sexta-feira, 9 de julho de 2010

ROBERTO PIVA (1937 - 2010)
>> Leonardo Marona



"Piva"

existem os ovos, Piva, sim,
existem os ovos, como não?
não se preocupe, nós viremos
para buscá-los, faremos festa,
água pura cairá de pedras feias
e estaremos juntos, enfim, nós,
por entre os bambuzais do caos.

também amputaram-me as flores
do crânio com urgência criminosa.
também me queimaram os serafins,
mas a canção sem vírgula permanece
como o grito que salta da gaiola surdo
a cada pássaro que perdemos na rede,
na difícil rede de nossas vagas matrizes.

nós estaremos juntos, tão sós, que não
desgrudaremos mais as mãos, jamais,
e, tenho certeza, nós permaneceremos
de orelhas em riste, secos e sedentos
por uma catástrofe que limpe todo
o tédio que articula as artérias lilases
dos jovens bailarinos desconjuntados.


"canção para Roberto Piva"

parece que recolheram, a pau e pedra, os amigos pederastas,
os barbudos que povoam os mictórios atômicos, estilhaçados
ficaram os versos, continuam encostados na parede, a solidão
permanece nua, amarrada ao poste, e Piero della Francesca
não pode mais dar o abraço plurissexual, o apito disentérico
das fábricas se tornou aquário desordenado da imaginação.

te vejo tão sério na página do jornal marrom, entre as grades
de bambu, dizendo: NÃO SUPORTO SÃO PAULO, e rumo
à extinção da luz mesclamos vozes barbitúricas, e os bolsos
escancarados da mente provocam os anjos de enxofre, e das
janelas do crânio observamos o corpo suicida de Modigliani,
já Garcia Lorca penteia pela última vez o crânio martirizado
enquanto a noite varia, as estátuas doentes, com conjuntivite
borram a nesga preciosa por onde escaparemos feridos, nunca
mortos, e nos arrastaremos satisfeitos na paisagem de morfina.


"tua carne não apodrecerá, Roberto Piva"

poderia algum dia, Roberto Piva, como agora,
ser que víssemos nas tuas roupas neo-realistas,
na tua rica juventude, estuprada por São Paulo,
a quem odeia, São Paulo, mas a ela dá as tripas,
porque apenas em tripas e ódio nos damos todos,
e a criação vem necessariamente do ódio coletivo
de sermos, apesar do estupro-fascínio, dependentes
da beleza e das bandanas nos pescoços-caravaggio
e dos passos de sapatos com solas de madeira
descendo pelas escadas com a tinta paranóica.

quimicamente desejáveis e não é o que todos querem?

não, Piva, deus da sarjeta incandescente dos profetas,
eles querem tuas fotos nos jornais e mais meia dúzia
de poetas ordinários se refestelando sobre tua carne,
aos prantos, desejando a ti uma boa passagem,
e eles – é claro, Piva – ah, mas eles não sabem
das calçadas ensangüentadas, dos tiros noturnos,
e, muito menos ainda, Piva, eles sabem que não é
para ti este mundo, onde se enterram no papel
os poetas eternos: nesse jogo, disso eles sabem,
ficam as moscas e, atemporal, a carne apodrece.

www.omarona.blogspot.com

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