quarta-feira, 22 de agosto de 2012

UMA CANÇÃO SOBRE SENTIMENTOS USADOS >> Carla Dias >>


Você sabe que a pior escolha é esperar para ser a melhor pessoa possível em um futuro que julga próximo. Diferente das contas dos carnês, com parcelas com vencimento em 5 de agosto, 5 de setembro, 5 de outubro, 5 de novembro, até 5 de dezembro de dois anos adiante do vigente, entende que depois de quitado o sonho se transforma em lembrança para ser desfiada em dia de jantar em família. 
E que flores em vasos são impacientes e partem adiantado, e isso em nada tem a ver com o fim da primavera. 
Compreende a solidão dos almoços em dia de trabalho, quando seu olhar reconhece as feições dos estranhos mastigando comida e se alimentando de urgências: pegar a roupa na lavanderia, escrever para o diretor, comprar laranja lima, pedir o divórcio, colocar o analgésico na bolsa. E sempre alguma urgência se destaca, roubando-lhe a atenção entre uma garfada e outra, às vezes distraindo tanto que a sua comida acaba no prato no final da hora do almoço.
Como aquela urgência reconhecida no homem de cabelos brancos que só, que se curvou sobre a bandeja e se fez de interessado pela comida, mas que na verdade, enquanto esparramava o arroz pelo prato, chorava copiosamente. A sua vontade foi sentar-se com ele, perguntar por que, o que e como, agir como o ouvidor da confissão da tristeza dele.
Porém, você também é sabedor de que não há como estancar as dores de outra pessoa. Não de pessoas que tiram a hora de almoço para visitar suas emoções, e então voltam ao modo trabalhador cinco minutos antes de bater o cartão.
Você sabe que caminhar pela cidade faz bem à saúde, ainda que a qualidade do ar não esteja lá essas coisas, de acordo com o telejornal. Só que é lugar fora de quatro paredes, tem sombra e ao sol você quara seus pensamentos, aquece a rotina. Porque está fora de quatro paredes, diferente do quarto, quando você deita a cabeça no travesseiro e ela acha que é hora de trabalhar, transformando a sua noite em uma orgia de ilusões e quês de realidade.
Entende que amar não é para todos, ser amado é para poucos, apesar de os adeptos do positivismo exagerado relutarem em aceitar o fato. Por isso se permite ser amado sempre que possível, na forma mais ampla do amor, recebendo até mesmo os amores instantâneos, que são aqueles que algumas pessoas sentem por você depois de conhecê-lo em uma festa, ou durante o jantar que deveria ser somente para amigos íntimos, mas recebe estranhos. 
E também durante as canções. Permite-se ser amado por melodias e poesia, abraçando o significado de algumas para traduzir alguns dos seus próprios momentos.
É que você sabe que é pessoa, e que nessa condição, experimentará de tudo um pouco, e que nem sempre será no futuro próximo. E canções cabem até mesmo no daqui a pouco. Mesmo as velhas canções sobre um sentimento novo, quase inédito, digno de ser urgência para quem conhece um bom repertório para abrandamentos.


Imagem: sxc.hu



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3 comentários:

Ana González disse...

Carla, esta crônica é surrpeendentemente linda. Obrigada!
bjss Ana González

Zoraya disse...

Carla, você está se especializando em textos confeccionados em teias de lirismo belíssimo. Obrigada por salpicar de poeisa aos seus leitores (e eu sou uma leitora sua fiel). (e outra coisa, também gosto demais da Marisa Monte! Temos de sair para convesar sobre o Raylan e falar de música). Beijos

Carla Dias disse...

Ana... Obrigada a você. Beijos.

Zoraya... A poesia não quer largar o meu pé, pura sorte ou coisa de nascimento, porque ela sempre foi a linguagem literária com a qual mais flertei, apesar de vir publicando prosa. Bate-papo sobre Marisa Monte e Raylan Givens? E com você? Tô dentro :)