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CAFONA [Carla Cintia Conteiro]

Quando ela começou a discorrer sobre a cafonice alheia, meus olhos imediatamente escanearam o seu modelito escolhido para a ocasião. Mais uma vez, absolutamente desfavorável ao seu tipo físico, concluí. Sempre relevei sua falta de tino para se vestir, porque imaginava seus cuidados intelectuais e espirituais, que me faziam admirá-la tanto, ocupando todo seu tempo, não deixando espaço para esse tipo de mundanice. Ouvi-la argumentando porque Fulana e Beltrana eram cafonas me fez ratificar a impressão de que cafona mesmo é falar da cafonice dos outros. Afinal, infelizmente, nosso próprio rabo nos é invisível e atribuir-lhe adjetivos é tarefa absolutamente subjetiva.

Já reparou que as canções do estilo de música de que você não gosta sempre soam iguais umas as outras, suas estruturas harmônicas e versos tão previsíveis e repetitivos e, se não isso, são apenas enfadonhas e incômodas? Pois pergunte para alguém que não gosta dos gêneros que você curte o que acha da sua música e ele vai dizer que acha exatamente a mesma coisa. E você responde que o outro não aprimorou o gosto musical; que sua música não é repetitiva, é trance inducing, não é incômoda, é instigante; que a cultura precisa ser respeitada. De respeitar a cultura alheia ninguém se lembra. E tome etnocentrismo! Muita gente “da zelite” ainda com a síndrome de colonizador, se achando no direito de definir o grupo do outro segundo seus princípios e valores, de classificar as manifestações alheias como ruins e esquisitas e, pior de tudo, inválida, portanto indigna de existência. Ninguém é obrigado a ter no seu player a música de que não gosta, mas consideração é bom e todo mundo gosta.

Também observo nas redes sociais, excelentes laboratórios para o estudo do ser humano, pessoas reclamando sobre a chatice das publicações das outras pessoas. E aí publicam sobre como isso é chato. Será que não percebem o quão chatas são essas reclamações? Será que eu não percebo o quão chato é falar da chatice de quem reclama de quem os chateia? Essa chateação não tem fim.

Sempre procuro me lembrar de algumas regras simples. Em primeiro lugar, no Facebook, se eu permito que alguém publique na minha linha do tempo ou veja o que eu publico, por definição eu perguntei sua opinião, portanto o conteúdo nas duas mãos é responsabilidade minha. Um bloqueio é uma coisa fácil, indolor e higiênica, quando o que não agrada supera as razões para manter o contato. A reclamação, nem sempre é tão inócua. No mundo dos átomos, não se agenda o próximo encontro, sem confrontos, sem maiores crises. A menos que a inconveniência esteja no prato mais alto da balança. Ou se tenha um pé no masoquismo.
Sempre cafona, chato e desagradável é invadir o espaço alheio, impondo-se. Um perfume forte ou doce demais, sua música vazando para ouvidos que não pediriam por ela, sua opinião emitida como verdade incontestável.

Assim vamos seguindo todos pela vida, meio inconscientes do quanto é obeso o nosso perispírito. Enquanto ele esbarra, empurra e invade o espaço alheio, nos queixamos de quem nos pisa o pé. Apontamos o mau gosto alheio e nos esquecemos do ensinamento de quando éramos crianças: apontar é feio.

Comentários

Anônimo disse…
Muito bom!
albir disse…
Tem razão, Carla, com frequencia caímos na tentação de impor nossa estética.
Elizabeth Maia disse…
É isso aí. Gostei demais!

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