quarta-feira, 21 de julho de 2010

ACONTECE QUE ACONTECE >> Carla Dias >>

Quando passamos por uma experiência que mexe não apenas com a cabeça da gente, mas principalmente com a alma, fica difícil sintonizar a rotina, voltar ao nosso próprio universo.

Acredito que isso aconteça nas nossas vidas, vez ou outra, para nos lembrar de que pode sim haver momentos de plenitude, quando a alegria não nos deixa apreensivos, por esperarmos que ela fuja de nós, antes de podermos conhecê-la melhor. Quando sentimos que, quando ela partir, deixará boas lembranças, as quais poderemos sempre revisitar.

Momentos como este têm muita importância para mim, já que sou das que raramente os alcança. Minha alma é tão inquieta que, boba, perde com frequência a leveza dos acontecimentos. Mas quando consigo me permitir ficar onde está a leveza, a experiência é das raras.

Engraçado é que, com esta permissão para ficar, vem também a vontade de partir, de seguir adiante. Não conheço muitos lugares desse mundo, tampouco o mundo que cada um deles pode desvelar. Ao mesmo tempo, é como se este mundo viesse a mim, constantemente, e beijasse minhas faces, mandasse notícias, não permitisse que dele eu nada soubesse.

Então, sinto saudade de onde nunca estive.

Esse lugar onde me perderia em horizontes, nas noites mais frias, no silêncio das necessidades cotidianas. Onde a vida transitaria com menos pressa, desfilando pensamentos nascidos há tanto tempo, mas jamais explorados, anteriormente. Onde café com leite acompanhado por biscoitos de chocolate faz todo o sentido. E dormir é muito mais fácil, como uma viagem agradável a um universo que visitamos apenas de olhos fechados, justamente para enxergarmos melhor o que andava enevoado, enquanto caminhávamos por autodecasatos.

Imagem: Wassily Kandinsky

www.carladias.com

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4 comentários:

fernanda disse...

Eita, Carla, confessa: vc instalou uma microcâmera em mim e está escrevendo sobre os acontecimentos recentes da minha vida? Só que do jeito que você escreve fica tudo muito mais bonito...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, moça, acontece...
E deixa a moça reticente, sem deixar a gente saber direito o que aconteceu. :)

Marilza disse...

Realmente, sinto-me por vezes personagem desses seus escritos, como se muito de mim fosse retratado.
Só vc mesma sabe porque e pra quem escreveu..
De qq forma é muito bonito.

Carla Dias disse...

Fernanda... Eu sabia que não era lá muito boa em instalar microcâmeras : )

Eduardo... Acontece mesmo! E aconteceu que a moça reticente teria de escrever um ensaio para explicar o acontecido. Mas pra resumir, escrevi a crônica.

Marilza... Sinta-se à vontade para vestir os personagens dos meus escritos, pois eu os escrevi para quem quiser vivê-los e porque eles merecem ter companhia.