Pular para o conteúdo principal

E AGORA, COMADRE?
>> Albir José Inácio da Silva

Estou escrevendo para dar notícias do povo daqui e também pra me desabafar. Saiu umas coisas no jornal e eu fiquei muito indignada. Diz que tem lei agora que não pode mais bater em criança, dar palmada, beliscão, puxão de cabelo, nada, nenhum ensinamento. Com as crianças do jeito que estão, como é que elas vão ficar?

Professora já não podia bater há muito tempo. Desde o meu tempo de escola. Lembro de mãe fazendo escândalo na escola porque a professora tinha beliscado o filho dela. A minha mãe não, se eu apanhasse na escola ela até gostava. Dizia que a escola também tinha que ensinar porque os maridos já não ajudam em nada e a gente depois é que tem que aturar menino malcriado.

Se a gente não bate, eles vão apanhar na rua e, mais tarde, da polícia. É melhor a gente bater, que a gente bate com amor. Às vezes tem que bater com mais força porque eles vão se acostumando e crescendo, mas é só enquanto eles precisam. Se a gente não corrige, o que é que vai ser deles?

O filho de Giza, por exemplo, andou com gente errada e agora é viciado em negócio de droga. E ela bateu muito nele. Imagina se não batesse, agora ele tava na cadeia. Já o Dico, da Conceição, ficou um homem bom, trabalhador, mas quem conheceu sabe que ele era o capeta. Só melhorou mesmo a custa de muita pancada. No mês passado teve umas coisinhas com a polícia, mas foi só por causa de bater na mulher. Acho que não se deve bater na mulher — que mulher não é filha — mas aquela até que mereceu. É preguiçosa e gastadeira.

Eu apanhei muito de pai, de mãe, de avô, de tia, de todos que ajudaram a me criar, mas foi na medida certa. Nunca matei, nunca roubei, e olha que não me faltou raiva nem necessidade. Nunca usei nenhum tipo de droga, e olha que não me faltam problemas nem gente pra oferecer. Mas eu não quero saber disso. Todo dia tomo meu remedinho pra dormir, e o antidepressivo pra passar o dia, e pronto. Vou levando a vida como Deus quer. Fico pensando o que seria de mim se não fosse o chinelo, a vara de marmelo e o chicote. Nem gosto de pensar.

Sou uma pessoa de bem, comadre. Não conheço bandido, ladrão, traficante, assassino, mas posso garantir que o que faltou pra eles foi surra. Não tiveram ninguém que ensinasse. É de criança que se aprende. Quem vê o menino assim, com carinha de anjo, jeito de bichinho, não imagina que diabo pode virar, se não tiver as asinhas cortadas a poder de vara.

Outro dia veio uma me falar desaforo porque eu disse que o garoto dela ia virar bandido. Quis me jogar na cara que o meu filho morreu de tiro da polícia. Aquele não foi culpa minha, ele apanhou muito, mas não foi suficiente. É que ele era doentinho e não aguentava muita pancada. Mas o que eu pude, eu fiz.

Bem, comadre, vamos ver aonde vai parar esse mundo. Se foi bom até agora, é porque a gente podia ensinar as crianças. Vamos ver o que vai ser daqui pra frente. Lembranças pra todos.


Comentários

Ri a valer, Albir. :) Muito bom!
Kika disse…
adoro crônicas com 2a, 3as e muitas outras intenções.
EXCELENTE!
beijos
Carla Dias disse…
Muito bom, Albir! Adorei o formato carta.
albir disse…
Obrigado, Edu! Esse é um dos melhores efeitos da crônica: riso.

Pois é, Kika, dissimular... é como conseguimos dizer certas coisas. Beijos.

Que bom, Carla! A carta dá muita liberdade, principalmente porque permite que outros a subscrevam.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …