sábado, 11 de outubro de 2014

A MULHER DENTRO DO ESPELHO ME ASSUSTA << Cristiana Moura

Causa-me estranhamento o  banheiro público. Banheiro é local privado, talvez o mais privado de todos. Quem nunca chorou trancado no banheiro, ou cantou secretamente? É aquele lugar de intimidade e solidão. Quando um banheiro se faz público, ou seja, compartilhado,  mora aí uma tensão.

Portas lado a lado e um espelho atravessando a parede diametralmente oposta. Ao sair da cabine, me deparo com a mulher dentro do espelho vindo em minha direção. Ela me assusta. Não vejo seu rosto. Nesta ausência, desejos nublados. Ela se sente manca como quem segue um trajeto de tropeços. Em sua claudicação posso ouvir os sons do invisível. É coisa de corpo recém habitado, ainda sem rosto, precisando traçar novas cartografias para seus sentimentos.

Essa moça me assusta. Essa moça me afeta. É que a mulher desperta em mim um tal desejo nem sei do quê. Ela, que dia após dia se transforma e rouba meu reflexo impondo a si, seu desequilíbrio, seus afetos em penumbra. "Essa moça tá diferente"*, já não a conheço mais. Essa moça me encanta.

Para desvelar seu rosto tenho que desencantar. Tenho que lhe permitir novos encontros. Tenho que me desapegar de mim, me abandonar. Ela precisa desmanchar o mundo para abraçar o lado de fora do espelho. Eu preciso desmanchar a mim para enxergá-la. Quando souber ser vista, a mulher irá produzir o mundo e os desejos.


* Trecho da música de Chico Buarque de Holanda com o mesmo título.

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2 comentários:

Carla Dias disse...

Reflexo que se faz interior é terra fértil, Cristiana. Oferece muitas versões de nós mesmos. Texto muito bacana.

Cristiana Moura disse...

Que as nossas terras sejam férteis, Carla!
Grata.