quinta-feira, 2 de agosto de 2012

NÃO ENCHE, ESTOU COM FRIO - O RETORNO >> Fernanda Pinho




Se você é um leitor fiel deste blog e com boa memória, talvez se recorde que, há dois anos, eu publiquei aqui uma crônica onde manifestava todo o meu desprezo pelo clima frio (se você é um leitor infiel, desmemoriado ou novato, pode ler tal lamento aqui).

Agora, exatos dois anos depois, venho me retratar humildemente e dizer que aquele texto não passa de um delírio inocente. Não, meus caros. Não fui flechada por um cupido de neve e acometida por um amor súbito pelo inverno. O que acontece é que minha nova realidade me fez constatar que aqueles 4554 caracteres não passavam de pura difamação, calúnia, injúria (algum advogado que possa me ajudar a diferenciar uma coisa da outra?) contra o ameno e, por isso, agradabilíssimo clima de Belo Horizonte.

Eu passava frio? Um friozinho besta talvez, na hora de entrar pro banho ou escovar os dentes. Aliás, naquele saudoso  e quente tempo, minha relação com a água se restringia às minhas atividades de higiene pessoal. Agora não. Agora sou uma dona de casa, vivendo em Santiago, cercada por uma linda, mas gélida cordilheira.

O difícil não é botar as roupas pra lavar, manter a cozinha em ordem e o banheiro impecável. O difícil é fazer isso com frio. Como é difícil também fazer exercícios físicos, sair para fazer compras, levantar da cama, pensar! Sim, porque no frio eu não penso. No frio eu traço estratégias. Estratégia para sair do banho e não sofrer um choque térmico, estratégia para colocar um casaco sobre o outro sem ficar parecendo um mascote de loja de colchão, estratégia para ficar o dia todo com a cara na estufa sem me constipar quando sair na rua, estratégia para a roupa secar sem ficar com cheiro de murrinha (o que é murrinha, gente?).

Óbvio, nem tudo é tragédia. A cidade está, de fato, muito linda, mesmo com cara de inverno. E assim é Santiago, com as estações bem definidas. Já a vi com cara de verão, cara de outono e agora, cara de inverno. A Cordilheira dos Andes branquinha de neve, parecendo paisagem de embalagem de chocolate suíço. Isso, do lado de fora. Aqui dentro, tenho o melhor cobertor de orelha do mundo, que me aquece a alma. Me deixa mais tranquila, menos reclamona e mais verdadeira. Verdadeira a ponto de confessar que só escrevi esse último parágrafo por medo de a vida me dar mais uma lição e me mandar pra Antártida no próximo inverno.


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5 comentários:

quaseminimalista.blogspot.com disse...

uma boa notícia pra vc, Fernanda. a gente se acostuma com o frio, fique tranquila!

albir disse...

Fernanda,
então estou precisando enfrentar frios mais intensos pra não me incomodar com o frio daqui. Só o sol quente me deixa feliz. Vinte e dois graus já é tortura.

Calúnia, difamação e injúria são crimes contra a honra. Calúnia é atribuir a alguém um fato determinado definido como crime. Exemplo: fulano roubou a bolsa de cicrano às tantas horas do dia tal. Difamação é atribuir a alguém fato que, embora não seja crime, ofende a sua reputação. Exemplo: fulano cometeu adultério com fulana no dia tal. Como adultério não é mais crime, trata-se de difamação e não de calúnia. Na injúria não se atribui fato determinado a alguém, proferem-se palavras vagas e imprecisas que ofendem a dignidade. Por exemplo, "fulano é ladrão" não atribui um fato, é um chingamento, uma ofensa, que não se refere a uma conduta determinada.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Evito reclamar, mas nos caso do FRIO eu abro uma exceção. Se a temperatura baixa de 20, já preparo meu "Valha-me Senhora do Nordeste!"

fernanda disse...

Ana, levando em conta que você está na Alemanha, levarei a sério o que me disse. :)

Albir, muito obrigada pela aula!

Eduardo, idem! Essa é a única reclamação que eu me permito até a exaustão (dos ouvintes).

Beijos!

Zoraya Cesar disse...

Fernanda, viemos do mesmo planeta! No frio eu perco até meu poder de decisão, fico quase que imprestável. A crônica está ótima como sempre, engraçadíssima. Eduardo, posso apelar também para Nossa Senhora do Nordeste? Qualquer 20°e eu já estou parecendo uma velha, de casaquinho...