domingo, 4 de julho de 2010

PERDE-GANHA >> Eduardo Loureiro Jr.

Porque no céu a gente vê uma estrelinha
aquela estrela nasce e se põe às 6 horas
quando é de manhã aquela estrela vai embora
tem uma maior e tem outra mais miudinha
tem uma acesa e outra mais apagadinha
seis horas da noite é que pega a aparecer
quando é de manhãzinha ela torna a se esconder
só de noite ela brilha em cima do firmamento
(Mestre Verdelinho)

Sim, perdemos. E daí? Perder é coisa mais comum do que a gente gostaria de admitir.

Já perdemos útero de mãe, dente de leite, casca de ferida, fios de cabelo, noites de sono, dias de aula, ano de escola, espetáculos, guerras, quilos. Já perdemos a hora, a chave, a colheita, a cor, o amor, a virgindade, a criança, a fala, o gosto, a saúde, os direitos civis, a memória, a oportunidade, o senso, o trem, o ônibus, o avião. Já perdemos processo, dinheiro, guarda-chuva, amanhecer, pôr-do-sol. Já perdemos na bolsa de valores, em divagações, em conjecturas, no horizonte, na bruma. Já perdemos a nós mesmos, tantas vezes. E, mais que tudo, perdemos tempo, muito tempo, o tempo todo.

Agora perdemos uma Copa. Mais uma. Nos orgulhamos de sermos os únicos pentacampeões, mas esquecemos que somos dodecaperdedores: já perdemos a Copa do Mundo por catorze vezes.

Sim, perdemos, mas poderíamos ganhar. Sempre. Não deixando de perder, mas ganhando apesar da perda. Se torcemos apenas pelo Brasil, então perdemos, está perdido e pronto. Mas quantas coisas deixaríamos de ganhar se fosse só isso?

Por que não ganhar com os pênaltis perdidos e com o choro do ganense Gyan e do paraguaio Cardozo, que nos umedeceu também os olhos? Por que não ganhar com o milagre uruguaio, em cima da linha, e com o ataque espanhol que precisou de três bolas na trave antes do gol? Por que não ganhar com uma Holanda que aprendeu a ganhar até quando não joga melhor, depois de tanto dar espetáculo e ser eliminada? Por que não ganhar com o beijo de Maradona em cada um de seus jogadores na expectativa da vitória e no desespero da derrota? Por que não ganhar com o futebol bonito e vistoso da até então apenas burocrática e eficiente Alemanha? Por que não ganhar com essa reunião do mundo todo, presencialmente, na África do Sul e, à distância, acompanhando via satélite?

Um perde aqui, outro ali, mas podemos todos ganhar mais do que perdemos se pensarmos a nós mesmos com mais grandeza, com mais abrangência. Continuaremos perdendo copas, cabelos, dentes, anos, tempo. Bem que podíamos perder também a mania de pensar que estamos mesmo perdendo.




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11 comentários:

Marilza disse...

Ah Eduardo, é verdade: a vida é um um eterno perde/ganha mas, a gente não pode jamais perder a "esperança". Essa, há de nos acompanhar pra sempre...
Como sempre, amei!

Fabio Barros disse...

Eu só não poderia perder essa crônica! Um abraço!

Debora Bottcher disse...

Exatamente, Eduardo... É tão difícil perder, não? E todo dia a gente perde um monte de coisas... E ganha também. No equilíbrio de perdas e ganhos - danos e compensações - a gente faz a trajetória pessoal, familiar, de uma nação. É como a vida é... :)
Beijo.

fernanda disse...

Como diz a música: "nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar".

albir disse...

As crônicas da copa nesta página são as melhores que tenho lido sobre o assunto. Parabéns!

Dil disse...

A gente perde a gente ganha. Eu, por exemplo, pensei que tinha perdido você. Não é que lhe encontrei.

albir disse...

Os textos do Crônica do Dia sobre copa do mundo são os melhores que tenho lido. Parabéns!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Marilza. O que seria de nós sem a verde Dona Esperança? :)

Fábio, você tá que tá imperdível. :)

É, Albir, nossa seleção é campeã. Agora só falta sua crônica sobre a Copa, no dia seguinte à grande final, para encerrar o ciclo com gol de ouro. :)

Dilma, Dilma, Dilma! Há quanto tempo! Quanta saudade. Ainda bem que nos re-achamos. :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Debora, perder só é fácil quando a gente perde tudo e então só tem a ganhar. :)

Pois é, Fernanda, o que um Eduardo leva uma crônica inteira pra dizer, um Guilherme diz em dez palavras. :) Acho que tô escrevendo demais.

Carla Dias disse...

Eduardo... Vendo dessa forma, perder se torna um exercício de humanidade. Perder com graça, torna-se um feito.

Watusi disse...

A esperança é o último mal da "Caixa de Pandora".Já que cultivamos todos os outros por que não esse?
Lindo texto!!