sábado, 27 de agosto de 2011

BRINCANDO DE CASINHA [Mariana Monici]

Desde muito cedo, nós, mulheres, somos apresentadas às brincadeiras de casinha, de mamãe e filhinho, etc. Na de casinha aprendemos a servir o chá com destreza, a organizar a cozinha, fazer comidinhas. Depois até lançaram brinquedos para facilitar a vida das pequenas donas de casa.

Lembro de microondas de brinquedos, liquidificador, maquininha de fazer sorvete. Tínhamos uma fritadeira também, em que se podia colocar água e as comidinhas, e, com uma bombinha de ar, soltava bolhinhas parecendo fritura. Para a criançada que gostava de comer porcarias em geral, existia um McDonalds em miniatura que era muito bonitinho — mas este nunca ganhamos. Fomos direcionadas para sermos mais saudáveis, acho.

Isso era a brincadeira de "casinha", que podia ou não incluir filhos, que estavam mesmo presentes era na brincadeira de "mamãe e filhinho". Lembro que lá pelos 7 anos, meu irmão cinco anos mais novo já tinha perdido as roupinhas de bebê, então andávamos pra lá e pra cá com uma bolsa estilo maternidade cheia de roupinhas dele para vestirmos as bonecas. Acho que não havia muitas mamadeiras, então revezávamos — eu e minha irmã, talvez uma ou outra amiga. Passávamos o dia trocando a roupinha das bonecas, a fralda, colocando chupeta e chacoalhando nossos bebês de um lado para o outro fazendo "shhhhhh".

E assim seguiram-se os anos da infância com nosso treinamento intensivo para sermos mães e cuidarmos de uma casa. De repente, lembro que muito provavelmente as duas brincadeiras não aconteciam simultaneamente, pois vamos combinar, sozinha, bebê e uma pia cheia de louça não é coisa que se ensine a crianças. Por que não haviam empregadas ou diaristas nas brincadeiras?

Bom, com tudo isso quero chegar em um ponto. Sabemos desde sempre a trocar uma fralda, mas não aprendemos nada sobre esperar os bebês nascerem. Nunca estávamos grávidas. No máximo, socávamos uma almofada embaixo da camiseta por cinco minutos e a boneca estava ali do lado em seguida.

E esperar? Não deveriam ter ensinado isso também? Não aprendemos o que fazer com os enjoos, nem com o sono repentino, muito menos com o marido — raramente existia este personagem nas brincadeiras (vai ver estava trabalhando pra trazer dinheiro para mais fraldas, sei lá... Não devem ter ensinado esta brincadeira aos meninos também.)

De forma que algumas coisas temos que aprender na raça mesmo. Uma surpresa atrás da outra! E é claro que eu sei que o bebê vai dar muito mais trabalho que qualquer boneca, mas vai ser muito mais emocionante e feliz na vida real.

Lembro que minha irmã tinha uma boneca – Nenezinho, da Estrela. Ela era fofinha, macia, aconchegante, pequenina. De vez em quando ela me emprestava. Um dia, resolvi pedir no Natal uma boneca igual. Então aqueles dias de espera do Papai Noel foram minha curta gestação, que parecia uma eternidade (isso sim é como a vida real!). Ficamos dias brincando e fingindo que cuidávamos da filha dela enquanto a minha não nascia. O parto foi no dia de Natal — ganhei a minha boneca —, só que esta era a Bebezinho. Era mais nova, mais bonita, mais cheirosa, mas não era tão macia, já que nunca tinha sido usada e não tinha cara de recém-nascida. Mas tudo bem, minha filha nasceu e a priminha adorou. Éramos duas mãezinhas experientes a cuidar de suas crias — e a fugir do tio dos bebês, que do alto de seus cinco anos só aceitava ser o Jaspion ou o Changeman e não queria brincar de segurar bebê nenhum.


PS: Comentando a respeito deste texto com meu marido, ele ficou bastante surpreso: não fazia a menor idéia de como era esta brincadeira de meninas com bonecas. Eu fico mais surpresa! E penso que, quando nosso bebê nascer, o choque de realidade (para ele) é certo!

Partilhar

2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boa sorte pra você e seu marido na brincadeira de "casona", Mariana. :) Divirtam-se.

Cristiane disse...

Fiquei rememorando várias brincadeiras ao ler o seu texto. Nos deixam de contar muita coisa quando somos pequenas, é verdade, mas talvez a surpresa seja a parte gostosa e inesperada da vida.

Um beijo!