sexta-feira, 23 de julho de 2010

UM TE AMO ANTES DO FIM
>> Leonardo Marona

Nunca morri de amores por casamentos. Eles são realmente inacreditáveis. Por conseqüência direta, nunca acreditei muito em todo aquele amor matrimonial, braços cruzados bebendo champanhe, gordinhas desesperadas atrás de pedaços de buquê. Ao observar um casório, tinha quase sempre a impressão de que o noivo precisava de uns conselhos. Não sei bem por que, mas a noiva nunca precisava de conselhos; as mulheres sempre sabem o que fazem. De qualquer modo, um casamento me consumiria a manhã e a tarde de sábado e isso deveria ser desagradável para qualquer um. E eu tenho certeza de que tinha umas cem pessoas pensando nisso enquanto amarravam os sapatos. Mas, de fato, minha cozinha parecia o campo de Auschwitz e eu não tinha um puto. Achei que, nesse caso, um casamento seria uma boa oportunidade para encher bem a pança com aquela mistura maravilhosa de petiscos e cerveja. Só podia ser coisa de brasileiro mesmo: petiscos e cerveja. Entendo porque os europeus bebem e comem pra caralho e estão sempre com cara de satisfeitos. Eles comem que nem uns bichos, até entupirem as veias, e depois tomam um galão de vinho e digerem aquela merda toda dormindo. Depois acordam e voltam a dominar o mundo. Nós, brasileiros, comemos churrasco e tomamos cerveja. O churrasco endurece a merda como cimento e a cerveja nos faz suar e ver bolinhas de vertigem saltarem da retina. Depois continuamos sendo dominados que nem gado. Uma coisa deve ter alguma relação com a outra... Enfim, era um casamento diurno. Que bela bosta! Casar de manhã deve ser ainda pior que casar à noitinha. Você nem bem sabe o que está fazendo de manhã e a cara está tão dobrada de travesseiro que todo mundo fica feio, inclusive os noivos. Talvez essa seja mesmo a hora mais “honesta” para se casar.

E lá ia eu com meu kit-casório: um blazer surrado e já quase cinza, ainda que eu dissesse que era preto, justo na cintura e largo nos ombros – o lixo do lixo da moda –, as meias de linho combinando, uma calça jeans também quase cinza – esta era mesmo dessa cor, comprei assim não sei por quê –, com um cinto destoante bastante surrado e com um buraco a mais improvisado para me apertar bem os culhões e me fazer ficar com a fisionomia ideal para um casamento. Completava o figurino um All-star preto e branco, esse sim, saído da caixa, cheirando a borracha fresca. E por isso estraçalhando meus dedos do pé. O cabelo era o de menos. Cedo ou tarde, depois do banho ou depois de uma surra, estaria sempre com jeito de que acabou de sair de dentro de um capacete. Eu sempre chegava de moto nos lugares, mesmo que nunca tivesse andando numa.

A cerimônia era da família dela. Do lado católico da família dela, para ser mais exato. Mas o lado judeu estaria lá também, porque judeus não perdem uma festa. Adoram dançar com as mãos pra cima, estalando os dedos, pontas de pé, barriga p’rum lado, barriga pro outro, e adoram também discordar de tudo com uma delicadeza cínica. Novos judeus, minha gente! Só que antes da comilança tem sempre aquela balela de juramento para vida inteira, para sempre amar você, nunca te trair e morrer ao teu lado com tifo... Fazer o quê? Qualquer coisa tem seu lado ruim e seu lado péssimo, até mesmo os casamentos.

Estava um sol de fazer testas brilharem e a minha era um espelho d’água. As gotas escorriam por dentro da camisa – já pra fora das calças – até inundarem a cintura, e eu sabia que chegando em casa teria alguma roupa para lavar ou jogar fora. Eram gotas escorrendo pelas costelas, por trás das costeletas, fazendo trilhas pela anatomia das orelhas, acumulando-se todas no cavanhaque. Sorte minha que a igrejinha estava lotada e tive que esperar do lado de fora. A família dela, entretanto, preferiu se espremer para tentar ficar numa posição em que todos pudessem reparar na sua presença. De lá de fora dava para se ouvir o padre. Era um velhinho muito faceiro que parecia mais um bebum jogador de dardos e comedor de amendoins do que uma pessoa que diz amém todos os dias.

