sexta-feira, 30 de julho de 2010

MONK >> Leonardo Marona

Favor lerem este texto ouvindo Thelonious Monk.

1. Monk’s Dream

Uma rodada de dados – “Willie “the Lion” Smith é a cabeça do meu pau!” – então ele ergue as calças e se manda pela janela. Um tiro lhe trespassa o colarinho da camisa. Consegue ainda salvar o trompete. Cai em cima de uma montanha de lixo. O lixo se espalha pelo chão. Nosso homem agora deve mais de 50 mangos e por isso não pode morrer. Tosse. Sangra a palma da mão. Um mendigo se acorda, deitado no chão (parecia sonhar): “meu irmão, por que não dá o fora?”. Nosso homem leva a mão ao chapéu de feltro de duas bandas. Impressionante como é fácil substituir palavras de contato. Agora ele grita para o mundo da rua dos esgotos abertos – o mesmo primeiro movimento põe toda relação a perder, toda convenção – na direção de uma sacada. Um mulher grita de volta mais alto, com a voz muito esganiçada. Diz as coisas mais terríveis. Mais um homem se apaixona. Bate na porta. Esmurra. Tosse. Sangra a palma da mão. Tateia os bolsos. Num deles acha uma pétala de rosa. Abre as duas mãos e olha dentro de cada uma. Uma pétala de rosa numa, sangue coalhado noutra. Bate na porta. Olha de novo pras mãos. São tão parecidos, pétala e sangue... Ninguém mais atende suplícios logo pela manhã, e ele se deita no corredor, onde acorda sem roupas, a pétala do lado, e sem um rim, o rim ruim, suturado, com um bilhete escrito: “seu rim segue amanhã pela manhã para a Costa do Marfim”.

2. Body & Soul

Tudo começa com um homem entrando num prédio feito de tijolos. Passa por duas meninas e um sujeito. Uma das meninas esfrega a língua na orelha do sujeito. A outra fica ali olhando, segurando o queixo. O homem passa por ela. Se olham. Ele vira para trás depois que passa. Ela ainda está olhando, com o pescoço virado e um beiço mordiscando o outro. O homem tropeça numa quina e cai de peito no chão. O casal pára de se beijar e começa a rir. O homem se vira, já não sabe mais como rir. Dói seu maxilar. Abriu um corte no queixo. Sangra sem medida. Se levanta, um joelho ralado sangra também. O casal ri e ri, constrangido, mas de cara cheia. A menina que sobra (menina perdida, bondosa, excluída) fecha os beiços (fulano batendo os joelhos com as mãos, pingos de suor no chão) e uma lágrima lhe escorre pelo pescoço. O homem sorri insosso. O tempo diminui a marcha, como quando acontece a paixão. Um sorriso e uma lágrima. E não está aí o resumo do sentido? O homem sobe para casa no elevador. Mora no sétimo andar. Sai e vê o elevador descer até o térreo. Fica olhando pro mostrador do elevador. Primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto... Ele espera. Um carro freia bruscamente na rua. Do basculante do corredor interior do andar, uma gorda com cinzas para bater no cinzeiro, veias cinzas nas dobras das pernas, corta um pão francês em três fatias, debruçada na pia da cozinha. Numa vitrola, toca Rosiere “Shadow” Wilson na bateria. Ele vira a chave de casa e olha pra trás. Três policiais aparecem com um mandato de prisão por porte de entorpecentes. O homem olha pro seu melhor amigo, sentado aplicado estendido no sofá no apartamento vizinho. É o maior pianista que já se viu. Seu vizinho. Na porta. Porta aberta. Cheio de gênio e de droga.

3. Bright Mississipi

Um saloon em Clarksdale com porta vai-e-vem. Lá dentro toca uma jazz band. Banjo, realejo, gaita, guirlandas presas nos sapatos, piano. “Não é fácil fazer os acordes parecerem certos”, resmunga o pianista, depois de um gole no gargalo, com a mão apoiada na cauda do piano. Homens falam alto, comem almôndegas com molho de tomate e entornam eggnogs com Jim Beam. Só negros, menos o atendente, um negro mestiço, misturado com italiano, chamado Louis Pandovanni. Lá fora os brancos já voltaram para suas teses e causas. É a chamada “hora dos animais noturnos”. Outros homens, no balcão, tomam cerveja de trigo e falam sobre a chegada da chuva e as plantações de algodão. Suspensórios soltos. Seria um ano bom. Um pouco de serragem cobre o lugar de modo que os negros ficam mais claros e tudo parece mais claro do que é. O rapaz da gaita de repente tomba e cai de boca no chão, as pernas por cima das costas. Os homens todos se levantam e riem e batem palmas e os pés no chão. Um homem sobe numa das mesas. Lá fora tudo que céu azul é sul. Outro puxa uma faca na sombra clara do azul da poeira humana. Dois homens gritam “what da hell!”. A banda pára de tocar. Não se sabe ainda de onde vem o sangue. Até que um negro de bigode ralo corre na direção da porta e outro um pouco mais gordo, de cavanhaque, tomba com um rasgão debaixo da orelha, mas sorrindo com os olhos arregalados. Alguém enfia uma ficha na juke box: “Boogie Chillen”. Arrastam o homem morto dali. Dois ou três sinais-da-cruz. Um amém. Os negros voltam a girar os olhos por trás das suas canecas, desconfiados, esperando a chuva. Amanhã será a mesma coisa.

