sexta-feira, 16 de julho de 2010

CONHECI UMA FEMINISTA DÉBIL MENTAL
E VAMOS NOS CASAR EM BREVE
>> Leonardo Marona

“Se você for capaz de ser um verme,
será também capaz de ser um deus”
(Henry Miller)

— Escuta aqui, Marona. O que é que você tá fazendo há horas nesse computador? Já não te pedi aquele release, hã? Quanto tempo faz isso, hein? Que porra é essa, Marona? Que bando de papel riscado é esse e que merda você tá fazendo nesse computador, além do texto que te pedi há um milhão de horas?!

Ele cuspia enquanto falava, usava uma camisa de botão salmão e tinha um N decalcado em bronze na fivela do cinto gasto. Era uma lontra estúpida e me pagava o salário do mês. Veio pra cima de mim enquanto eu dedilhava sem dar muita atenção.

— Hum, vamos ver... Que porra é essa, hein, Marona, você pode me dizer? — e meteu aquela barriga na minha frente, um cheiro de porra de anteontem saltava do seu colarinho direto pro meu desespero, como se fossem amigos. Então começou a ler, bem alto: “Ela teve dificuldade com o zíper, uma, duas vezes, depois puxou com força, manobrou a cueca e caiu de boca, enquanto Old Bull Lee gemia um pouco e entornava mais um e limpava o umbigo com o mindinho flácido”. Muito bom! — e começou a aplaudir vigorosamente com um bico enorme no meio da boca. — Então quer dizer que temos um escritor aqui... Um escritor de sacanagem, não é isso? PESSOAL, VOCÊS SABIAM QUE O MARONA TAMBÉM É UM ESCRITOR DE SACANAGEM, ALÉM DE UM PREGUIÇOSO SAFADO? SABIAM? Que merda, Marona, isso é um lixo de anteontem! Não sabia que te pagava pra ser escritor. Talvez tenha perdido alguma coisa nessa história, hein? Talvez você possa me dizer o que foi que eu perdi nessa porra dessa história, hã, que tal? Você acha que eu sou um babaca que deve ser enrolado, não é mesmo? Quem sabe você não gostaria de me ver triturado numa lata de sardinha em pleno Atlântico, hein, Marona? Que me diz disso? Você gostaria de me foder, NÃO GOSTARIA?

— Hum... Teria que consultar a minha agenda, Sr. Nilo Sérgio Alves Félix Júnior. Mas desconfio que o senhor vai ter que pegar a sua senha, assim como todo mundo. Seria mais justo, não acha? Eu acho. O senhor, se quiser, vai ter que pegar a sua senha e esperar no fim da fila...

Ele me olhou. Eu olhei de volta e sorri. Ele não. Olhou pra trás, pro lado, puxou as calças com a matraca apertada, fez um giro com as sobrancelhas e depois debruçou as duas mãos sobre a mesa, como duas toras de madeira podre. Sussurrou com raiva na forma de uma gosma branca nos cantos da boca:

— Você sabe quem fode quem aqui, não sabe, Marona? Ah, sim, imagino que você saiba...

— O senhor não gostaria de publicar o meu livro, Sr. Nilo Sérgio Alves Félix Júnior? Se fizer isso, prometo, posso pular alguns lugares na fila pro senhor. Então veremos...

— Marona, você é um plagiador de uma figa, sabia? Pensa que existe espaço pra encostados como você na indústria editorial? Já andei te observando... As merdas que você escreve, o baixo calão do teu cuspe seco e triste. E posso te dizer: ninguém quer saber de Bukowskis brasileiros. Ficar por aí salpicando tristeza nos outros e caindo pelos cantos, como se a vida toda fosse um buraco cheio de pus... Isso não vai te safar, não. Eu já saquei a tua, Marona!

