segunda-feira, 19 de julho de 2010

A FÁBRICA >> Kika Coutinho

Essa noite, quando a Sofia adormeceu no meu colo, aproveitei para fazer nela uma inalação básica.
Ali, naquele quarto escuro, meu marido esperava que terminássemos quando eu perguntei pra ele aos sussurros: “Não é inacreditável que foi a gente que fez esse bicho?”.

Ele fez que sim com a cebeça, pensativo. Eu continuei, ainda cochichando: “Pensa bem, amor, ela não existia. Dá pra acreditar?”. Ele, como não sabe sussurar direito, respondeu com a cabeça que não, não dava mesmo pra acreditar. “Será que ela não existia mesmo? Será que é verdade essa história de óvulo, espermatozóide e, de repente, uma criança?”. “Acho que é verdade, sim” ele respondeu, bem baixinho, me levando a sério demais.

A inalação acabou, ela dormiu e eu estou até agora me perguntando se não seria muito mais factível que essa coisa toda fosse uma farsa. Alguém fabrica os bebês, põe uma sedação na gente, e, depois, faz a gente achar que nós que fizemos, claro.

Pra mim, é muito mais óbvio que exista uma fábrica subterrânea, um porão tecnológico onde os bebês sejam montados com um monte de gosma ou, até, com massinha, não sei. Depois dão uma injeção na massinha que ela ganha vida. À noite, quando todos dormem, um caminhão traz esses seres pra cá, devem ter uma arminha que solta a sedação e ninguém acorda quando eles entram. Trazem o bebê e criam – com a própria fumaça – a imagem que vai para a nossa memória. Não é óbvio?

Para mim, eles não só trazem os recém-nascidos como vão trocando, às vezes, quando a criança vai crescendo. Sim, porque achar que nós, adultos, com esses corpos grandes e desengonçados, éramos, de fato, um bebê fofo e tão pequenino, é ridículo né? Claro que não, né gente? Eles trocam a criança por outras maiores de tempos em tempos. Já reparou como a gente se surpreende às vezes: “Nossa como ficou diferente seu neném, em uma semana mudou tanto!”. Ainda vou criar coragem pra responder: “É que é outro bebê. Eles trocam, de tempos em tempos” Não tenho certeza, mas desconfio fortemente que reaproveitam os bebês que recolhem. Me pergunto onde está o bebê que eu fui um dia. Eles não cometeriam a ousadia de reaproveitá-lo aqui, na minha casa, como minha filha né? Será que não? Tem muito pai e mãe que têm filhos iguaizinhos ao que foram quando pequenos. Humm, eles são realmente ousados, devem usar os mesmos bebês sim, principalmente se notam que os pais são distraídos. Daí fica aquele monte de vó e tia dizendo: “Nossa, impressionante, é igualzinho a você quando era bebê, idêntica...”. Errr, é o mesmo bebê gente, não notou?

Não. Ninguém nota, ninguém. Mas agora cansei de ficar calada e resolvi abrir o jogo.

Imagine, óvulo, espermatozóide que depois vira bebê, dentro da nossa barriga ainda por cima! Ai, como é que a gente caiu nessa lorota gente?

www.embuchada.blogspot.com

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Genial, Kika!
E às vezes eles não respeitam nem o sexo. O filho da minha irmã mais nova é ela todinha quando bebê. :)