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TIN MAN >> Zoraya Cesar

Quando era mais novo, tão mais novo, meu Deus, que ele sentia dor só de pensar, seu grande barato (pela gíria, dá para inferir a idade do nosso amigo) era tirar umas musiquinhas no violão.

A música lhe trouxera muitas alegrias, amigos, namoros, festas, às vezes até uns trocados. Na verdade, nem era grande coisa, mas dava para o gasto e, melhor que tudo, fazia-o entrar em contato consigo mesmo, sentir-se inteiro. 

Mas todo adolescente um dia vira adulto, as festinhas de violão, sexo, drogas e rock n’roll um dia acabam, e eis que a vida adulta chegou como um roldão: entrou na faculdade, conheceu a mulher da sua vida, começou a trabalhar e largou o violão. Largou? Sim, largou no fundo do armário, de onde só o tirava para as festinhas de família ou, quando sozinho em casa, para mexer os dedos, não perder a prática. 

E agora cabem algumas explicações. O título, por exemplo, por que Tin Man? Porque nosso amigo era fã de carteirinha (essa história está repleta de arcaísmos, não reparem, é a geração do nosso protagonista) do America, aquele grupo de folk-rock americano. Ao ouvir Tin Man pela primeira vez, ele sentiu uma felicidade tão estranha, que hoje, mais de trinta anos depois, ele ainda não sabe explicá-la. Aquele riff inicial dava-lhe arrepios. Dizia que, no dia em que conseguisse tocá-lo de ouvido e com perfeição, sua vida seria perfeita.

Então, perguntam vocês, por que largou tudo?

Há pessoas assim, que não têm forças para juntar, numa mesma vida, os sonhos e a realidade, o prazer que vivifica a alma e a luta pela sobrevivência. Uma coisa ou outra. Casamento, trabalho, responsabilidades, tudo isso foi demais para o nosso amigo. E, cá entre nós, a mulher dele não ajudava muito, pois, para ela, tudo o que não resultasse em dinheiro era bobagem. Cada vez que ele ensaiava algumas notas de Tin Man (ou qualquer outra música), ela dizia que a música era dificílima, ele nunca iria conseguir. E ele acreditou.

A essa altura, tenho certeza que vocês estão revoltadíssimos.  Como ele pôde ser tão fraco? Ou ela tão insensível? Mas o que sabemos nós? Ele a amava profundamente, era a mulher de sua vida, e o coração tem razões que a razão desconhece, já dizia sabiamente a Vovó.  E não são tantas assim as pessoas que têm forças para se opor ao mundo, que conseguem nadar contra a corrente, ou se ver com os próprios olhos. Aposto que algum de vocês também já caiu nessa armadilha.

As pessoas abrem mão de si mesmas para se adequar ao nhém-nhém-nhém de cada dia, achando que assim têm o controle sobre tudo. Mas a vida é cheia de som e fúria e..., desculpem, não vamos shakespearizar, vamos voltar ao nosso Tin Man, que foi abandonado pela mulher.

O quê? Como assim?, admiram-se vocês.  Saber, ninguém sabe ao certo, mas ela disse que estava cansada, ele era um chato, que não lembrava em nada o homem sensível e interessante com o qual havia casado! E deixou-o para viver com o professor de inglês, que jogava tênis e praticava esportes aquáticos.

Desnecessário dizer - mas direi assim mesmo, para não deixar dúvidas - que nosso amigo ficou arrasado, entrou em depressão, largou o trabalho. Passava os dias largado no sofá, olhando para o nada. Vendeu todos os móveis, à exceção da geladeira, armário e sofá, nem a cama escapou. Livros, discos e Cds, encaixotou-os todos. Mas o violão ficou. E o aparelho de som também. Vá entender o inconsciente das pessoas.

É assim que vai terminar? Largou o violão, renegou a si mesmo, foi traído e abandonado pela mulher que adorava e... e agora?

Calma. A história não acaba assim não.

Dias, talvez semanas depois, em mais uma madrugada vazia e insone, nosso Tin Man pôs-se a andar pela casa escura, e quem sabe por isso, ou por estar ainda desacostumado com a nova geografia desnuda do apartamento, tropeçou no aparelho de som largado no chão.

Foi então que algo muito estranho aconteceu. Não terei pejo em contar somente porque sei que a vida oferece acontecimentos aparentemente surreais para a nossa vã filosofia, mas o fato é que, com o impacto, o rádio ligou. E no dial marcado estava um programa dedicado ao folk americano. E o módulo era do America. E estava tocando exatamente Tin Man. Acreditem, essas coisas acontecem.

Ouviu a meia hora que restava do programa ali mesmo, em pé, no meio da sala escura. Foi ao quarto, pegou o violão e tocou Tin Man do jeito que sempre sonhara tocar.

O dia mal nascera e ele já estava ligando para a ex, dizendo que sentia muitíssimo terem ambos perdido tanto tempo em suas vidas. Pegou uns classificados antigos e procurou um professor de violão.

Abriu as janelas.


Comentários

Ana Luzia disse…
há sempre janelas para abrir!
Cecilia Radetic disse…
Quando achamos que o pior acontece devemos pretar atenção, pois quase sempre traz o melhor de volta!
Mauro disse…
Bela "mulher da vida dele" ele foi arranjar. Adorei (principalmente o final em aberto)- sempre podemos pensar que agora que ele aprendeu a tocar Tin Man a vida dele vá mudar completamente!
ANDRÉ FERRER disse…
O homem sensível e criativo com quem a mulher se casou já não existia mais. Por causa do quê? Da rotina? Ou de quem? Dela. Ou dele mesmo porque amava tanto?! Enfim, a vida, feita de respiração e perguntas. (Uma boa ideia, aqui, para outro texto ou outra música!) Eu adorei a crônica de hoje. A música sempre inspira bons textos.
aretuza disse…
E "abriu as janelas." Ponto. Adorei a escolha do ponto ao invés de reticências. Ponto final mesmo, fechou o ciclo, começar a partir de um ponto, bola pra frente e abrir as janelas, e pronto! E ponto!
Érica disse…
Adorei o texto. E adorei a idéia de "ilustrá-lo" com o vídeo da música no final... até mesmo porque eu conhecia a música, mas não consegui "ligar o nome à pessoa" até ouvi-la rs
Alexandre Durão disse…
Zoraya, querida. Muito linda a crônica. Final perfeito. Tendo se livrado de tudo que era acessório, seu personagem encontra o que, nele, era fundamento e essência. Como precisamos disso! Obrigado pela sensibilidade compartilhada. Beijos.
albir disse…
Zoraya,
quando a vida não está boa, o jeito é reescrevê-la. E o violão me parece um ótimo recomeço.Beijo.

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