— Shhh... Tudo bem, então, o senhor me desmascarou, o que se há de fazer? Agora, por favor, vê se não espalha por aí senão acaba com o meu encanto... E o que é um escritor encostado sem pelo menos um encanto? Não muita coisa, não é mesmo? Então, posso contar com o senhor? — e pisquei o olho cheio de dentes logo abaixo.

— Marona, você é um patife miserável de merda, sabia?

— Pois é... Sorte a minha... Nasci no lugar certo.

Se você fosse suficientemente desaforado ou se dissesse coisas sem sentido, ele saía fora, um pouco tonto, e passava a infernizar outro pato um pouco mais bem abotoado. Produção editorial, my ass! Era sempre do mesmo jeito. Ele levantava o dedo indicador, começava a balançar aquele troço na minha frente, espremia a boca, tomava ar em seguida, olhava pra trás uma vez, depois outra e então não dizia nada, apenas saía pro outro lado da sala. E falava do meu linguajar chulo. Cu! Por que não ânus? Mijo! Por que não pipi? Filho da puta! Por que não presidente de uma grande corporação? Não compreendo, sinceramente, por que alguém ainda se preocupa com o linguajar numa época em que a overdose que mais anda matando é a overdose de si mesmo. Como diria o Coronel Kurtz, treinamos os jovens para atirar nas pessoas, mas seus comandantes não permitem que escrevam “foda” nos seus aviões porque é obsceno. Então tudo bem. Vamos todos falar direito, ser educados, engolir a seco, chorar escondidos, limpar os cantos da boca antes de dar um gole, cruzar os talheres apropriadamente, dizer “hum...” depois de assistir a uma adaptação de Tristão e Isolda no Teatro Municipal, sorrir por aí chutando latas, assobiar hinos libertários, dizer bom-dia, boa-tarde, boa-noite, boa-viagem, sempre pensando “nunca mais volte e não me peça o da passagem”. Vamos fazer tudo por uma morte feliz, mas não existem mortes felizes.

Deu as seis e escorreguei pra fora daquele buraco feculento que nem uma bisnaga de açúcar de confeiteiro bem espremida. Eram quatro lances de escada e no segundo deles, às seis da tarde, uma mulher velha estaria sempre me esperando com a vassoura na mão, sem varrer absolutamente nada, apenas pra dizer vai com Deus, meu filho e acenar com a mão, forçando ainda mais o cansaço estampado no seu rosto. Eu dizia obrigado, sem saber qual era a da velha, se ela queria colo ou não. Devia botar o relógio pra despertar, ou me amava, ou então era doente, ou quem sabe era doente, me amava e tinha um neto parecido comigo. Sei que era mecânico demais. Às seis, pá!, descer as escadas, quarto, terceiro, segundo, Vai com deus, meu filho, Vou sim, senhora, obrigado, primeiro andar e rua.

Gostava de passar no bar da esquina da rua da editora, onde sempre tentava puxar assunto com uma mulatinha de cabelos eriçados e cotovelos esfolados, que matava o tempo lavando copos, roçando a sola do pé na panturrilha e puxando a calcinha pra fora da bunda. Mecânico também. Ninguém queria ver nada por muito tempo, então as pessoas simplesmente fechavam os olhos e começavam a apertar parafusos ou botões e rezar a Deus Todo Poderoso. Eu acordava e já sabia até em que posição iria dormir e se ia acordar gozado ou não. Isso ajudava a escrever. Eu tinha do que reclamar e isso era o lubrificante da engrenagem toda. Menos pro Dr. Sabe Tudo lá da produção editorial.

E quando eu grudava os olhos na panturrilha sendo roçada por pés grossos, ela já sabia o que seria:

— Então, Malu, eu te amo, casa comigo?

