segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O SEGREDO >> Albir José Inácio da Silva

- Por que você não vai pra casa, se não está bem?

Pronto! Até os colegas perderam a paciência. Ela já ouviu poucas e boas do chefe por bobagens que não costumava cometer. Teve a solidariedade de alguns olhares, mas agora até eles a condenam.

Eu era seu melhor amigo e logo de manhã percebi que havia algo errado. Mas só ouvi um “não posso falar”. A doçura de sempre se transformou em medo, a ponto de perguntar “o que é?” quando alguém se aproximava da sua mesa. A princípio aborrecidas com sua desconfiança e grosseria, as pessoas ficaram surpresas. O que poderia operar tamanha transformação?

Deixaram-na quieta. O mau-humor deu lugar a suspiros tão profundos e ressentidos que nos circunstantes a raiva deu lugar à pena. Afinal, ela tinha um segredo.

Ela tinha um segredo, e os problemas de quem tem um segredo. Segredos costumam ser insuportáveis, por isso vazam. Revelados, às vezes, criam outros dramas, mas enquanto segredos são devastadores. Segredo é uma forma de tortura, e não guardá-lo é muitas vezes uma questão de saúde.

Ela tinha um segredo e tinha medo porque não se costuma perdoar os inconfidentes. Transpirou em bicas, teve dor de cabeça e a pressão, pôde senti-la no pescoço. Não trabalhou direito, não ouviu as pessoas ou não entendeu o que lhe foi dito.

Deixaram-na em paz, mas o chefe não. No final da tarde ela estava demitida. Já no corredor repetiu: “não posso contar”.

Dias depois encontrei-a por acaso, e era a amiga de novo. Antes que eu perguntasse, disse que o segredo se revelou uma bobagem que todo mundo já sabia, inclusive eu. Alguma coisa sobre uns amores proibidos de alguém, que até agora não entendi porque a tinha transtornado tanto.

O problema, explicou-me, foi a maneira como foi revelado o tal segredo, durante a noite, ela meio dormida meio acordada. Sempre teve medo dessas coisas, e pensando nas consequências protegeu com a saúde e o emprego um mistério que já havia escapado.

E ela tem lá suas razões, né? Até eu fico torcendo para só receber segredos em forma de cochichos, e de gente bem gente. Tomara que eu nunca mereça a deferência de revelações pouco palpáveis. Gosto de apalpar quem me faz confidências. No bom sentido, claro.

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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Albir, segredos e silêncio são companheiros, mas extremamente cruéis, não é?
Beijos

albir disse...

Obrigado, Marisa. Beijos.