domingo, 21 de agosto de 2011

POEMA DESATADOR >> Eduardo Loureiro Jr.

Não tenho moral para criticar o fast food. Pratico a fast poetry — poesia ligeira — com meus minúsculos poemas. Poeminhas que normalmente ficam no seu canto de blog sem incomodar ninguém e sem que quase ninguém se incomode com eles. Mas de vez em quando aparece um poema engraçadinho, metido a besta — como que a querer confirmar o provérbio de que tamanho não é documento — e resolve aprontar para cima do seu criador.

O primeiro era um poema que se escrevia assim:

Não sou Pacífico,
sou Atlântico
— Mar Tenebroso.
Quem atravessar,
ganha um mundo novo.

Eu tinha vinte e poucos anos, estava todo cheio de mim: "quem quiser encarar, que venha; não sou fácil, mas o prêmio é bom".

Anos depois, o poema — intrometido — me chamou para uma conversa: "não é bem assim", patati, patatá... e o poema e o poeta se reescreveram:

Não sou Pacífico,
sou Atlântico
— Mar Tenebroso.
Quando atravessar,
ganho um mundo novo.

Desde então, e já se passaram muitos anos, estou nesta empreitada de me atravessar, por vezes a remo, por vezes a nado.

Se puxo esse assunto todo logo hoje é porque, ainda ontem, me apareceu mais um poema engraçadinho e metidinho, que eu pensei que já havia ficado na gaveta virtual do esquecimento, escrito numa época de difícil relacionamento:
um nó
               nós dois

Poeminha, diga-se de passagem, que eu julgava "o máximo do paradoxo estendido na areia". Que genial colocar em quatro palavras todo o emaranhado de um casal! Mas eu não perdia por esperar...

E foi ontem, na verdade já esta madrugada, quando eu escutava uma canção que não ouvia há tempos da Flávia Wenceslau (compositora que não tem nada de minúscula), e cujo refrão é o seguinte:

"Eu vim pra quem me chamou.
De nó, eu sou desatador."

Era assim, desse jeitinho que está aí em cima, que eu distribuía as palavras de Flávia em meu juízo. Mas ontem, talvez porque fizesse frio, talvez porque eu comesse pipoca, talvez porque o dia tivesse sido assim tão sem nó, eu ouvi as palavras em linhas diferentes:

"Eu vim.
Pra quem me chamou de nó,
eu sou desatador."

E o mais recente poema intrometido — ainda mais intrometido que o primeiro — reescreveu o poeta sem se deixar reescrever por ele:

um nó
             nós dois

O nó é um: do retraimento, da insulação, da soledade.
Em dois, somos nós, desemaranhando um ao outro.

O poema é um nó do poeta que em nós desata.




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6 comentários:

Cristiane disse...

E o nós,
pode por vezes ser um nó complicado demais para desatar.

bises

albir disse...

Que legal, Edu! Traga-nos mais dos seus poeminhas esquecidos mesmo quando eles não incomodem.
Bom sabê-lo de volta.

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, ler você é apreciar a forma como ata as palavras, reinventa a poesia e desata o sentido, transformando o texto em pura arte.
Bjs

Alba Mircia disse...

Sabe quando você fica ali no nó tentando desatar? E torce pra lá, torce pra cá, vai com a unha, empurra com o outro dedo... e nada... A gente desanima e larga pra lá porque ficamos sem energia pra continuar por agora... Noutro momento retornaremos - em um nó só ou em nós dois.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, gente, por sermos nós.

Carla Dias disse...

Explicação tão poética quanto os poemas. Muito bom, Eduardo!