E ela voltava com o copo e com a garrafa, quando muito com um sorriso. Depois dava as costas e dizia claramente com os quadris, enquanto voltava pra debaixo da pia e dos copos sujos: Po-de o-lhar, mas não vai ba-bar. Eu dava então os meus pinotes, observava as rodas de dominó dos garçons que estavam no intervalo, formadas em cima de latões de lixo, com algumas notas e umas moedas contadas por um velho de boina, que mastigava a bochecha e anotava sabe-se lá o que num papel bem pequeno. E eram sempre os mesmos velhos, desde os tempos em que eram novos e eu era um camundongo de uma corte real qualquer. Um sujeito que usava óculos de grau, mas nunca os colocava no meio do nariz, deixava sempre preso na testa, como aqueles cantores de bandas de pagode com oito integrantes que dançam, apontam e te fazem vomitar. Mas era um velho e um velho fica engraçado parecido com um cantor de banda de pagode, assim como um velho fica engraçado com uma guriazinha ao lado de mãos dadas, seja ela sua neta ou não. Além do que, este garçom tinha a incrível habilidade de trazer maços de cigarros grudados ao sebo acumulado na testa, se você os pedisse da maneira certa. “Ô, Bacuri, um com sebo!”. O outro garçom que juntava os tijolinhos na mesa era um tamborete, dizia tudo junto, falava em blocos, e ninguém entendia uma palavra. Eu nunca soube de onde ele vinha. Os outros eram bem parecidos. Bigodes grisalhos, calças altas, maneiras antigas, cabelos para trás, pentes finos nos bolsos, lenços velhos de assoar o nariz, olhares tanto-faz. Impossível diferenciar um do outro. Podem tentar: Rua Marquês de Guarnapé, número 35, sobrado. Seis da tarde, em ponto.

Tomei a rua outra e vez e vi que, de repente, todas as mulheres olhavam pra mim. Algumas olhavam pra mim, depois pra baixo, então mordiam os lábios, outras passavam com um sorriso entalado, depois viravam pra trás junto comigo e davam uma conferida. No quê?, me digam vocês. Eu também não sei. Nunca entendi por que as mulheres olham pros homens. Deve ser pelo suor e pelas veias explodindo nos braços debaixo do sol. Algum resquício da idade da pedra, ou então são malucas. Sei que me senti bem. Me senti bem, um sujeito viril, e fiquei com medo de estar perdendo tempo, não pulando em cada cintura e dizendo que sim, que ia com ela. Com cada uma delas. Deusas abandonadas no inferno sem saber como pisar na lava quente, focas amestradas em batom encarnado e rímel, pernas curtas de cintura abaloada, pernas longas de joelhos tortos pros lados, pés, dedos, o do meio muito maior que o dedão, o dedão sem um pedaço da unha, pintado de rosa-bebê. Unhas grandes, unhas curtas, unhas sujas. Pêlos. Às vezes demais, de menos nunca é de menos. Alguns pés que te diziam me lambe enquanto passavam. Eu não usava perfume. Eu não me olhava no espelho. Eu limpava o nariz todos os dias para respirar melhor. Às vezes sem ir ao banheiro. As roupas? Eu as usava até virarem trapos. Nenhuma tinha a cor ou a textura que deveria ter. O que se passava, então? As mulheres estão sem homens. Todos se preocupam com o fim do mundo e com o próximo capítulo da novela e o próximo motivo pra beber até o chão e as mulheres já não sabem o que fazer. Então namoram com o espelho e com milhões de camadas de borracha na cara e em todo o corpo, mas isto não é capaz de segurá-las pelos cabelos e galopá-las pra valer, nem de protegê-las da chuva com a camisa, nem de dar-lhes colo ou um dedo pra chupar, muito menos de fazer coçar legal lá embaixo. Então inventam teorias, como todo mundo que não tem mais o que fazer.

Virei uma esquina e elas vinham vindo, de braços dados, duas meninas. Uma delas me encarou mordendo a boca — maldição! —, enquanto dizia à outra, como se eu não estivesse ali:

— AH! Ó, eu tava olhando pra esse cara e daí me lembrei que...

