quarta-feira, 15 de agosto de 2012

OS MESMOS >> Carla Dias >>

Tem gente que sente fome de tempo, e vive lutando com a vida para garantir um direito inexistente, o de manter-se o mesmo. Isso não é direito, parece-me até meio torto, porque manter-se o mesmo remete à canção de melodia descuidada, ao verso em loop, à repetição. Manter-se o mesmo não é direito, mas vai contra o direito nosso de nos construirmos a cada dia, porque a vida nos influencia de tantas formas, e nem sempre nos damos conta de tais inspirações.

Ainda ontem, a vida cochichou algo em meus ouvidos. Meu corpo - há anos acostumado ao ritmo de quem trabalha sentada por quase doze horas ao dia, contemplando o horizonte da tela do computador - lembrou-se de alguns tombos que levou quando eu andava de carrinho de rolimã e brincava de queimada com as irmãs e as primas. E das vezes em que sonhou, escondido e baixinho, em ter coragem, como tinham suas tias e mãe, de pendurar no cipó da mata que ficava no fundo do quintal. De balançar com o vento. Isso eu não fiz, faltou-me coragem.

Não nasci para os esportes radicais de quintal.

Mas eu nasci para a vida, assim como nasce cada ser humano. Ao longo de sua jornada, a pessoa aprende que a transformação não é apenas natural, mas também rica em entendimento. Nem todos acreditam no espírito que habita o corpo e que pode continuar sua jornada após a morte, e eu respeito tal crença. Só que seria, para mim, imensamente doloroso imaginar uma vida que termina com o corpo. Porque mesmo este que já brincou em balanços de cordas penduradas em árvores, que carregou baldes e mais baldes de água, escada acima, para fazer comida, tomar banho, lavar louça e chão, que já encarou horas dançando na sala com as amigas, apesar de hoje estar fragilizado pela sua condição de sedentário, ele compreende a importância de ser casa da essência. Templo do que nos inspira, nos magoa e nos alegra, do que nos faz aquele que compreende que não há como manter-se o mesmo, e alcança o alívio.

Na condição de não ser mais a mesma que era há alguns segundos, de permitir-me transformar pelas pessoas que me cercam, pelas situações que eu vivo, pelas ambições modificadas, pelos sonhos descontinuados e pelos renascidos. Na condição de pessoa, ser humano de espírito mais desbravador que sua casca, pensamentos mais livres que seu corpo, em horário comercial, digo, a quem estiver disposto a me ouvir, que pode até parecer que não aos que me observam de longe - torcendo seus narizes ao visualizar o que reza o meu currículo e questionando por que o que sabem sobre mim não bate com o que enxergam – que sim... Eu existi ontem, existo hoje, amanhã... Quem sabe?

Eu existo e sou uma e outra e outras tantas a cada dia, a cada hora, a cada instante. E todas que sou moram em mim, nem sempre em plena harmonia, mas certamente em paz por jamais serem as mesmas.




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2 comentários:

Zoraya disse...

E que sejamos felizes metamorfoses ambulantes, vivendo em harmonia na mesma casa! Beijos

Carla Dias disse...

Zoraya... Amém!