sexta-feira, 31 de agosto de 2012

TODOS MAIS OU MENOS IGUAIS
>> Zoraya Cesar


Finalmente, depois de muito esforço, reza forte, pequenas patifarias, Carlos Wilson conseguiu casar com a filha do dono da agência de automóveis e chegar a gerente, cargo pelo qual teria dado a vida. Como não lhe pediram a vida, deu apenas a própria integridade, que saiu mais barato. 

Vocês sabem, quem nunca comeu melado, quando come se lambuza; quem nasce pataca, nunca chega a vintém. E quem... chega, vamos à história. Logo no primeiro dia ele cortou gratificações aqui, distribuiu-as ali, e deslocou D. Vanda, secretária mais antiga que a própria firma, para o fundo do salão. Proibiu os mecânicos de almoçarem no mesmo refeitório com a equipe de vendedores, imagina, cada macaco no seu galho, dizia, a boca cheia de importância.

Em pouco tempo já era considerado um perfeito pulha. Apenas uma coisa ele fez que agradou a todos: contratou Glorinha.

Glorinha era... era... como descrever Glorinha sem reduzi-la a um estereótipo? As roupas apertadas, decotes audazes, saltos altos, vestidos curtos, Glorinha era um sopro de alegria e cor naquele ambiente pesado. Não sabia fazer nada, era seu primeiro emprego, mas era bonita e gostosa (Meninas, não sou eu quem o diz, são os Rapazes), e isso bastava.

A vida seguiu. E Carlos Wilson perseguiu seu intento de sair com Glorinha, que não dava moleza. Ou vocês pensaram que, pela descrição feita, Glorinha era biscateira? Nada disso, ela era menina de família, pessoa direita, trabalhava para pagar os estudos de técnica de enfermagem.

Mas, sabem como é, água mole em pedra dura... acaba convencendo, e pior, com aquelas velhas promessas de sempre: minha mulher não me ama, meu casamento está acabado, vou me separar... Acreditem, tem mulher que ainda cai nessa. E se o sujeito tem um cargo importante, trata bem, dá presentinhos, parece apaixonado... tem mulher que acredita.

Carlos Wilson resolveu jogar pesado: disse que estava tão apaixonado que sairia no meio do expediente, só para ficar um pouco mais com ela. Glorinha deve ter achado romântico, porque pagou para ver e aceitou.

Nosso anti-heroi correu para ordenar que Denilson, o chefe dos mecânicos, deixasse em ponto de bala o carro esporte vermelho caríssimo, que um cliente deixara para revisão. Era hoje que ele se daria bem. Enquanto esperava, aproveitava para contar vantagens, dizia que Glorinha comia ali, ó, na sua mão. A cabeça girava de satisfação, vendo a inveja dos homens na oficina. Ele era o máximo.

Tudo correu como planejado, ele pegou o carro, pegou Glorinha, pegou a Av. Brasil, e nessa, que é uma das mais movimentadas da cidade, passa de tudo, passa boi, passa boiada. Só não passa um determinado carro esporte vermelho, que, enguiçado, parou no acostamento.

Carlos Wilson entrou em desespero. Esbravejava contra o destino, contra o carro, contra Denilson. Mas, afinal, qual o problema, perguntava Glorinha, o carro não era dele? Ele não era o patrão? A esposa já não sabia de tudo?

Não, sua burra, berrava ele, histérico, minha mulher não sabe e o pai dela é o meu patrão, esse carro é de um cliente, sua idiota, nem parece que trabalha lá, e acorda, vê logo se eu, um gerente, vou me apaixonar por uma qualquer... Ele arrancou uns tufos de cabelo, e se algum conhecido passasse bem naquela hora? E se batessem no carro? E se não conseguisse falar com o Denilson? Ele queria morrer. Ou matar Glorinha, a grande culpada de tudo, que chorava, desconsolada,  bem à vista de quem passasse, aquela troncha, já não disse para ela se esconder dentro do carro?

Finalmente, conseguiu falar com o chefe dos mecânicos. Explicou a situação, deu-lhe as coordenadas e esperou. O reboque chegou logo depois, trazendo Denilson, e o patrão! Que sai do carro, vai direto para Carlos Wilson, e não perde tempo:

- Você está despedido, cachorro, e sem mulher, que filha minha não quer pilantra por marido. Vou dar queixa na polícia por roubo, desgraçado. A sua sorte é que já estou velho, ou eu acabava com sua raça, bufava o velho.

Carlos Wilson não acreditava no que estava acontecendo, seu futuro destruído por... pelo que, mesmo?

Pela secretária humilhada, que não se fizera de rogada em contar ao patrão todos os detalhes sórdidos do comportamento do genro; pelo chefe dos mecânicos, que almejava a gerência e tinha interesse em Glorinha.

E pela própria Glorinha, que não era boba nem nada e estava cansada de ser assediada por aquele chato, mas não queria perder o emprego.


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9 comentários:

Ana Luzia disse...

ah, se fosse sempre assim, a justiça feita antes que mais futuros se estragassem... é, mas não vou urubuzar não, tá certo, vou colocar outro ditado na roda, o castigo vem a cavalo!

Mauro disse...

Carlos Wilson descobriu que o crime não compensa. Nem contar vantagem... bem faz o mineirinho.

Aretuza disse...

O melhor da história é o idiota do Carlos Wilson se perguntando "pra que mesmo?". Essa é a pergunta que a gente tem que fazer ANTES de fazer as coisas, desejar as coisa, caramba!!! Adorei.

Vicente Lima disse...

Muito boa crônica e lição de caráter, acho que isso diz tudo. Perfeito!

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Um final ideal para canalhas. Passando por aqui a ler os textos dos colegas. Abraços e boa semana!

Lincoln BS disse...

Delícia de crönica! Todo esperto tem seu dia em que o destino apronta uma... sempre na pior condição!

Alexandre Durão disse...

Zoraya, sua malvada. Não satisfeita de vingar-se do calhorda, ainda por cima, poderosa autora, dá a ele o nome de Carlos Wilson!
Senti uma atmosfera nelsonrodrigueana. São os eflúvios do mestre, neste ano de centenário. Adorei, como sempre.

Beijos.

albir disse...

Zoraya,
a gente comemora, já que os Carlos Wilson a nossa volta nem sempre têm o castigo que merecem. Beijo.

Aglae disse...

Adorei, Zo, está ficando cada vez melhor!