E as duas continuaram, de braços dados, rindo pavorosamente, provavelmente falando de algum desses babacas da televisão, ou melhor, se o sujeito se assemelhava a mim, provavelmente era algum babaca da televisão que já não aparecia na televisão há bastante tempo.

Quando parei no sinal, uma menina loira que vinha logo atrás, conversando com sua pasta, olhando pra baixo, uma daquelas que nunca viu um pau estourando com veias vermelhas e arroxeadas, parou e não me olhou. Falava com a pasta, talvez decorasse qualquer fórmula de álgebra. Ela tinha cara de álgebra, mas uma álgebra calculável. Claro, tinha uns óculos enormes e... Uma boca... Que boca! Fechada, os dentes poderiam ser menores, mas no mais era perfeita, com linhas espanholas, carne de sobra ali e nada pra mim. Fiz um teste, fui pra trás dela e fiquei bem ali, exatamente atrás, quase colado, pernas praticamente juntas, esperando o sinal abrir. Ela então olhou pra frente e ficou... Senti que empinou um pouco a bunda pra trás, como um rabo de gato no cio, que percebe a confusão e adora. Olhou então pro lado e ficou... A bundinha balançando, procurando sarna. Mas ela continuava agarrada na pasta e falando baixinho. Talvez fosse débil mental. Sem problemas. Se eu fosse um, me divertiria mais, eu acho. Poderia babar a vontade, meter a mão na bunda e cheirar depois, apontar as pessoas na rua, cuspir num afresco de igreja, e ninguém diria nada, a não ser “pobrezinho”. Tudo bem, eu passo com o “pobrezinho”. Todos te dizem isso o tempo todo, você sendo um débil mental ou não. Só que acham que o débil mental, além de débil metal, é surdo. E nada me preocuparia a não ser a hora de limpar a baba e fazer popô. Mas não tinha baba nenhuma ali, por enquanto.

O sinal abriu. Fui andando atrás dela e ela olhando pro lado. Eu parecia um daqueles babacas pintados de branco e com um nariz de palhaço que imitam os movimentos das pessoas nas ruas até serem assassinados por um psicopata de ovo virado. De repente ela parou, virou, me olhou e sorriu. Não suportei. Segurei seu braço e uma velhota me deu com o cabo do guarda-chuva na quina da testa. “Pera lá, vovó! Somos amigos!”. A vovó deu mais umas três bordoadas, então parou e olhou pra loirinha boca-aberta que não disse nada. Seu papo era com a pasta. Mas ela me olhou e sorriu novamente. E, pelo que eu saiba, eu não sou loiro, nem tenho olhos azuis, nem um metro e oitenta, nem passo creme no rosto antes de dormir e nem uso touca de tomar banho ou creme pós-barba. A velhinha tava esperando alguma reação da guria. Eu também. Finalmente, então, ela deixou escapar: “É... S...s...s... somos amigos”. A velhota se mandou, sem deixar de dizer o quanto eu parecia um marginal com meus modos e com a barba avançando pelo pescoço.

Daí a loirinha me olhou fixamente. Ela olhava como se não visse há muito tempo. Eu olhava como se qualquer tempo servisse pra nada. “Você bebe, além de conversar com a pasta?”, perguntei, procurando seus olhos que, súbito, baixaram novamente.

—eunãopossobeberporquetenhoqueestudarprumaprovaetambémnãoteconheçodireitoe... infelizmente... nãovaidar, foi o que ela respondeu.

— Vamos com calma, sim? — eu falei, empurrando o ar com as mãos. — Você tem que falar pra fora, assim, ó: VÁ-A-MERDA-E-NÃO-ME-ENCHA. Tem que articular a mordedura pra mandar babacas como eu irem pastar. Tudo bem? Vamos tentar de novo, então?

— T-u-d-o-b-e-m — ela disse.

— Ó-t-i-m-o! — eu disse.

Não perguntem por quê. Ela me deu a mão e continuamos andando. Eu me dava bem com os retraídos e adorava atazanar a vida dos saidinhos.

