quarta-feira, 10 de agosto de 2011

SOLIDÕES >> Carla Dias >>

Eu adoro esse filme, e o tenho em VHS. Lembro-me que foi um trabalhão comprá-lo da locadora de vídeos da qual eu era sócia. E ainda o estou caçando em formato DVD para comprá-lo.

Já escrevi sobre ele, inclusive aqui. Porém, hoje ele será apenas o ponto de partida para a minha crônica.

Eu estava muito cansada, quase apagando, e zapeando antes de ir para a cama. Então, parei no TCM, um canal da tevê a cabo que passa filmes antigos, muitos clássicos. Eu levei um susto. Como assim? Não é clássico... E o que é clássico mesmo?

Clássico ou não, “Frankie e Johnny” foi lançado em 1991, tornando-se antigo o suficiente para entrar para a programação do TCM. Depois de suspirar mediante a década que me separava do dia em que o assisti pela primeira vez, entreguei os pontos, esqueci o sono, e o assisti novamente.

O filme não seria tão belo não fossem as atuações de Michelle Pfeiffer, a Frankie, e Al Pacino, o Johnny. Quando o tema é a solidão e o desejo de encontrar um amor que seja companheiro e verdadeiro, é muito fácil cair na pieguice, transformar o drama em uma comédia rasgada. Há sim um quê de comédia no romance, como há na vida. Mas se trata de um humor cotidiano, da capacidade de rirmos de nós mesmos, vez ou outra, durante uma tempestade emocional.

E no caso do filme, se trata da história de uma garçonete e um ex-presidiário que vai trabalhar no mesmo restaurante que ela, como cozinheiro. Poderia ser uma simples história de amor, mas o que cada um traz como bagagem emocional a torna catártica e tão interessante que você torce o tempo todo para que os personagens se dispam dos medos e se joguem na vida. Que saiam da condição de espectadores da vida e se tornem parte dela.

O roteiro de Terrence McNally é baseado em uma peça teatral de autoria do próprio. A direção de Garry Marshall e a música de Marvin Hamlisch tornam “Frankie e Johnny” um filme para se ter por perto, porque ele é dos que assistimos várias vezes.

Eu sei que disse que o filme seria apenas um gancho para a crônica, mas é quase impossível não falar sobre ele um pouquinho mais...

Na realidade, eu queria falar sobre a solidão, o tema do filme. Minha mãe costuma me perguntar, vez ou outra, como consigo viver só. Afinal, eu tenho 40 anos, não tenho filhos, e na versão dela, isso me torna só para o futuro também. Mas existe essa diferença... Viver só não é ser só. A solidão pode ser muito interessante, em determinados momentos da vida. Ela nos permite observar a própria história com a distância do parecer do outro. E às vezes isso é mais que necessário.

Eu não sou solitária, mas vivo só, como muitas das minhas amigas e amigos. Assim como eles, espero que um dia eu deixe de viver só para viver muito bem acompanhada. E me nego a viver mal acompanhada!

No dia seguinte ao filme, recebi uma mensagem de uma amiga com quem tenho conversado muito a respeito de dividir a vida com alguém. Recentemente, ela saiu de um relacionamento de alguns anos, e está aprendendo a lidar com a novidade de estar só e não saber se um dia estará bem acompanhada. Algumas pessoas passaram por ela e a fizeram pensar que fossem ficar, mas não ficaram. O desapontamento é compreensível, porque sempre esperamos o melhor, não é mesmo? E por mais que essa espera nos faça sofrer, desencadeie uma série de inseguranças, não consigo pensar em outra forma de se viver as oportunidades com as pessoas que passam pelas nossas vidas.

Eu não sei se é certo ou errado, mas quando se trata de qualquer tipo de relacionamento, não consigo estabelecer regras, usar redes de proteção. Vou de um salto, ciente de que posso planar ou cair de cara no chão. Acredito que essa consciência me permite viver meus afetos com mais liberdade, sem me sentir constrangida por ter feito escolhas erradas, por ter apostado para perder. Esse risco eu aceito bem, afinal, lidar com o ser humano é sempre uma jornada de erros e acertos, de perdas e conquistas.

Minha amiga não pensa tão diferente de mim, mas decidiu impor seu desejo de não sofrer tanto ao sentimento. Eu a respeito por isso, principalmente por me saber incapaz de fazer o mesmo. Então que, ao ler a mensagem dela, lembrei-me do filme. Lembrei-me daquela cena em que Johnny questiona Frankie sobre o motivo de ela não aceitá-lo, não permitir que eles fiquem juntos. E não termina com uma resposta, e quando ela vem, não é simples. Mas o mais interessante é que, ao dizê-las, ao reconhecer a existência dessa dificuldade, a vida deles se torna mais leve.

Quem não quer encontrar a sua Frankie ou o seu Johnny? E quem já encontrou, cuide bem, porque às vezes o destino dá de nos pregar peças, trançando o encontro das nossas vidas aos rompantes do tempo.

Aos desacompanhados, resta-nos a música de Terence Trent D’arby (Sananda Maitreya):



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4 comentários:

fernanda disse...

Carla, primeiramente, querioa dizer que adoro quando você fala sobre filmes. Sempre são dicas certeiras.

Me identifico com você e também com sua amiga. Tenho fases, e vou vagando entre uma postura e outra. No momento, estou mais arredia. Mas sei que é só até eu considerar um bom motivo pra me jogar de cabeça novamente :)

Bjos!

Marisa Nascimento disse...

Carla, acho que meu único comentário hoje é a identificação com seu texto. Eu vivo só, ainda não sei se sou só. Acho que, às vezes, muitas vezes, procuro ser...
Obrigada por mais esse texto...
Beijos

Carla Dias disse...

Fernanda, que bom que você gosta de quando escrevo sobre filmes, porque tenho de confessar... Se não tomo cuidado, escrevo sobre eles todas as semanas! Não sei ficar sem.
Tomara que apareçam muitos motivos para você se jogar de cabeça, minha cara. Sei que, às vezes, o que nos resta é um galo na cabeça. Mas na maioria, há aprendizado, conquistas.
Beijos!

Carla Dias disse...

Marisa,
Basta se identificar e pronto! Já sabemos que o ser só não é de solidão desembestada. É de solidão escolhida, das que nos dão um tempo quando enchemos a casa de pessoas que amamos para um almoço, e bate-papo e companhia. Beijos!