Do casamento em si eu não vi nada e sabia bem pouco. Sabia apenas que o noivo era um jovem botânico sulista – daí o churrasquinho de petisco – e a noiva era uma baranga que não parava de chorar e se empanturrar. Ainda assim o noivo era só sorrisos, louco para trepar até os olhos virarem na lua-de-mel em Cuba. É incrível como o amor eterno custa caro. Se bem que o passeio de balsa devia estar incluído no pacote, até Miami. Tinha ouvido também alguma coisa sobre o cenário da cerimônia. Era a casa de campo de uma bicha famosa, que foi um grande paisagista e artista plástico, até morrer espancado por ladrões de galinha que erraram de propriedade, mas acharam que tinham que bater no sujeito até o fim por que ele dava a bunda e não reclamava. E a cada quinze minutos a parte judia da família dela se chegava pra perto de mim e falava que tinha uma peça extraordinária do tal artista na porta de casa. Olha! É assinada, assim como essa e essa e essa..., ela apontava pras paredes e fechava os olhos, dizendo o que deveria dizer pra se gabar à sua moda. Depois de um tempo, a parte judia passou a dizer isso a cada cinco minutos, um modo de me lembrar dos seus malditos azulejos para sempre, principalmente quando eu fosse dirigir-lhe a palavra, no que podia sentir o cérebro tilintar. No mais era muita sede e suor e, no meu desespero, já cogitava lamber meu próprio suor para matar a sede – uma idéia estúpida e salgada.

O padre era de um novo nicho de padres que vem crescendo bastante: os padres engraçadinhos. Para cada salmo e conselho de vida havia uma piadinha, que arrancava da platéia risos forçados e fazia os afrescos das paredes da igreja se afrescalharem também. Eu já estava começando a alcançar meu estágio de maior irritação do dia, que acontece por volta do meio-dia, quando o sol está reto e com raiva. Saí de perto, já que não faria nenhuma falta ali mesmo, e fui passear no bosque, literalmente falando.

Passei por alguns poços secos e alguns outros com poças d’água cheias de mosquitos barrigudos e vitórias-régias pequenas e magrinhas. O lugar parecia meio abandonado, mas talvez fosse isso que o tornava atraente pra mim. Desci por um caminho de pedras e acabei dando num lugar mudo, por isso resolvi gastar um pouco mais de tempo lá. Não havia nada, apenas um banco de pedra lisa, um enorme painel lateral de azulejos feito pela bicha azarada e um cão vira-lata e manco com a pata traseira direita amputada, mas que parecia mais satisfeito do que eu e se mexia por ali como dono do pedaço. Era como o paraíso deveria ser: um lugar agradável nas primeiras horas, mas que se torna insuportavelmente perfeito depois de um tempo, quando pedimos umas férias no inferno. Mas mesmo assim era melhor que lá em cima, junto das gargalhadas forçadas pelo padre, dentro da igreja que derretia. Deitei no banco de pedra e fiquei ali, com os braços atrás da cabeça e as pernas cruzadas, tentando me livrar da razão. Antes de fechar os olhos e virar um nada, reparei que, sobre aquela maquete de paraíso, corria um pequeno fluxo d’água – sustentado por um teto cimentado –, que terminava numa queda um pouco mais à frente e que se podia ver virando de leve a cabeça. Era uma beleza ver as águas disformes afastando-se e juntando-se de novo, antes de virarem vapor. Ficaria ali para sempre, até as minhocas me levarem com elas. O som da água correndo eternamente e o alívio que a pedra gelada provocava nas minhas costas me transformaram num santo. Meus pensamentos eram os mais leves que já tinha tido e, depois de alguns minutos, eu nem mesmo sentia meu corpo. Era a primeira vez em muito tempo que ele não reclamava de nada, nenhuma dor nas juntas, nenhum embrulho no estômago ou pontada de tosse. É claro que não seria para sempre, mas eu achava que fosse o céu me levando embora e torci para que fosse isso mesmo. Só voltei a abrir os olhos quando ouvi o mundo me atormentar outra vez, com um barulho de gente chegando. Foi quando vi que nada era pra sempre, nem o céu nem o inferno, muito menos minha sorte de paz.