Ficamos um bom tempo de mãos dadas, sem falar. Andamos uns oito quarteirões. Nem eu nem ela parecíamos saber de nada. Ela parecia esperar alguma orientação. Este era o meu estado natural. De repente eu parei.

— Veja bem, eu sei que o dia está ótimo, mas temos que dar um rumo nesse passeio, não acha? Já que, pelo visto, você adora conversar, que tal uma bebidinha.

Ela continuou agarrada à pasta e aquiesceu. Fácil como isso. Sentamos e mandei descer uma.

— O que tem nessa pasta? Seu coração? — perguntei.

— não,sãounsestudossobrehomensquebatemnassuasmulheres... e... eporfavorsenhornãomemachuque...

— Êpa! Lembra do combinado? AR-TI-CU-LAR-A-MOR-DE-DU-RA. Abre bem o bocão e fala pra fora. Vamos lá.

— São-al-guns-es-tu-dos-que-es-tou-fa-zen-do.

— Estudos? Claro... E sobre o que são os seus estudos, posso perguntar isso?

— Car-ti-lha-fe-mi-nis-ta.

— O quê?! Cartilha feminista?! Garota, pelo amor de deus, você não se meteu nessa também, por favor, não diga isso. Você não pode... Seus olhos são muito bonitos... Por favor, não perca tempo com igualdades inventadas. Olha o que isso faz com você. Está se curvando... Se continuar assim, quando tiver sessenta anos vai estar cheirando a própria bunda. E você não quer cheirar a própria bunda, quer? Olha... Abraçada nessa pasta, falando sozinha, olhando pro chão...

— Te-nho-que-de-co-rar-a-car-ti-lha.

— Quem foi que te disse isso, hein?

— Do-na-Ma-til-da-a-di-re-to-ra-do-mo-vi-men-to.

— Movimento? Garota, vou te falar sério agora. Por favor, não fique chateada, mas o único movimento que a Dona Matilda conhece é aquele que entra-e-sai com o dedo no cu. Que movimento que nada! Olha só pra você. Essa camisa não é pra você. Abotoada desse jeito... Pra que isso? Acho que até em mim ficaria esquisita. Parece uma cartolina enrolada. E qual o problema entre homens e mulheres, no final? Quase nenhum. Pense bem. Não é nada pior do que com homens e homens, homens e elefantes brancos, homens e cobradores de impostos, homens e padres chupadores de pica. Os problemas são os mesmos de sempre. E eu não entendo as feministas...

— O-quê?

— As-fe-mi-nis-tas.

— ...

— Por que tanto dedo pro alto, tanta cobrança sobre abusos de poder? Elas contrariam uma natureza de poder estabelecida, cobram atitudes dos governistas, chamam os homens disso e daquilo, dizem que são uns porcos malditos, mas, no fim das contas, a maioria delas fica com a mesma cara dos homens. Com a cara de um general da SS. Querem apenas substituir merda por bosta. Dona Matilda, por exemplo. O que ela diria se te visse aqui comigo? Provavelmente te mandaria ir pra casa plantar verduras e pendurar broches em chapéus de feltro.

— elaélegal...

— O quê?! Olha o combinado...

— Do-na-Ma-til-da-e-la-é-le-gal-en-si-na-o-que-é-di-rei-to.

— Direito? Então você acha que é direito uma menina com uns olhos do tamanho dos teus, uma boca... Perdão, mas uma bela boca, cheia de carne e vida, ficar por aí conversando com uma pasta, decorando cartilhas de como reduzir os homens a cinzas, falando igual ao Robocop? Tudo isso porque a Dona Matilda disse que é direito? Escuta, precisamos dos homens e das mulheres da mesma forma, não temos escapatória. Por que você acha que algum dia se falou em mal-estar na civilização? Porque essa é a natureza das coisas. Olhar e ver apenas pernas se mexendo ao redor e correr atrás delas sem entender nada muito bem, mesmo que inventemos as mais incríveis teorias apenas pra aliviar a tensão. Se largar um pouco! Homens são crápulas e mulheres os ensinam a viver, pro bem ou pro mal. Isso é o que é... Cartilhas não vão te dar nada a não ser pastas de plástico pra conversar. Você acredita no que eu tô te falando?

