domingo, 28 de agosto de 2011

EM BUSCA DO TEMPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Não sei por onde começar. São dezenas de galhos que se bifurcam em centenas de galhos que se bifurcam em  milhares de galhos. O passado não é tempo, é espaço. A memória é planta. E quando vamos ao quintal colher a fruta da lembrança no pé, é difícil achar o caminho de volta para a casa do presente...

Recebi um e-mail convidando para um reencontro, em Fortaleza, de ex-participantes do Grupo de Jovens São Vicente de Paulo (GSV, para os íntimos e para os preguiçosos). Eu era um dos 36 destinatários do e-mail, todos com os endereços expostos feito galhos, inocentes de suas vergonhas descobertas. Não reconheci alguns nomes, não relembrei exatamente a fisionomia de outros, mas alguns fizeram parte do que a gente costuma chamar de "minha história".

Para que o leitor possa compreender o impacto desse e-mail é necessário que vez por outra, assim como eu, costume olhar para trás, para o passado, e se perguntar o que teria sido de sua vida se tivesse feito uma escolha diferente em determinada bifurcação, em determinado galho. Mais que isso, para que sinta o que eu senti pela leitura daquele e-mail, e dos que se seguiram a ele em resposta, é preciso que o leitor tenha a convicção de que não saberia como seria sua vida, hoje, se determinadas coisas não tivessem acontecido em momentos precisos.

Pois comigo aconteceu. Entre os dias 22 e 24 de agosto de 1986. Ideia de minha mãe. Como diz meu amigo e parceiro musical Manu Kelé, "se não fossem seus planos, eu nada seria". Pois foi minha mãe que quis que eu e minha irmã participássemos daquele "encontro de jovens" da paróquia de São Vicente de Paulo. Cada encontro, que acontecia aproximadamente de seis em seis meses, tinha um nome. O meu se chamava "Nova Vida". Não satisfeita em ter me gerado e parido uma vez, minha mãe queria repetir a façanha. Talvez porque da primeira vez eu não tivesse nascido muito a contento. Até os 7 anos, fui um menino irado, briguento. Dos 8 em diante, tornei-me retirado e triste, um rapaz tão tímido que era incapaz de falar com a própria irmã no colégio. Como seria minha vida se eu não tivesse participado do "Nova Vida"? Eu não tenho a mínima ideia, meu querido leitor. Você sabe me responder como seria a vida sem violões ou namoradas? Então...

O trabalho de parto começou na sexta-feira, dia das primeiras contrações, e o Eduardo que sou hoje nasceu na manhã do dia 24 de agosto, um domingo. Será coincidência que me coube o domingo aqui no Crônica do Dia? Quando fizemos a partilha dos dias, escolhi para mim a quarta-feira, coincidentemente o dia em que nasci, em 11 de novembro de 1970. Ofereci à Carla Dias escrever sua crônica no domingo. Ela disse que não podia. Trocamos os dias. A Carla me colocou em meu justo lugar: não de nascido, mas de renascido. Domingo. O dia do Sol. O dia do Senhor. Bem poderia ser também o dia das lágrimas que me escorriam dos olhos, salgado líquido amniótico de meu novo nascimento.

O leitor há de querer saber como eu soube que havia nascido de novo. Simples: eu estava amando minha  irmã: aquela com que eu brigava até os 7, aquela a quem eu ignorara a partir dos 8. Haverá outro motivo para a gente nascer, e renascer, além de amar? "Deus é amor", disse um certo, certíssimo, João.

Um ano, um ano e meio... não foi mais do que esse o tempo que passei no GSV. Esse tempo, que parece pequeno, foi o suficiente para eu dar meu primeiro beijo, ter minha primeira namorada, tocar e cantar em público, dançar em festas, participar de um trabalho social comunitário e entrar para um grupo musical religioso no qual eu ficaria por um ano, deixando pela primeira vez minha voz (segunda voz) gravada em um disco.

E depois sumi. Para aquelas pessoas que rezavam, tocavam, cantavam, dançavam e trabalhavam comigo, foi isso que aconteceu: eu sumi.

Para só reaparecer dias atrás, respondendo ao e-mail, dizendo que não seria possível eu comparecer ao reencontro.