Levantei rápido, como se babasse demais, e os pés fizeram um contra-peso tal em relação ao resto do corpo que se ergueram juntos me transformando numa gangorra humana. Foi um modo ridículo de se levantar, mas não esquentei muito porque vi que o sujeito que se aproximava limpava terra dos joelhos e vinha de dentro do mato, bem atolado mesmo. Era quase completamente calvo, bastante magro, chupado e ossudo, com as orelhas enormes e redondas e felpudas. Andava de forma estranha, como uma garça com sono, e devia ter uns vinte e tantos anos. Na hora vi que era um sujeito que, como eu, não acreditava em casamentos e, como eu, devia estar com a barriga roncando e o céu da boca implorando por álcool gelado. Era bem como eu e imaginei se eu poderia estar tão mal quanto ele. Eu não era tão magro nem tão calvo e isso já pareceu o suficiente. Poderia encará-lo de igual pra igual, portanto, já que era eu que estava na vantagem. Começamos com aquelas perguntas desnecessárias, que se respondem por si próprias, mas que nos dão tempo de pensar em coisas melhores para dizer. Eu fui o primeiro a ser babaca:

- Também veio pro casamento?

- Não, vim catar umas minhocas. – O sujeito ainda batia os joelhos com as mãos, olhando pra baixo, e falava tão sério que eu quase me ofereci para ajudá-lo.

- Hum... É da parte do noivo ou da noiva?

- Da que tiver mais grana – inclinou a cabeça torta pro meu lado e riu pela primeira vez, arreganhando uns dentes que, na sua boca insignificante, pareciam mais numerosos que o normal. – No momento sou da parte do noivo. Na verdade sou amigo do sobrinho do noivo, que é mais velho do que ele, aliás. é uma putaria mesmo... Mas eu vim mais pela carne do que por qualquer outra coisa. – Eu já sabia, mas não disse nada sobre a carne.

- Você gosta desse mato todo aqui?

- Você gosta de fazer perguntas, pelo visto. É algum tipo de pesquisa?

- Não. É que eu não tenho nada melhor pra dizer. Na verdade, queria ficar sozinho, por isso vim pra cá.

- Igualmente.

Igualmente? Quem responde uma pergunta – seja ela qual for – com Igualmente, ou tem mais de cem anos ou é um escroto sacana.

- Você deve ser botânico também, imagino. Que nem a maioria dessa turma aí de cima. Vi a maneira que chegou. Pelo mato. Bastante original. – Tinha que me impor de alguma forma; como sempre, escolhi a forma errada.

- Não sou botânico, sou professor de inglês.

- Uma boa escolha, trabalhar com línguas... Deve ser bastante gratificante... Ainda por cima é um emprego honesto e deve dar pra cerveja do mês. Bela escolha... Mas você não tem cara... Nunca diria que você é um professor assim, te olhando de primeira... – Estava me enrolando de vez.

- Dava aula de inglês pr’umas putas em Copacabana – ele disse, aparentemente sem mudar de expressão, mas talvez tenha ficado um pouco chateado em falar da peculiaridade da sua licenciatura e isso era o tipo de coisa que te envergonha, mas te dá um certo prazer masoquista em dizer.

- Hum... Então é melhor ainda, porra! Você tem a garantia de pagamento que muitos queriam poder ter.

- Aham. E eu vou morrer por causa disso. Sabe como é... Tem umas doenças que se pega nessas merdas e aí não tem volta. AIDS... E o pior é que eu nem sou viado.

- Sei... Cheque sem fundo, né? Mas talvez não seja tão ruim.

- Tão ruim? Eu acordo mijado de sangue todo dia.

- E eu mijado por uma puta todo sábado.

- É, talvez não seja tão mau. De qualquer forma, tenho ainda alguns dias.

- Porra, e você ainda perde tempo num casamento?! Isso sim é ruim... Pelo menos na minha opinião é uma merda.

- É que eu achei que seria uma boa morrer durante um casamento.

