terça-feira, 20 de julho de 2010

AGONIA DA PO**A >> Clara Braga

Um dia desses estava conversando com um colega meu e ele disse que minha próxima crônica deveria se chamar "agonia da porra". Bom, até ai tudo bem, o problema foi que ele não me disse nada mais que isso, não me contou por que estava agoniado nem o que ele esperava de uma crônica com esse título.

Eu poderia chegar aqui e escrever sobre qualquer coisa, afinal, o tema é livre, mas eu fiquei com esse título na cabeça e comecei a pensar o que faz as pessoas ficarem agoniadas hoje em dia, ou pelo menos o que me deixa agoniada. Esperar telefonemas importantes, esperar resposta de emprego, ficar presa no trânsito tendo hora pra chegar em algum lugar, tentar escrever e nada interessante vir à mente, precisar muito usar o banheiro e não ter um perto, não ter roupa para usar em uma ocasião especial, ficar curiosa, ligar para alguém e cair na caixa postal, talher arrastando no prato, giz fazendo barulho no quadro, esperar chegar a hora de encontrar alguém com quem você quer muito estar, internet fora do ar, celular sem bateria... enfim, eu poderia listar muitas outras coisas, mas o que me chama a atenção é que hoje em dia jogar filha pela janela, assassinar os próprios pais, matar a amante e outros tantos crimes absurdos que acontecem diariamente já não deixam ninguém mais agoniado. Todo mundo já está tão acostumado a ligar a TV e ser bombardeado com esse tipo de notícia que já nem se abala mais, pelo contrário, 5 minutos depois da notícia a internet já está bombando de piadas sobre o caso.

Não estou aqui pra dizer se isso é certo ou errado, nem criticar ninguém, até mesmo porque eu também conto por ai as piadas que escuto e repasso os e-mails que recebo. Eu estou aqui pra dizer que eu tenho minha própria teoria para explicar o porquê dessas notícias terríveis não afetarem mais as pessoas. Talvez eu não consiga explicar o porquê de não afetar todas as pessoas, mas com certeza eu tenho uma teoria para explicar a minha geração.

Bom, vamos lá, eu tenho vinte e um anos. Se você for direto ao túnel do tempo e checar quais eram as celebridades que estavam bombando entre as crianças da minha época, você vai acabar esbarrando na tão famosa dupla Sandy e Junior. Tudo bem, eles não têm culpa das músicas que cantavam, até mesmo porque muito antes de serem capazes de entender o significado das músicas eles já eram famosos. Agora, crescer ao som de Maria Chiquinha não pode ser bom para nenhuma criança.

A música é sobre a Maria Chiquinha que andou indo pro meio do mato com outro e o Genaro viu, agora a Maria Chiquinha está enrolada e fica arrumando um monte de desculpas pra se explicar. Lá pelas tantas, o tal do Genaro perde a paciência e diz o quê? "Então eu vou lhe cortar a cabeça Maria Chiquinha, então eu vou lhe cortar a cabeça" Bom, só daí a gente já pode tirar a primeira lição que estava sendo passada e absorvida pelas crianças, se sua namorada, ficante, esposa ou afim começar a te enrolar, não perca tempo, corte logo a cabeça e resolva todos os seus problemas! E se você acha que a música não piora, espere pelo resto. Assustada com o que Genaro falou, Maria Chiquinha pergunta: "Que cocê vai fazer com o resto, Genaro, meu bem, que cocê vai fazer com o resto?" E então Genaro responde: " O resto? Pode deixar que eu aproveito!" Ou seja, não contente em ser um serial killer, o Genaro é uma pessoa extremamente perturbada, aliás, se aproveitar de corpos decaptados é um tipo de perturbação que tem nome, chama-se necrofilia! Agora me diz, depois de crescer ouvindo isso, tem como ainda se espantar com o noticiário?

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7 comentários:

Brunno Leal disse...

Nunca reparei que Sandy e Júnior, do alto de seus 6 anos, ensaiariam algo tão corriqueiro anos depois, rsrsrs

Me diverti com o texto!

Beijos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito boa essa sua crônica de uma geração desagoniada, Clara.

fernanda disse...

Assassinato, necrofilia e incesto! Afinal, todo mundo sabe que eles são irmãos...hahahahaha
Será que essa música foi escrita por Nelson Rodrigues? rs
Bjos!

Clara Braga disse...

Olha, se não foi o Nelson Rodrigues eu imagino que tenha sido alguém da família dele! hahahaha!

Alexandra disse...

Eu preferia continuar na minha inocência! auihauahuahuiauah Desde que você me contou isso tenho pesadelos com o júnior todos os dias! Droga! aiuhahiauhaihaihaiuha =D

Anônimo disse...

Perfeito. Dentre as coisas que você escreveu, estão algumas das minhas agonias da porra! Valeu, Clarinha. Beijos!

Alexandre disse...

Parabéns Clarinha.... muito boa crônica... Bjão