Então Tereza, ainda de resguardo pelo recente nascimento de seu segundo filho, me escreve assim: "Gostaria de saber dessas mais de duas décadas em que estamos sem contato". E eu não soube por onde começar.

Escrevi para Tereza que precisava respondê-la literariamente, com uma crônica.

Cá estou, caro leitor. Cá estou, Tereza. Não exatamente sem palavras, porque já há muitas delas penduradas aí em cima, mas sem saber como contar 23 anos em uma crônica.

Não há como fazê-lo. E também não há como evitar a tentativa de fazê-lo. O leitor ainda aguenta continuar a leitura, ainda tem espaço no seu tempo para ir até o quintal deste seu vizinho escritor e, junto com ele, levantar a cabeça para observar o caminho dos galhos emaranhados?

A coisa toda talvez seja simples, de uma simplicidade sem demasiadas palavras. Esses 23 anos foram simplesmente de crescimento daquele bebezinho de então. O tocador de violão vai se transformando em compositor, com muita "Paciência" própria e de seus ouvintes. As terças-feiras de oração se transformaram em quartas-feiras de grupo terapêutico. A Irmã Iolanda é Irmã Admir (Pepeta). A comunhão da hóstia agora é comunhão de vegetal. As visitas à Comunidade do Trilho, que eram para evangelizar, agora são para rever meu amigo Manu e sua família. Os namoros se transformaram em casamentos, a água mole do amor perfurando a pedra dura da paixão. E continuo professando, só que como professor.

Há, ainda, alguns potenciais inexplorados. A dança, por exemplo. Tirando algumas tentativas isoladas em cursos de dança de salão, e uma temporada belíssima de Biodança, meu corpo já não entra facilmente no ritmo como antigamente.

Mas também há coisas surpreendentes, que não apareciam naquela criancinha. "Nunca imaginei que você era escritor", Tereza escreveu. Quem poderia realmente imaginar? E de onde vem o astrólogo que sou? Onde estava ele naquele menininho? Em mim mesmo, eu sei. Eu "pisava nos astros distraído". Eu mesmo imaginei e fui tecendo a intricada trama desses tantos galhos. O Pátio. O Crônica do Dia. O Labirinto. A Astrodramaturgia.

Tereza perguntou se "tem como encontrar, na busca do tempo perdido, a saudade que ficou de tanta gente querida"... Não é a saudade o gosto da fruta da lembrança? Há como não provar da saudade quando se relembra? Saudade da boa e da amarga ("que nem jiló"), como já cantava o velho Lua, Rei do Baião. E será estranho confessar que gostamos das duas feito quem gosta de chocolate também amargo?

Não, Tereza, não há como contar direito e direto essas mais de duas décadas. Não há crônica que chegue. Não há aula, consulta, sessão, canção que chegue. A verdade é que não sou um estranho que retorna ao quintal em busca do sabor de saudade na fruta da lembrança. Eu sou a própria árvore plantada. E, como árvore, eu não sou só eu. Nome de árvore não é indivíduo, é espécie.  Talvez nós, todos nós, todos que passamos pelo GSV, não tenhamos passado realmente. Talvez sejamos a mesma árvore, várias da mesma, aparentemente distantes, espalhadas na floresta, agora frondosas, não de jovem idade, mas de generosa idade, dando fruto, dando sombra, dando amor.

Saudade é a seiva comum que corre em nossos galhos.



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4 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, também participei de um grupo desses. Algumas pessoas ficaram e outras partiram para outras bandas e para outros planos.
Espero que você ainda renasça muitas vezes, porque nas ramificações a escolha é uma e nunca saberemos como seria a outra.
Que seus dias sejam sempre novas vidas, novas descobertas, porque você é uma surpresa boa e Alguém que, com certeza, está aqui nesta ramificação não por acaso.

fernanda disse...

Quando eu encontro alguém que eu não vejo há tempos e a pessoa pergunta "o que que eu tenho feito", prefiro dizer "nada". Afinal, tenho feito tanta coisa que dá preguiça de explicar. Escrever uma crônica é bem mais generoso e bonito. Tereza ficará feliz! Beijos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Marisa, Fernanda... eu só peço ao Senhor Tempo que não seja necessário eu buscar por vocês daqui a alguns anos. :) Grato,

albir disse...

Verdade, Edu, uma crônica não chega. Mas você pode tentar com duas, três, cem, que a gente vai gostar.