Pular para o conteúdo principal

EU TAMBÉM ME ESQUEÇO >> Fernanda Pinho


Aconteceu há uns dois meses, num bar meio boate, onde eu estava com uma amiga. Já estava na fila, para pagar, bem próxima do atendimento. Notei um garçom se aproximar da moça do caixa e entregar a ela um cartão de banco, dizendo que alguém havia perdido. Quis fazer um comentário sobre o fato, e como minha amiga havia ido ao banheiro, comentei com os desconhecidos da fila mesmo.

- Que gente lerda, né? Como perde o cartão do banco? Tem gente que só não perde a cabeça porque é colada no pescoço.

Também pensei em dizer que eu poderia apostar que o dono do cartão estava caindo de bêbado em algum canto do bar, mas aí eu me lembrei da minha amiga. Não bebe nem refrigerante, mas há anos vem construindo uma indestrutível fama de desligada e esquecida. Assim que ela retornou à fila, pedi que conferisse se não havia perdido o cartão. Ufa! Não havia!

Chegou, então, minha vez de ser atendida. Abri a bolsa. Remexi as coisas dentro da bolsa. Documento, chave, batom, chiclete. Virei a bolsa de cabeça pra baixo. Apalpei a bolsa, na esperança de descobri um fundo falso. E...cadê meu cartão? Foi aí que me dei conta.

- Já sei o que aconteceu. Eu troquei de bolsa hoje e meu cartão estava na outra bolsa. Paga minha conta pra mim, amiga?

Assistindo à cena, a moça do caixa interveio.

- Será que não é seu o cartão que nós encontramos?
- Né não, moça. Eu nunca perco nada. Minha bolsa não saiu de perto de mim. Minha amiga vai pagar...
- Tem certeza?
- Acho que tenho...
- Qual é o seu nome?
- Fernanda.
- Fernanda P Barbosa?

Tive vontade de dizer que não. Não queria admitir que a lerda era eu.

- Sim, Fernanda P Barbosa.
- Então o cartão é seu. Toma.

Também cogitei dizer que eu não tinha conta naquele banco e que o cartão pertencia a alguma homônima abobalhada. Mas a preguiça da burocracia bancária para requerer outro cartão falou mais alto que o orgulho e fui obrigada a assumir: eu havia perdido o cartão.

Obviamente fiquei, além de constrangida, meio chocada com o fato. Tentando inutilmente recapitular em que momento eu me desliguei da minha bolsa. Me impressionou tanto que já contei esse caso mil vezes e, agora, estou contando aqui para quem ainda não ouviu.

Por que tudo isso? Porque achei bem feito para mim. Como um bom exemplar da espécie humana também tenho essa mania de apontar um dedo pros outros, sem me dar conta de que, quando faço isso, estou apontando três dedos para eu mesma. De vez em quando é bom esquecer um cartão pra lembrar de certas coisas.    

Comentários

Cristiane disse…
Aconteceu comigo no domingo. Perdi a bolsinha com cartões de banco, de crédito, plano de saúde, carteira da Universidade, a CNH e ainda o dinheiro que ia usar para viajar.
Não me conformava! Como podia tê-los perdido? Logo eu, que não esqueço de nada, que sou super organizada, atenta, etc, etc. Viajei com dinheiro emprestado e com a RG que estava em outro local (ainda bem!).
Passei uma noite e um dia nesta angústia: como deixei que isto acontecesse? Me perguntava sem entender.
Tive a mesma sorte que você, meu marido encontrou a bolsinha num dos cantos misteriosos do carro... misterioso porque tanto eu quanto ele havíamos procurado lá diversas vezes e não encontramos.
No final, ficou tudo bem, mas serve mesmo de lição para aprendermos a não julgar. Fatos como estes são suscetíveis de acontecer a qualquer um.
Carla Dias disse…
A gente vive tomando sabão da vida, não? Só que, o que mais ficou me cutucando, foi o fato de você ser Barbosa... Eu sou Barbosa : )
Marilza disse…
Fernanda, o mais bonitinho de tudo é você assumir em público que fez aquilo que todos nós fizemos em muitas oportunidades, e ainda fazemos que é julgar o outro. Infelizmente, nosso olhar nunca é apaziguador, nem complascente para com as coisas que os outros e nós, em proporções maiores ou menores, fazemos também!.
Zoraya Cesar disse…
Fernanda, além da ótima crônica, divertida demais, foi mesmo uma liçao de humildade a todos nós, tão ciosos das nossas perfeições.Aliás, depois de muito fazer isso, apontar o dedo e furar meu próprio olho, resolvi assumir que sou miquenta. Adorei, obrigada! Beijos, Zoraya
Acho que é estresse, porque eu também sou "a perfeita", sei sempre em que lugar as coisas estão... Fato é que às vezes a gente tá fora de si e daí não tem ninguém pra conferir e botar ordem nas coisas fora de lugar.

Ps. tipo eu, que tô lendo a crônica sagrada que estava aqui desde quinta-feira a me esperar sem que eu me desse conta.

Ps2. mesmo sumidas (ambas), te amo super.
fernanda disse…
Muito obrigada pelos comentários, meninas!

Pois é, Carla, sou de um linhagem de Barbosa do interior de Minas. Gente brava e turrona. Bom saber que temos outra coisa em comun, além das palavras :)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …