da gente a se estender até o adiante, em momento em que tendemos a encerrá-la antes da hora. Isso é ou não algo extraordinário?

Definitivamente, é.

Você até pode pensar que estou enfeitando a situação, que cirurgia no coração é coisa séria e eu deveria ser mais realista a respeito. É coisa séria mesmo, e para mim as emoções são bem realistas. Não há como separar o coração músculo, órgão de importância vital para um corpo funcionar, da essência de quem habita essa importância. Eu não conheço o músculo, mas o quem ele permite existir. E esse quem eu aprendi a admirar profundamente. Trata-se de um quem gentil, e mesmo quando a minha cachola está cheia de caraminholas, ele me mostra, com aquele jeito meio sem querer, e a cada canção, a cada conversa sobre tudo e sobre nada, que a vida tem camadas, e, às vezes, ela sofre de falta de delicadeza. Mas tudo bem, que passa. E que talvez nasçam bons começos no final disso tudo. No finalmente daquilo, pode até nascer catarse. Alívio.

Esse meu amigo tem coração tão valoroso que nem se dá conta do bem que faz a muitas pessoas, apenas sendo quem é, esse poeta navegando pela música, voz reverberando nos silêncios. Porém, posso falar legitimamente somente por mim. Foi escutando os discos dele que escrevi um livro de poemas inteirinho. Ainda assim, mesmo eu dizendo, sendo bem clara, às vezes ele contesta o fato de que suas canções são presentes de valor irrefutável para mim. Que durante elas, eu me questiono, divirto-me, redescubro-me, às vezes encaro o abismo, só para me lembrar que passa.

Muitas pessoas têm mandado mensagens e boas vibrações para ele. Eu mandei mensagem, boas vibrações são prato principal no menu do meu desejo cotidiano aos meus afetos. Mas hoje é dia de observarem o coração do meu amigo como nunca o fizeram antes. E se tenho de escrever uma crônica, que seja sobre a tristeza que sinto pela pessoa que irá contemplar esse coração, no ineditismo do olhar. Que essa pessoa não o conheça da forma que nós, os apreciadores do ser humano que ele é, conhecemos. Lamento não pelo cuidar, que sei que ele será bem cuidado. Mas porque, soubesse essa pessoa do que meu amigo guarda nesse coração, certamente ele se deslumbraria.

E sou completamente a favor de um bom deslumbramento.

Hoje, um amigo querido vai fazer uma cirurgia em benefício do seu coração. Depois, ele escreverá canções em benefício dos nossos corações.

Imagem © freeimages.com

carladias.com

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