domingo, 19 de agosto de 2012

COMO ME TORNEI PALMEIRENSE
>> Whisner Fraga


Outro dia vi que o Boa Esporte está brigando de igual para igual na segunda divisão do Campeonato Brasileiro, o que me deixa muito contente. Sempre que vou a algum lugar e tem uma televisão transmitindo os jogos da segundona, falo, cheio de orgulho, que aquele time é da minha cidade. Tudo bem que atualmente eles estão instalados em Varginha, mas essa situação logo vai mudar, pelo que ando vendo sobre a construção do nosso estádio, em Ituiutaba.

Quando vim para São Paulo, me perguntavam para qual time eu torcia. Meus alunos tinham essa curiosidade também. Então eu respondia que era cruzeirense. Pronto, o assunto acabava ali, pois os paulistas não conhecem outro time que não seja do seu estado. Uma pena, porque era uma boa chance de me aproximar dos pupilos. Acredito firmemente que, para que haja aprendizagem, é necessário um envolvimento social. E para que aconteça a amizade é necessário que existam paixões partilhadas.

Então conheci minha atual esposa e com ela vieram as viagens para a casa do sogro. Era um martírio ter de me sentar no sofá da sala e viver alguns momentos de silêncio com os pais dela. Tímido que sou, não conseguia vencer aquela barreira, porque, sob minha ótica, não tínhamos nenhum assunto em comum, restando-nos apenas os olhares acanhados e um mal-estar contínuo. Até que o vi pegando um rádio de pilha no canto da copa e sintonizando um canal esportivo. Pronto, descobri que era um fanático por futebol.

Muitos brasileiros são loucos por esse esporte e não há que recriminá-los. Eu, que depois de ver a melhor seleção do mundo perder a copa de 82, quando era fã de Zico, de Leandro, de Júnior, de Eder e de Sócrates, acabei por me desiludir e não acompanhava mais nenhum jogo. Em minha cabeça o futebol era um jogo de azar, o que significa que somente aqueles que têm sorte é que vencem. Ainda não abandonei totalmente essa concepção, mas, por exemplo, observando as diversas modalidades nas Olímpiadas de Londres deste ano, concluo que todos os esportes contam um pouco com o acaso. Espera-se que o melhor vença, mas não é sempre que isso ocorre.

Então esse meu sogro é palmeirense. Como eu tinha muita simpatia pelo time, porque meus amigos Joãozinho, Merched e Dib torciam para a seleção do Palestra Itália durante minha infância, decidi que torceria também pelo Palmeiras. Com isso veio uma mudança radical em minha vida: comecei a conversar cada vez mais com meu sogro, nos tornamos muito amigos e melhorei o relacionamento com meus alunos. Quando me perguntam hoje qual meu time favorito e respondo Palmeiras, não importa se são adversários, se adotaram outra equipe, tudo vira brincadeira e tiração de sarro.

Assim, conversando com o pai de minha esposa, descobri também que minha sogra escreve lá seus versos e assim fomos descobrindo mais coisas em comum. Hoje não vejo a hora de ter a companhia deles. Foi preciso o futebol para que eu me aproximasse dos dois. Disso concluo que, se queremos realmente partilhar e conviver, é preciso que descubramos uma fresta entre aquela aparente falta de interesses comuns, por onde deixaremos passar nossas afinidades.

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2 comentários:

ANDRÉ FERRER disse...

Os esportes catalisam amizades. Bom texto!

Zoraya disse...

Whisner, quem dera aprendêssemos isso logo cedo em nossas vidas. E a verdade é que vc também se abriu para encontrar uma abertura. E o texto está uma graça. Beijos