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O TEMPO DO OUTRO >> Carla Dias >>

Posso me distrair em muitas áreas da vida, e essas distrações causarem mais mal do que bem, mas não quando se trata de reconhecer o que outras pessoas me oferecem, e não falo de coisas materiais.

Até a adolescência, minha mãe costumava costurar a maioria das minhas roupas. Lembro-me de que não entendia muito bem por que ela se dedicava tanto a algo que era somente para mim. Independente de ser minha mãe, e isso me garantir o cuidado na minha criação, ela também era uma mulher com uma vida corrida, um trabalho complicado e quatro rebentos pra criar sozinha. Ainda assim, ela encontrava tempo para costurar minhas roupas e fazer os devidos agrados às minhas irmãs e irmão. Cada um de nós recebia dela um tempo para usufruto próprio.

Acredito que foi assim que aprendi a importância do tempo que uma pessoa dedica a outra, não importa o quanto ou a situação. Talvez por isso seja meu hábito agradecer as pessoas pelo mínimo de tempo que gastam comigo, seja pelo entretenimento ou pelos reveses da vida. Também compreendo que, nem sempre, esse tempo é gasto na presença, o que não diminui a importância dessa oferenda.

Com a aproximação do lançamento do meu livro, o Estopim, decidi que faria uma divulgação diferente. Apesar de saber que marketing é a alma do negócio, fazer a coisa virar como eu queria tinha mais a ver com a minha admiração por determinadas pessoas do que pela divulgação do livro. Eu queria mesmo é que as outras pessoas conhecessem esses meus afetos e suas criações, seus olhares, a sensibilidade de sua arte. Obviamente, uma coisa resultaria na outra, mas dentro de mim a canção era sobre o tempo que essas pessoas que admiro profundamente dedicariam a me ajudar a contar um pouco da história do livro. Sendo assim, relutei em pedir a elas que me dessem esse tempo, ciente que estava – e sempre estarei – da importância que há em receber o tempo do outro.

Por um momento, achei-me extremamente sem noção por pedir algo do tipo a eles, apesar de serem amigos, pessoas que sabem da minha admiração por elas. Porém, depois de pensar muito, de me dar conta de que também ofereço meu tempo ao outro, decidi arriscar. E o resultado é um vídeo lindo que, apesar de ser classificado “de divulgação do livro”, é mesmo um tempo que ganhei de presente, belamente tecido por quinze pessoas muito bacanas.

Agora estou providenciando o segundo vídeo, e a experiência tem sido agradabilíssima. E também há a apresentação musical que haverá no dia do lançamento do livro.

A cada fase, surpreendo-me mais com a generosidade das pessoas. A honra de tê-las como companheiras nesse feito, e a gratidão que sinto por elas, são assim, como a honra que sentia ao ver minha mãe se sentar em frente à máquina de costura por mim. A gratidão que sentia por ela dedicar a mim um pouco do seu precioso tempo.

Comentários

Carla, é com prazer que eu paro o tempo pra tecer palavras para você. :)
albir disse…
Quem lhe conhece a escrita, Carla, acha que a generosidade é sua de publicar.
Zoraya disse…
Mais um tecido diáfano de palavras. E falando sobre o Tempo, algo que sempre nos deveria assombrar e deixamos passar. E concordo plenamente, o tempo que alguém nos dedica é uma medida de amor. Boa sorte no lançamento! (queria assistir o vídeo!)
Carla Dias disse…
Eduardo... Às vezes eu não consigo a combinação de palavras para agradecer certas pessoas pelo o que são para e o que fazem por mim. Palavreadamente descompensada, uso o bom e velho “obrigada”.

Albir... Obrigada :)

Zoraya... É sim... Uma medida de amor. A gente agradece pelo tempo delas, mas na verdade está agradecendo pelo amor que elas têm por nós. E obrigada! O lançamento já será no próximo sábado e estou ansiosa e feliz. Sobre o vídeo, você pode assisti-lo pelo http://youtu.be/WJZvx4yMs_o. O de imagens de fotógrafos e artistas plásticos, mais citações do livro, você assiste pelo http://vimeo.com/45910983. Beijo!

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