— Do-na-Ma-til-da-fa-lou-pra-eu-já-mais-com-ver-sar-com-um-ho-mem-que-be-be.

— Hum... Dona Matilda falou isso também... E o que ela faz nos tempos livres, bombas de hidrogênio, bonecos de vodu?

— E-la-dis-se-que-são-a-pro-vei-ta-do-res.

— Nisso ela tem razão. Adoro me aproveitar, você não?

— ...

— Que foi, garota?

— queriasabersevocêvaimeestuprar.

— Quê? Vamos lá... Pra fora.

— Se-vo-cê-vai-me-es-tu-prar.

— Veja bem, garota, Dona Matilda tá te deixando tchu-tchu. Nem todos os caras que bebem estupram meninas com pastas. Mas vou te dizer, estupradores adoram meninas loirinhas com pastas, que não sabem falar direito. É disso que eles gostam. E isso eu aposto que a Dona Matilda não te falou. Olha, você tem um papel e uma caneta aí? Queria escrever um recado pra Dona Matilda. Você entregaria a ela por mim?

Ela me alcançou papel e caneta.

Prezada Dona Matilda,

Conheci a...

— Um minuto, garota. Ainda não sei o teu nome...

— Evelyn.

Prezada Dona Matilda,

Conheci a Evelyn, sua pupila. Gostaria de dizer que a menina é um encanto. Ter conversado com ela me encheu o dia de um azul sem tamanho, tremenda era a sua desenvoltura, seu arrojo, a garota sabia se impor e me explicou tin-tin por tin-tin do que se trata o movimento feminista moderno. Achava que iria me dizer que os homens isso ou aquilo, mas a menina não gosta de generalizações. Fiquei receoso no início, com medo de me atrapalhar, mas quando ela pegou na minha mão e a esfregou junto da sua com o mais sincero carinho, o mais altruísta sentimento de afeto que já experimentei, e me convidou para tomarmos um café, com dez minutos eu estava no céu. Rimos muito, Dona Matilda. E eu te garanto, se todas as feministas fossem como a Evelyn, se todas usassem seus cabelos de forma tão natural quanto ela, e se todas sustentassem um sorriso tão claro e com os olhos tão espremidos quanto os dela, não haveria por que existir machismos nem feminismos. Todos seriam apenas bichos do amor. Portanto, Dona Matilda, achei que seria certo comunicar à senhora que Evelyn e eu pretendemos nos casar algum dia. E que ela disse que cuidará da casa durante um mês, enquanto eu trabalharei no livro que pretendo terminar. E depois, quando o livro estivesse pronto e o dinheiro começasse a entrar, trocaríamos de posição; eu lavaria os pratos e assobiaria e cuidaria dos pássaros e da tartaruga que compraremos juntos e a qual daremos o nome de Demilus — já decidimos isso —, e ela cortaria a grama e traria o dinheiro da maneira que pudesse. Tudo dará certo, Dona Matilda, acredite nisso. E que a senhora fique certa de que deu forma, com suas pregações, à mulher da minha vida, para sempre...

Cordialmente,

Leonardo Marona.

Devolvi a caneta a Evelyn. Enfiei o papel dobrado no seu bolso da calça. Então peguei com as duas mãos nas suas bochechas e depois lhe tasquei um beijo na testa.

— Garota, me promete duas coisas? — perguntei.

— O-quê?

— Um: que você não vai ler este recado que eu coloquei no seu bolso até que Dona Matilda o tenha lido primeiro. Dois: que se alguma coisa, qualquer coisa mesmo, te acontecer com relação à Dona Matilda e “O Movimento”, e você tiver vontade de chorar ou se matar, em vez disso, você vai me ligar imediatamente para nos encontrarmos neste mesmo lugar e conversarmos. Aqui está meu telefone. Guarde. E então? Posso contar com a tua cumplicidade?

