domingo, 12 de agosto de 2012

UNS VERSOS >> Junoca

Meu pai me pediu uns versos...

Primeiro pensei em fazê-los de fumaça, saindo em espirais suaves de dentro de meus dedos.
Mas eu não fumo, não sei como fazê-los.

Depois pensei em fazê-los de símbolos gravados em cartas ou em tabuleiro.
Mas confesso que me chateia jogar com meu pai e nunca ter como vencê-lo.

Pensei até em fazê-los de água — ardente — descaradamente embriagadores.
Mas meu pai não bebe mais, e eu também não bebo.

Talvez pudesse fazê-los de estampado tecido, perfeitamente arranjado em gravata.
Mas não aprendi com meu pai a dar nó em pescoço.

Poderia fazê-los da saliva de histórias repetidas à exaustão em encontros de família.
Mas não sou bom de memória, e da próxima vez preciso estar mais atento.

Poderia mesmo fazê-los de silêncios, tão perfeitos quanto os de meu pai me acolhendo.
Mas meu pai me pediu uns versos, e preciso fazê-los.

Faço, então, meio sem jeito,
versos de todos os momentos,
— até aqueles de que não me lembro —
em que meu pai me carregou nos braços,
me levou pela mão,
me conduziu pela palavra,
me inspirou pelo exemplo,
me comoveu pela tristeza
e me guardou no peito.

Esse poema
— mesmo assim desajeitado —
é seu, meu pai,
É do ar do Pai.



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5 comentários:

ANDRÉ FERRER disse...

Emocionante.

albir disse...

Parabéns, Edu,
prá você, pro seu pai e pros seus versos.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, André e Albir.

Zoraya disse...

Que emocionante, Eduardo! E a foto, linda demais. Muito obrigada por compartilhar algo tão poético, íntimo, belíssimo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato por compartilhar a emoção, Zoraya. :)