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UM ANJO NA TERRA >> Clara Braga

Quem leu o título desta crônica e já imaginou que eu iria falar sobre o filme Cidade dos Anjos, errou! Eu gosto muito desse filme, e acho até que ele merece uma crônica, mas vai ficar para uma outra vez, agora o que eu quero mesmo é compartilhar uma grande descoberta: existem anjos entre nós! E esses anjos têm histórias que são tão bonitas quanto a de Cidade dos Anjos, só não viraram filme.

Só para que vocês possam entender melhor, eu estou falando de pessoas tão capazes de fazer o bem que acabam colocando a gente, meros mortais, em nossos devidos lugares quando julgamos que já estamos fazendo nossa parte quando doamos algumas roupas que não usamos para quem precisa, ou algo do tipo.

Vou explicar melhor: recentemente consegui uma bolsa pela universidade para trabalhar em um projeto chamado Pés?. Nesse projeto, nós ensinamos teatro e dança para portadores de necessidades especiais, desde aquele que só mexe um pouquinho os braços até aquele que tem uma deficiência quase imperceptível. O desafio é grande e ainda estamos aprendendo a como fazer uma pessoa que tem todos os movimentos dançar com uma pessoa que quase não mexe nada. Mas maior que o desafio é a satisfação de ver a alegria dos alunos de estar ali e também a evolução de cada um, e a nossa também.

Com um projeto bonito desses, é difícil não subir no banquinho e achar que seu lugar no céu já está garantido. Mas é ai que a gente conhece pessoas como a mãe de uma das meninas do projeto, e acaba repensando um pouco nossas atitudes. Ela é mãe de uma das alunas mais difíceis de trabalhar, pois, apesar de ter quase todos os movimentos, ela não fala nem entende quase nada do que nós falamos para ela. E foi em uma conversa com essa mãe que nós descobrimos que o marido dela é cadeirante, ela já o conheceu assim, se apaixonou e casou. Depois, ela passou em um concurso para trabalhar na escola especial, mas não poderia dar aulas só sendo formada, teria que fazer um curso específico para trabalhar com portadores de necessidades especiais, e foi nesse curso que ela conheceu a filha dela, já com 6 anos, e a adotou.

Como se não bastasse ter um marido cadeirante, ela escolheu, por conta própria, ter uma filha com uma deficiência grave. E foi nesse momento exato que eu percebi que quando eu tiro 4 horas da minha semana para trabalhar com essas meninas, eu estou, sim, fazendo um trabalho bonito, mas será que é só isso que eu posso fazer? Será que eu posso me julgar tão importante por fazer isso?

Não acho que todos nós temos que sair por ai adotando crianças com problemas físicos ou mentais, essa é realmente uma tarefa para poucos. Não é pra menos que me referi a essa mãe como um anjo, mas será mesmo que a gente faz o que realmente pode fazer por quem precisa?

Comentários

Ana Braga disse…
Clarinha 5 estrelas foi a minha avaliação. Seu olhar para o mundo realmente já deve ter mudado. Benvinda ao meu mundo, pois já me dedico profissionalmente há 25 anos nesta área. E também enxergo anjos por toda volta. Bj tia Ana

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