4. Five spots blues

Não conheço ninguém. Essa é, realmente, uma decisão difícil de se completar sozinha. Aqui ao lado tem um cara gritando que “ano que vem tem que votar no José Serra, não tem melhor”, enquanto eu e uma menina que deve ser muito boa de cama defendemos que o dever político deve ser voluntário, sem remuneração, sem salário, sem sigilo. Ela bebe mais rápido do que eu. O prédio é oco por dentro e sólido por fora, como o resto do mundo. É difícil ouvir o coração bater quando... Ali estou eu, essa menina se inflama, limpa coisas, faz pães para todos, se vê no direito, bate o garfo no prato, “camaradas, comida!”, fala com muito controle sobre coisas incontroláveis. Isso encanta. Ela brinca com o erro, erra pelo comprometimento amuado. Uma hora as cervejas todas estão quentes, a polícia chega de repente, mas eu estou preso ao parapeito, um sujeito se aproxima de mim: acha que sou do tipo que dá boas respostas. Pergunta: “o que você acha que tem do lado de lá?”. Respondo a ele: “acho que você acerta os ponteiros do lado de lá”. O sujeito chora debruçado no parapeito. Vidro de cima a baixo. Andar muito alto. Os carros rodam lá embaixo. Ele me agarra pelo pescoço: “minha prima se suicidou daqui!”. Fico mamando minha cerveja: “por favor, se for fazer isso espere eu sair”. “Você não gosta da altura?”. “Acho que bicho sem asa tem que ficar no chão”. Naquela noite vi uma estrela de cinco pontas pintada em laranja por uma menina chamada Mercedes Callaghan. A estrela aponta para o sul. A silhueta se forma sob uma palheta de cores. Me sinto estúpido. Confundo a orla de Ipanema com a Lagoa e até aí está tudo bem. Olho pra linha da montanha lá longe e penso na linha de uma mulher que me ame. Não posso suar porque tenho um curativo na testa, em cima do olho esquerdo, que vai me deixar um quelóide depois de sarar.

5. Bolivar Blues

Este é um cara que anda assobiando, com as chaves na mão, procurando mulheres na rua. Não consigo imaginar outra coisa senão seis latas num papel pardo, cigarros de filtro amarelo, cabelos penteados para trás, dentes azuis de vinho. Ele não se lembra onde deixou seu Plymouth 61, mas se lembra que foi num areal, local proibido. Achou uma mulher para se casar e duas para se divertir no caminho de trás pra frente que fez três vezes até encontrar o buraco onde enfiar a chave. E isso não tem nenhuma ambivalência, fora a lua, as estrelas, o céu, o reflexo dela nos braços de outro através da parede de vidro, vinho quente, quer dançar comigo? Não, diz o poste na calçada.

6. Just a Gigolo

Ou conta dinheiro ou bate na porta ou cavuca a orelha com a unha grande do dedo mindinho. Lembra de coisas como o pêlo macio colado no lombo de um cavalo de madeira num dia muito frio numa casa arquitetada em estilo bávaro em alguma cidade da Região das Hortênsias. Ele passava a mão nos pêlos do cavalo de madeira. Sua mãe sorria. Seu pai batia fotos. Ele acenava com seu casaco quadriculado de jeans. O que teria acontecido nesse meio tempo, pensa enquanto bate à porta. Mas antes que alguma coisa caia no chão ou responda, a porta se abre, ele recebe mais duas ou três notas, ajeita seu chapéu coco, mete as mãos nos bolsos, não sabe se ri ou se chora ou se apenas vai embora. Então serve um copo de stinger e outro de bicarbonato.

7. Bye-Ya

De repente, alegre, de repente triste, de repente sozinho. Os passos não dizem mais do que tropeços e sorrisos conseqüentes. Ele segue atrás dela. Olha no fundo do seu Martini mais seco do que a vontade de beber. Ela não está ali. Que patético um homem negro, meio mulato, quase pálido, sem religião, de lábios negros e cheios, procurando moedas no chão com as calças pelo meio das panturrilhas. Passa na frente de uma barraca indiana onde um indiano limpa os olhos com um pano esfarrapado cor-de-passado. (Círculo luminoso esfumaçado de gordura. As bocas soltam vapores de cansaço). O indiano cheira azedo, suor nas sobrancelhas, ele todo evapora. Nosso homem levanta as calças, que agora cobrem os sapatos, bate a camisa amassada, metade pra fora das calças, mau hálito na palma da mão, arranhões de unhas pintadas em vermelho pela metade na base do queixo, nenhuma lágrima, desculpa, cara de susto ou respaldo etílico. Escolhe um frango tandoori, na verdade leva três pedaços. Parecem três corações cor-de-lembrança-em-frangalhos. Um chutney de manga numa compota, na mesma hora em que um cão vadio passa lhe abanando o rabo, com a língua de fora. O indiano olha, enxota: “da próxima vez vira lingüiça!”. O cliente joga um pedaço de tandoori para o cão. Ele pára, cheira e vai embora. O rádio continua tocando e o mundo inteiro dorme.


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