Estendi a mão à sua frente, para firmar o acordo, e ela começou a chorar levemente. Achei que fosse demorar mais do que isso. Depois o negócio todo acelerou e ela já segurava o rosto com as duas mãos, não deixando nenhum espaço para as lágrimas descerem. Soluçava e, ao mesmo tempo, sentia vergonha. Eu realmente não sabia o que fazer. Eu não estava soluçando, mas também sentia vergonha. Então segurei os seus braços, depois a sua cintura. Desabotoei três botões da sua camisa, soltei os seus cabelos, passei os dedos por debaixo dos seus olhos. Pude reparar pela primeira vez em como suas mãos eram finas e bonitas. Dei meu ombro e ela se juntou a mim como se eu fosse um velho cobertor da infância. Ficamos algum tempo como uma coisa só. Os soluços diminuíam e aumentavam. Ela era uma figura frágil tapeada por um mundo concreto e virulento. Eu também era, mas me fingia de durão, o que era difícil de sustentar por muito tempo. E me sentia bem por ter finalmente alguma coisa de verdade por perto, mesmo que fosse um desespero de verdade.

Falei. Sobre coisas que eu gostaria que fossem, mas não seriam nunca. Prometi a ela longos passeios por cafezais ensolarados. Pela manhã tomaríamos banhos de sol e leríamos nossos livros. Eu falaria mal do sentimentalismo suicida e das tediosas descrições naturalistas da Virginia Woolf e ela me lembraria que, sem a bebida, nenhum dos meus escritores preferidos teria escrito coisa alguma. Pela tarde jogaríamos água um na cara do outro, eu a colocaria na garupa e cairíamos esgotados sobre a grama, sob a sombra de uma pitangueira; e ela adoraria chupar as pitangas do pé enquanto eu daria cambalhotas toscas dizendo serem muito boas cambalhotas. Riríamos um bocado. E pela noite daríamos beijinhos curtos de todos os tipos e ela ficaria impressionada com o fato de que é simplesmente impossível olhar para os dois olhos ao mesmo tempo. Mas mesmo assim ficaríamos algumas horas tentando e por fim nos contentaríamos com um olho só. Depois faríamos uma guerra de travesseiros. Eu bateria pra valer e riríamos até chorar ou até que algum travesseiro estourasse. Eu leria para ela dormir nas primeiras três linhas e então, mesmo depois que estivesse com os olhos fechados e a respiração compassada, continuaria no seu ouvido sussurrando carinhos até que eu mesmo adormecesse.

Disse a ela que nada ficaria bem jamais, mas que seríamos um o escudo do outro. Ela chorava, ainda com as mãos na cara, mas agora sorria com seus dentes que poderiam ser um pouco menores, mas e daí. Por fim, me falou sobre como a vida era um gigantesco alçapão, andar por aí para ter os pés arrancados subitamente, como nos apoiávamos em galhos podres e como doía a queda. Ela não agüentava mais chorar sozinha debaixo do chuveiro. Eu já nem chorava mais. Mas quando Evelyn me abraçou e pediu, baixinho, à sua moda, que eu cuidasse dela, despejei uma lágrima quase seca no seu ombro e me senti um homem completo por um minuto completo.


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2 comentários:

Gian Le Fou disse...

Lendo essa crônica extraordinaria, sensacional, nao consegui tirar essa frase da minha cabeça: "Vamos fazer tudo por uma morte feliz, mas não existem mortes felizes."

Pode ser só uma interpretaçao minha, mas é como se tudo girasse em volta dela, as alegrias e as tristezas (ambos sentmentos que senti ao ler seu texto), mas acho que essa é a vida né? Parabéns!

Grande abraço!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Simplesmente perfeito, Léo!