sábado, 17 de julho de 2010

UM PROBLEMA DE TODOS [Debora Bottcher]

Nos últimos dias, as páginas dos noticiários dão conta da história que envolve o ex-goleiro do Flamengo e uma de suas namoradas - sim, porque a todo momento aparece uma nova mulher ligada a ele, o que a mim soa incrível. E a mídia aproveita a audiência que tais ocorrências provocam no público, pintando o quadro com requintes mais para segurar a audiência do que para expor o real problema que está no fundo de todo esse sensacionalismo.

E, no meu entender, independente dos envolvidos (e do caráter deles), o foco principal do 'evento' em questão, que daqui a alguns dias será novamente esquecido, é a violência contra a mulher.

Você sabia que a cada QUINZE SEGUNDOS uma mulher é atacada no Brasil, e que uma em cada quatro brasileiras sofre com a violência doméstica? E que, apesar da Lei Maria da Penha, existem somente 274 juizados especiais de violência contra a mulher - para 5.600 municípios? Você sabia que, segundo estimativa da Anistia Internacional, pelo menos uma em cada três mulheres ao redor do mundo sofre algum tipo de violência durante sua vida?

Sim, o tema é complexo e denso. E você deve estar pensando, ao ler essas considerações, que isso não é com você, pois passa longe da sua família, amigos, dos seus conhecidos. Ledo engano. A maioria das vítimas, também segundo pesquisas de órgãos internacionais, não reporta a violência - por vergonha ou medo. Portanto, é possível que alguém na sua família, ou no seu círculo de amizades, passe por isso sem que você imagine.

Passa da hora de acharmos que isso só ocorre na novela, na favela, na mídia, na casa do outro, num nível que não nos atinge. Precisamos parar de pensar que são casos isolados e incomuns. Todos os dias há MUITOS casos - com mais, menos ou nenhuma projeção da mídia. Mas todos os dias MUITAS mulheres são espancadas, violentadas, assassinadas - ricas, pobres, analfabetas, superprofissionais, mães, filhas, mulheres como eu e você, sua filha, irmã, amiga, prima, neta, sua mãe - dentro de seus próprios lares ou por alguém que conhecem e convivem.

É imprescindível que a sociedade discuta o problema com mais seriedade para corrigir pontos obscuros da Lei Maria da Penha - que, sim, ajuda, mas não resolve, pois é falha e urge uma lei mais rigorosa com punições mais rígidas e programas de prevenção - e aí eu falo de alguém que diga a uma mulher que sofre qualquer tipo de ameaça, que ela corre risco, precisa se proteger; falo de alguém que a apoie, esclareça e oriente. Que lhe diga que "NÃO, NÃO É CULPA DELA", e que se ela for espancada, ela tem que denunciar - ao invés de temer e se esconder. Aqui em São Paulo, recentemente, uma advogada também foi morta, possivelmente pelo ex-namorado, que não a agrediu fisicamente, 'apenas' a ameaçou verbalmente - fato que ela ignorou. Alguém precisava ter dito para ela estar mais atenta, e em nenhuma hipótese ficar sozinha com o agressor.

Precisamos tomar consciência de que esse é um problema de todos - mas não quando a mídia nos empanturra do tema porque acontece com gente famosa. É imprescindível uma mobilização social que reconheça a dimensão e a gravidade de tal situação, porque esse drama vivido por muitas mulheres, longe de folhetins e holofotes, é um assunto que não pode mais esperar...

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3 comentários:

Iara disse...

É mesmo impressionante a quantidade absusrda de mulheres que são violentadas diariamente...
E sem dúvida esse é mais um assunto que não pode mais esperar.
Parabéns pela crônica Déboar, ficou ótima!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bem lembrado, Débora!
E temos que cuidar também de evitar perigosos detonadores de violência, como o álcool, que mereceria uma campanha tão forte quanto a que sofre o cigarro.

fernanda disse...

Ótima reflexão, Débora. Acho que o assunto tem que ser exaustivamente debatido para conscientizar nem tanto os homens que cometem esse tipo de agressão (acho que esses não têm muito jeito) mas, principalmente, as mulheres que sofrem com isso e se calam. Esse é um assunto que me deixa muito, muito indignada...rs

Beijos!