segunda-feira, 26 de julho de 2010

E AGORA, COMADRE?
>> Albir José Inácio da Silva

Estou escrevendo para dar notícias do povo daqui e também pra me desabafar. Saiu umas coisas no jornal e eu fiquei muito indignada. Diz que tem lei agora que não pode mais bater em criança, dar palmada, beliscão, puxão de cabelo, nada, nenhum ensinamento. Com as crianças do jeito que estão, como é que elas vão ficar?

Professora já não podia bater há muito tempo. Desde o meu tempo de escola. Lembro de mãe fazendo escândalo na escola porque a professora tinha beliscado o filho dela. A minha mãe não, se eu apanhasse na escola ela até gostava. Dizia que a escola também tinha que ensinar porque os maridos já não ajudam em nada e a gente depois é que tem que aturar menino malcriado.

Se a gente não bate, eles vão apanhar na rua e, mais tarde, da polícia. É melhor a gente bater, que a gente bate com amor. Às vezes tem que bater com mais força porque eles vão se acostumando e crescendo, mas é só enquanto eles precisam. Se a gente não corrige, o que é que vai ser deles?

O filho de Giza, por exemplo, andou com gente errada e agora é viciado em negócio de droga. E ela bateu muito nele. Imagina se não batesse, agora ele tava na cadeia. Já o Dico, da Conceição, ficou um homem bom, trabalhador, mas quem conheceu sabe que ele era o capeta. Só melhorou mesmo a custa de muita pancada. No mês passado teve umas coisinhas com a polícia, mas foi só por causa de bater na mulher. Acho que não se deve bater na mulher — que mulher não é filha — mas aquela até que mereceu. É preguiçosa e gastadeira.

Eu apanhei muito de pai, de mãe, de avô, de tia, de todos que ajudaram a me criar, mas foi na medida certa. Nunca matei, nunca roubei, e olha que não me faltou raiva nem necessidade. Nunca usei nenhum tipo de droga, e olha que não me faltam problemas nem gente pra oferecer. Mas eu não quero saber disso. Todo dia tomo meu remedinho pra dormir, e o antidepressivo pra passar o dia, e pronto. Vou levando a vida como Deus quer. Fico pensando o que seria de mim se não fosse o chinelo, a vara de marmelo e o chicote. Nem gosto de pensar.

Sou uma pessoa de bem, comadre. Não conheço bandido, ladrão, traficante, assassino, mas posso garantir que o que faltou pra eles foi surra. Não tiveram ninguém que ensinasse. É de criança que se aprende. Quem vê o menino assim, com carinha de anjo, jeito de bichinho, não imagina que diabo pode virar, se não tiver as asinhas cortadas a poder de vara.

Outro dia veio uma me falar desaforo porque eu disse que o garoto dela ia virar bandido. Quis me jogar na cara que o meu filho morreu de tiro da polícia. Aquele não foi culpa minha, ele apanhou muito, mas não foi suficiente. É que ele era doentinho e não aguentava muita pancada. Mas o que eu pude, eu fiz.

Bem, comadre, vamos ver aonde vai parar esse mundo. Se foi bom até agora, é porque a gente podia ensinar as crianças. Vamos ver o que vai ser daqui pra frente. Lembranças pra todos.




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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ri a valer, Albir. :) Muito bom!

Kika disse...

adoro crônicas com 2a, 3as e muitas outras intenções.
EXCELENTE!
beijos

Carla Dias disse...

Muito bom, Albir! Adorei o formato carta.

albir disse...

Obrigado, Edu! Esse é um dos melhores efeitos da crônica: riso.

Pois é, Kika, dissimular... é como conseguimos dizer certas coisas. Beijos.

Que bom, Carla! A carta dá muita liberdade, principalmente porque permite que outros a subscrevam.