quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O FAZ-TUDO >> Carla Dias >>

Sou um faz-tudo com gosto e endosso do meu patrão. Gerencio, invento, recupero, limpo, exijo clareza, construo dos mais belos castelos de areia. Autodidata do fazer necessário, invoco com labirintos e os desafio, até eu achar a saída. Embebedo-me de café, enquanto passo pano, passo tempo, passo o olhar pela pele da moça que mora em trabalho, no escritório ao lado. Nunca vi aquele cubículo desfalcado da presença dela.

Meu escritório fica na Rua Aquelali, mas às vezes tem ponte que me leva ao lá fora, assim, sem pensar no caso. Como no dia da festa da firma, quando fui encarregado de fazer a alegria de setecentos e noventa e sete pessoas, durante quatro horas. As quatro horas eu tirei de letra. Difícil mesmo foi lidar com as setenta e duas que antecederam a festa, quando eu soube que teria de fazê-la acontecer, já que o encarregado da festança pediu demissão.

O mais interessante sobre um dedicado faz-tudo, é que a maioria das pessoas não compreende que ele aprende no processo. Elas desejam alguém como ele, mas não querem pagar o preço, que é ter paciência com a avalanche de erros que ele comete, enquanto aprende o ofício. Puxe pela memória... Você já deve ter conhecido um faz-tudo, e apreciado a sua habilidade de lidar com praticamente qualquer coisa. Mas bastou ele cometer um erro, enquanto aprendia a nova tarefa, que você desacreditou o tal, e de um jeito, que ao atualizar a sua agenda, esqueceu, propositalmente, de incluir o número do telefone dele.

Tudo bem... Pode ser que você não tenha conhecido um faz-tudo ou tratado o tal dessa forma. Mas acredite nesse que lhes confidencia: o tratamento é esse em 90% dos casos.

Hoje a moça trouxe um sorriso diferente para o trabalho, que combina formosamente com os cabelos desobedientes e o vestido-jardim. A personalidade dela destoa da sua aparência frágil, seu quê de distraída. Lá do meu lugar de trabalho, às vezes escuto os pitos que a moça passa em funcionários em um relacionamento sério com a preguiça. E nem pensem que isso desanima meu coração a gostá-la de um tanto. Personalidade é esse lugar onde colocamos as nossas convicções, nossos desejos, e o que julgamos sonhos, só porque ficaríamos arrasados se, após declará-los realidade, ela, a realidade, nos traísse com desacontecimento. Personalidade é a moça ser sem temer os tropeços e os imbróglios. Faz-tudo tem coração, minha gente. Por isso eu me apaixonei, mas de um jeito pra lá de profundamente, que já ando engordando a poupança para futuro acompanhado.

Enquanto faz-tudo, eu também passo por tudo e mais um pouco. Dizem que minha profissão é quebrar galho, emendar, mas sou dedicado. A maioria dos meus feitos perdura, porque não vim a esse mundo para fazer pouco caso de aprendizado. Até me disseram que eu me daria muito bem fazendo lobby, que alguns políticos me pagariam uma fortuna pela minha habilidade. Só que se engana quem pensa que um faz-tudo é desidratado das ideias. Na política, esse meu tudo, que sempre se debruçou no desejo de fazer o melhor por quem precisa desse melhor feito, mas não sabe ou pode fazê-lo, seria menosprezado como se valesse um nada, e substituído por interesses menores, de tão pessoais.

Antes que me esqueça, faz-tudo tem nome. O meu é uma homenagem a um artista que minha mãe amava de paixão: Noel Rosa. Eu sou Noel de Castro Fagundes, um faz-tudo que vem apurando seus talentos, que veio de lugar nenhum e, provavelmente, chegará a lugar qualquer, no entendimento dos espectadores de sua trajetória. Que antes de mais nada, é um aprendiz voraz, que resolve problemas danados, apaga incêndios burocráticos, que mesmo que não venha a ser responsável por uma descoberta de importância incontestável, já descobriu algo simples, de importância tão incontestável quanto:

A vida nos é cara, com toda sua delicadeza e a gama de mazelas que herdamos do destino, e os tombos, o tudo e o nada. A pessoa interessa, mesmo quando não galã de novela, ou empresário e os seus imensos escritórios sitiados em famosas avenidas do país. Há verdadeiros gênios sendo criados nas favelas, alimentados com descaso, sobrevivendo ao abandono quando, aprendendo na espera, alguns se esquecem dos talentos, outros fazem mil coisas ao mesmo tempo, até poderem se dedicar ao que realmente lhes interessa.

A moça passa em frente ao meu escritório e para. O sorriso diferente escancarado, uma alegria pornográfica. Ela pergunta se aceito jantar em sua casa. E eu, um faz-tudo condecorado com bons resultados no serviço prestado, sinto o corpo tremer e fico ali parado. Faço nada.



Partilhar

4 comentários:

Zoraya disse...

Carla,Carla, você continua abusada de boa!

Carla Dias disse...

Zoraya, Zoraya... Você continua abusada de gentil :)

Alane Alves disse...

Ótimo!!

Carla Dias disse...

Alane... Obrigada!