- Certamente seria uma maneira bem sacana de roubar a festa. Mas você tá pensando em morrer hoje?

- Não, não tenho coragem de me matar. Mas achei que ia encontrar alguém aqui pra fazer isso por mim.

- Ah, bom! Então é melhor ir procurar logo antes que o padre diga amém e o arroz comece a decolar.

- Eu já achei.

- Suponho que seja eu então... Ou o cachorro perneta.

- Ele não quis me ajudar. Além do mais, tá mais fodido do que eu. – E escancarou de novo sua arcada cheia de dentes, dessa vez de um jeito melancólico, com os olhos baixos. Impressionante o senso de humor do sujeito. Talvez sejam os delírios que precedem a morte. Ou que levam até ela.

- Mas por que achou que fosse encontrar alguém logo aqui?

- Vi você lá em cima. E vi que você tava de saco cheio dessa lengalenga que tá acontecendo lá em cima. Então pensei que pudesse querer um pouco mais de ação.

- E matar uma pessoa é o tipo de ação que você imaginou pra mim... Realmente é a minha cara.

- Sério, você me ajuda ou não? Posso sair e achar um monte de gente que faria isso, com prazer até.

- Você não tem uma mulher que possa fazer isso por você? Uma puta quem sabe... Eu ia preferir que uma mulher me matasse. Elas fazem isso conosco a vida inteira, afinal. Nada mais justo...

- Minha mulher me largou quando eu fiquei careca e decrépito. Acredita que ela disse que não era por causa da doença, mas porque não agüentava olhar pra minha cara?

- Delicada, a tua mulher. Mas vai entender as mulheres... Vai MORRER querendo entender elas! Quer dizer... Foi mal.... Eu não quis dizer... Que merda, tô suando pra cacete.

- Não tem nada, não. Também, pouco importa. Vou morrer porque VOCÊ vai me matar – e puxou de dentro da blusa uma arminha prateada, bem afrescalhada, que parecia uma pistola de atirar flecha. – As mulheres só me foderam a vida inteira! Elas são malucas! Nascem malucas! Não entendem nada! E algumas ainda pioram!

- E as que melhoram perdem a graça. É um beco sem saída, irmãozinho.

- Faz sentido. Mas e então, vai segurar a arma ou não?

- Porra, tira isso daqui! Não posso ver essas merdas. Elas brilham demais no sol. E imagina só o barulho. Pensa bem, ia ser uma correria do caralho e tá quente demais pra isso. Vamos pensar noutro jeito... Que tal as pedras, lá embaixo? Eu posso te empurrar, se você realmente quiser. Seria uma morte mais trágica e bem mais grandiosa desse jeito. O que é que você acha?

O magrelo respondeu com um enorme pomo de adão que subiu e desceu com uma onda seca de saliva e seu foco fugiu na direção da queda d’água uivante. Sem dizer nada, mas dizendo muito com os olhos, andou com as mãos para trás até a beirada, parou um metro antes e ficou ouvindo o urro das águas. E elas faziam pouco dele com seu assovio. Como se aquilo tudo não passasse de uma balela suicida. Eu permaneci imóvel e algo em mim – algo que eu nunca tinha experimentado – começou a fervilhar, me fazendo afogar a respiração. Ele ia topar. Eu ia detoná-lo por escolha dele. Ele ia sumir de vez e nunca mais ninguém falaria daquele magrelo de olhos profundos. Talvez as putas se sentiriam um pouco culpadas e fariam um dia de luto. E suas roupas pretas e justas atrairiam mais fregueses imbecis que gozariam a vida no lixo.

- E então? Você não precisa me avisar de nada – ele disse, ainda de costas. – Chega devagar e dá um empurrão. Eu vou ficar aqui, de braços dados. A vista daqui é linda. Você tem que ver, cara... Quando você quiser... Estou pronto.

- Espera um pouco. Eu preciso me concentrar. Sabe como é, tem algum tempo que eu não faço nada do tipo. Mas pode relaxar. Aproveita a paisagem que eu vou daqui a pouco.

- Na verdade... Nunca pensei... Mas tô nervoso. Morrer é uma merda mesmo, até que se desaparece de uma vez – e começou a chorar de leve. – Cara, nem perguntei o teu nome. Queria saber o nome de quem vai me matar.

- Espera aí, cara! Quem vai se matar é você mesmo! Eu só sou o veneno, o instrumento... Além do mais, qual a diferença saber o meu nome? Dizem que lá pra onde você vai todo mundo se chama bau-bau de qualquer jeito... Saber o meu nome não vai te adiantar mais pra nada.

E a cena estava assim: nós dois, eu bem atrás, de frente, ele bem na frente, de costas. E os dois falando como se lixassem as unhas num salão. Ele estava apavorado. Gaguejava um pouco quando disse:

- Você poderia dizer que me ama antes?

- Não.

- MAS POR QUÊ?! – Ele virou e agora já chorava pra cacete e se esgoelava. Eram as últimas forças. Se eu não me mexesse logo o sujeito morreria de desgosto, o que seria bem mais doloroso, talvez pra mim, pra ele certamente. Mas eu tinha que dizer por quê.

- Primeiro, cara, que eu não te conheço pra te amar. Segundo que eu não sei o que é amar muito bem. O que eu experimentei no gênero não foi lá essas coisas. Portanto, dizer que te amo seria o mesmo que dizer SINTILASQUINATO pr’um dromedário, ou seja, não ia significar merda nenhuma, nem pra mim nem pra ti, antes que você me pergunte o que é SINTILASQUINATO... E, terceiro, se eu te amasse, não conseguiria te empurrar. Não me dou tão bem assim com a Dona Morte, sabe, jogamos em times opostos. E eu chuto o cu dela toda vez que me aperto. É como se eu estivesse te fazendo uma camaradagem, podemos considerar dessa forma... Você compreende? Hein? Ouviu?

Deu de ombros como se qualquer coisa servisse. Seu rosto era uma laranja chupada. Não falaria mais nada. Qualquer coisa seria um alívio depois de tanto palavrório sem sentido. Ele continuava de costas – a cabeça baixa – e a nuca exposta agora implorava por um empurrão, mesmo que não houvesse barulho fora o das águas, que faziam uma torcida ansiosa.

Saí correndo e empurrei com força, mas tampei os ouvidos e fechei os olhos em seguida, correndo para trás como um cagão. Nem tão cagão assim. Tinha feito a vontade do sujeito e era como se a vontade dele servisse pela minha própria. Não vi se ele gritou ou se me xingou, nem vi os miolos soltos lá embaixo, dançando com os mosquitos.

Também não pensei em culpa e, talvez por isso, quando voltei para o casório lá em cima ninguém reparou em nada de diferente. Acho que não reparariam nem se eu tivesse mergulhado numa banheira de sangue e aparecesse com uma faca de açougueiro entre os dentes. Todo mundo só queria saber do arroz que era repartido em pequenos punhados, menos a parte judia que só queria saber dela mesma e dos seus azulejos. Tudo como estava antes. Mas o sol mais baixo um pouco. O casal faceiro era um sorriso gigantesco com pernas brancas que engolia arroz cru. Algumas velhinhas de chapéu abriam a boca de vez em quando: Ai! Vocês sabem que eu não posso com casamentos!... E na hora que começaram com As Bachianas... Ui! Vocês sabem que não consigo me segurar com As Bachianas!...

Normalmente eu riria por dentro e me roeria por fora ao ouvir algo do tipo: uma velhinha se enxugando e falando das Bachianas. Mas dessa vez não. Pensei naquele magrelo que pediu amor na última hora, antes de se estourar nas pedras. Talvez seja normal querer ouvir um último Te Amo antes de sair fora. Talvez até nessa hora precisemos de uma dose de engano. Na verdade dizemos sempre Te Amo pra alguém bem mais pensando na resposta desse alguém do que no Te Amo que dissemos. O amor significa pouco no fundo, e é por isso que precisamos dele: porque no fundo precisamos de tão pouco quanto o que ele pode nos dar. Ou talvez não seja nada disso.


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito bom de ler, Léo, mesmo que talvez não seja nada disso. :)

Gaspar Lourenço disse...

as tuas crónicas são fantástica!