Pular para o conteúdo principal

OS MESMOS >> Carla Dias >>

Tem gente que sente fome de tempo, e vive lutando com a vida para garantir um direito inexistente, o de manter-se o mesmo. Isso não é direito, parece-me até meio torto, porque manter-se o mesmo remete à canção de melodia descuidada, ao verso em loop, à repetição. Manter-se o mesmo não é direito, mas vai contra o direito nosso de nos construirmos a cada dia, porque a vida nos influencia de tantas formas, e nem sempre nos damos conta de tais inspirações.

Ainda ontem, a vida cochichou algo em meus ouvidos. Meu corpo - há anos acostumado ao ritmo de quem trabalha sentada por quase doze horas ao dia, contemplando o horizonte da tela do computador - lembrou-se de alguns tombos que levou quando eu andava de carrinho de rolimã e brincava de queimada com as irmãs e as primas. E das vezes em que sonhou, escondido e baixinho, em ter coragem, como tinham suas tias e mãe, de pendurar no cipó da mata que ficava no fundo do quintal. De balançar com o vento. Isso eu não fiz, faltou-me coragem.

Não nasci para os esportes radicais de quintal.

Mas eu nasci para a vida, assim como nasce cada ser humano. Ao longo de sua jornada, a pessoa aprende que a transformação não é apenas natural, mas também rica em entendimento. Nem todos acreditam no espírito que habita o corpo e que pode continuar sua jornada após a morte, e eu respeito tal crença. Só que seria, para mim, imensamente doloroso imaginar uma vida que termina com o corpo. Porque mesmo este que já brincou em balanços de cordas penduradas em árvores, que carregou baldes e mais baldes de água, escada acima, para fazer comida, tomar banho, lavar louça e chão, que já encarou horas dançando na sala com as amigas, apesar de hoje estar fragilizado pela sua condição de sedentário, ele compreende a importância de ser casa da essência. Templo do que nos inspira, nos magoa e nos alegra, do que nos faz aquele que compreende que não há como manter-se o mesmo, e alcança o alívio.

Na condição de não ser mais a mesma que era há alguns segundos, de permitir-me transformar pelas pessoas que me cercam, pelas situações que eu vivo, pelas ambições modificadas, pelos sonhos descontinuados e pelos renascidos. Na condição de pessoa, ser humano de espírito mais desbravador que sua casca, pensamentos mais livres que seu corpo, em horário comercial, digo, a quem estiver disposto a me ouvir, que pode até parecer que não aos que me observam de longe - torcendo seus narizes ao visualizar o que reza o meu currículo e questionando por que o que sabem sobre mim não bate com o que enxergam – que sim... Eu existi ontem, existo hoje, amanhã... Quem sabe?

Eu existo e sou uma e outra e outras tantas a cada dia, a cada hora, a cada instante. E todas que sou moram em mim, nem sempre em plena harmonia, mas certamente em paz por jamais serem as mesmas.


Comentários

Zoraya disse…
E que sejamos felizes metamorfoses ambulantes, vivendo em harmonia na mesma casa! Beijos
Carla Dias disse…
Zoraya... Amém!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …