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AINDA ESTAMOS LONGE >> Whisner Fraga

Tenho lido intelectuais defenderem que esta eleição nos entregou um país dividido, que os candidatos contribuíram para aguçar posições opostas. Não acho que foi o pleito que segmentou esta nação em pobres e ricos, em analfabetos e letrados, em negros e brancos, em sim e não: foi a sua história. Essa divisão começa com nossa história e talvez a transparência (ainda engatinhando) que vivemos hoje nos tenha alertado para a existência dessas diferenças, tão profundas em um povo que se proclama sem preconceitos.

Notei, por parte dos militantes, que havia uma tentativa de convencer o adversário de que seu candidato era o melhor. Faz parte da democracia. Neste clima de disputa acirrada, ocorreram vários excessos. Amigos se desentenderam, conhecidos brigaram. Espero que, a partir de amanhã comecem a reparar seus equívocos e tentem reatar esses laços. Muitos boatos foram espalhados, revistas e jornais escancararam sua preferência, de um lado e de outro. Esperamos que quem for eleito puna devidamente qualquer abuso.

Mas dizer que a eleição separou de vez os brasileiros, não. Não acho correto. Os brasileiros já estão separados há séculos, alguns dentro de seus condomínios fechados, outros nas favelas, alguns dentro de apartamentos seguros, outros nas ruas, debaixo de viadutos, alguns vestindo uniformes de escolas grã-finas, outros no pátio porque não tem professor para ministrar as aulas, alguns achando que carregam o Brasil nas costas enquanto exploram um imigrante aqui e outro acolá, alguns dentro de restaurantes caros e outros tentando escapar do mapa da fome. O Brasil nasce dividido e explorado, justamente quando um burguês usurpa um índio, há centenas de anos, assim que pôs os pés nestas terras.

Não dá para exigir um sorriso condescendente de um caixa de supermercado ou de um atendente de padaria quando algum dos dois ouve que o sudeste sustenta o resto do Brasil, que só aqui se trabalha. Nosso país sempre foi a nação da desigualdade. Sim, eu consigo respeitar meu amigo que votará no candidato x, consigo acolher um primo que escolheu o candidato y, mas não compactuo com a ignorância. E ignorância é achar que somos um povo cordial, que aceita a manipulação e a humilhação.

Esta eleição não separou o país em dois lados. Quem separou foi a história. E a história, para quem tiver curiosidade de aprender, é cheia de escravos, de pilhagens, de mortes, de manipulação, de injustiça, de corrupção, de roubos, de racismo, de preconceitos, de egoísmo. Eu queria ver sim um país unido, mas creio que um país unido seja aquele em que todos tenham acesso, de maneira equânime, aos mesmos direitos e deveres. E isso ainda não aconteceu por aqui, mesmo depois de mais de 500 anos de tentativas frustradas.

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