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ESCOLHAS >> Zoraya Cesar


Um casamento desfeito, tentativas malfadadas de namoro e um certo comodismo resultaram em seis anos de vida sedentária e vários quilos a mais. Sozinha em casa, devorando um enorme prato de macarrão, ela, mais uma vez, repetiu a si mesma que aquilo não era vida. Preciso voltar a sair, pensou, conquistar novos espaços, ir audaciosamente onde nenhuma mulher jamais esteve.

Como sabemos todos, quem pede recebe. Mal terminara de comer o pudim, e uma amiga telefona, oferecendo um convite para a festa de encerramento de uma campanha política, naquela noite mesmo. Ela vibrou. Suas preces tinham sido atendidas.

Isabelinha estava confiante de que iria roubar corações, arrasar quarteirões, arrebanhar solteirões (desquitados e até casados também serviriam. Depois de anos incubado, o monstro conquistador despertara nela, rugindo, querendo alimento).

Ela precisava comprar sapatos, roupa, fazer as unhas e... esperem. Façamos uma pausa, para conversar com os rapazes, a fim de que eles entendam melhor o drama de Isabelinha: quase tão difícil fazer tudo isso sem hora marcada quanto a vizinha gostosona de vocês bater à sua porta para conversar um pouquinho. 

Amarrotada e cheirando a suor alheio, devido à alta densidade demográfica do ônibus que pegou, Isabelinha finalmente encontrou o vestido perfeito para seus sonhos e seu orçamento. A vendedora, porém, sutilmente, deu-lhe a entender que ela não poderia experimentar antes de comprar. Isabelinha olhou-se no espelho: descabelada, a roupa amarfanhada grudando no seu corpo suado, os calcanhares sujos, para fora dos chinelos. Uma desolação, de cima a baixo. 

Dando toda razão à vendedora, não experimentou o vestido e o levou assim mesmo. Haveria de ficar bom, pensou, é o meu número, o vestido é lindo e tudo vai dar certo. 

Resolvida a não passar por outra humilhação, entrou no banheiro e lavou os pés na pia. E, num mecanismo compensatório que as mulheres conhecem tão bem, comprou as sandálias mais caras que viu: saltos finos e altos, enfeitadas por correias douradas. Vou parecer uma dominatrix, pensou, exultante. 

Então, a etapa final: cabeleireiro, coiffeur, hair stylist. 

Isabelinha, precisava de um milagre. Se quem pede recebe, quem procura acha, pois ela encontrou um salaozinho simpático, e foi atendida no lugar de uma cliente que passara mal e desmarcara.

Relaxada, fechou os olhos e cochilou. Há quanto tempo não se cuidava! Já nem lembrava como era bom ouvir o barulho do secador, sentir o cheiro dos esmaltes, do laquê. Laquê? Isso ainda existe? Ela abriu os olhos. 

Em volta, as clientes eram todas senhoras de avançada idade, os cabelos penteados em forma de capacete, tão duros pelo excesso do produto que pareciam impermeáveis. Algumas tinham o olhar meio baço, outras, dormitavam, uma tinha o cabelo azul. Provavelmente a cliente faltosa em questão morrera, por isso não estava ali. Seu cabelo estava igual ao delas e suas unhas, descoloridas por um bege mortiço, cor de carne morta, em vez do vermelho sedução que pedira. Não tinha essa cor e a senhora estava dormindo, resmungou a manicure. Essa é a cor da moda, completou. Isabelinha quase chorou. Aquilo não era um salão de beleza, era uma sala mumificadora.

Não havia mais tempo, o jeito foi seguir em frente. 

Ainda cheia de esperanças, sentindo-se antecipadamente irresistível, Isabelinha colocou o vestido, que deveria cair como o manto real sobre a princesa. Mas este envolveu-a num abraço apertado e plebeu, revelando todas as – muitas - pelanquinhas, e uma redonda barriga que, até então, Isabelinha jurava que não estava lá. Apelou para uma daquelas meias modeladoras que transformam qualquer gordinha desavisada numa sílfide, mas dificultam um pouco a respiração. Mero detalhe.

O desconforto estava quase insuportável, mas ela ficou esbelta, e toda mulher, no fundo, é uma estóica. Como desconforto pouco é bobagem, as lindas e caríssimas sandálias, que calçaram tão bem na loja, faziam seus pés escorregarem para a frente e para os lados, forçando Isabelinha a andar como um pato bêbado. Tudo bem, pensou, não preciso dançar, o importante era ir à festa. 

Que estava ótima, mas ela mal pôde perceber. A meia modeladora agora lhe provocava uma leve cãibra nas pernas e ela estava se sentindo a última das mulheres. E, para terminar, o único homem que lhe dera alguma atenção agora estava sendo abduzido por uma loura tipo capa de revista.

Voltou para casa, desconsolada, arrasada e dolorida. Jogou no lixo sandálias, vestido, meias, tudo. Não conseguia entender o que dera errado.

Sentou-se na frente da televisão, para assistir, mais uma vez, a um filme romântico. Um dia, pensou, comendo pudim entre grandes goles de refrigerante, vou estar magra e bonita e tudo vai dar certo. Confortavelmente reinstalada em sua vida anterior, Isabelinha desistiu de bater, já que a porta não se abrira da primeira vez, e colocou o monstro conquistador para dormir. 

Comentários

Anônimo disse…
Isabelinha, minha filha, vou te contar uma coisa: sai dessa, criatura! quer comer o pudim, ótimo! mas esquece essa ideia de parecer o que não é, valorize o que vc tem, minha nega, e invista no seu real poder de sedução!

me liga pra gente ir à caça, rs!

Ana
aretuza disse…
Vixe, saravá, esconjuro, Isabelinha! Vai viver, mulher!
albir disse…
Quando queremos mudanças, lembramos que elas só acontecem com atitude. Mas esquecemos que elas precisam também de tempo. Beijos, Zoraya.
Alexandre Durão disse…
Zoraya, Zoraya... Olha o livro sobre as mulheres praticamente se escrevendo nessas crônicas! É questão só de querer; o material já existe e é ótimo. Precisamos falar sobre isso. Beijos.
Anônimo disse…
Que maldade o macarrão e pudim!
Festa de campanha política é desespero de causa - rsrsrs. Isabelinha assim não dá! Sai pra vida mulher!
Mauro disse…
Coitada da Isabelinha... tudo deu errado. Mas acho que o pior é ela esperar mudanças agindo do mesmo jeito. Einstein disse: Insanidade é fazer sempre as mesmas coisas e esperar resultados diferentes.

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