quinta-feira, 22 de julho de 2010

ALEGRIA CRÔNICA >> Fernanda Pinho

Queridos, começo com uma confissão. Adiantada que sou, sentei para escrever minha crônica de quinta dessa semana na segunda-feira. Não tive dificuldade em encontrar um assunto. Ao contrário de todos os outros dias, em que as milhares de possibilidades me atormentam, naquele dia um único assunto monopolizava toda a minha existência: minha tristeza. Eu estava triste, muito triste por motivos que já não vêm mais ao caso. Essa crônica não é aquela outra que ficou prá trás, afinal.

Dois dias depois de tê-la escrito, reli, para ver se estava tudo certo para postar aqui e, minha nossa, percebi que estava tudo errado. Eu sou totalmente errada quando triste. Era um texto feio. Sem a menor chance de tornar-se um texto bonito, ainda que passasse por zilhões de edições. Sua essência era feia. A dor, o medo, a dúvida. Mas sua feiúra não vinha daí. Vinha do fato de eu não saber escrever quando estou triste. Quantos e quantos escritores e poetas se alimentaram da tristeza para escrever obras primas. Eu não sou assim. Primeiro porque não sou uma escritora, tampouco uma poeta. Sou nada mais que uma moça intrusa que força amizade com as palavras. Segundo porque a tristeza não me estimula a nada. Quando estou triste, não há nada que me interesse nesse mundo. Não adianta me fazerem uma festa, me levarem para a praia, me darem roupa nova, me preparem um delicioso pudim de leite, me escreverem uma carta. Eu não vou ficar alegre (mas, amigos, que fique claro: isso não significa que vocês não devam me fazer uma festa, me levar para a praia, me comprar uma roupa nova, me preparar um delicioso pudim de leite e me escrever uma carta. Não custa tentar, né?).

Fico imprestável. Faço tudo mal feito. Não me disponho a fazer bem feito, aliás. O resultado são textos medíocres, embora profundamente sinceros. A ex-crônica de hoje nasceu de uma verborragia. Um vômito de palavras acompanhado de lágrimas que caiam sobre o teclado com a mesma frequência dos dedos frenéticos. Nasceu assim, feia. E sem a menor intenção de ser bonita. E acho bom que seja assim. Acho maravilhoso que eu seja medíocre e imprestável quando triste. Do contrário, eu mergulharia na tristeza para conseguir matéria prima para meus textinhos. Mergulho perigosíssimo. Eu não sei nadar.

Não fico alegre quando realizo grandes feitos. Na realidade, realizo grandes feitos quando estou alegre. Sendo assim, deletei a crônica triste e tenho deletado aos poucos tudo o mais que diz respeito a ela. Como sempre faço. Questão de sobrevivência.

Comecei com uma confissão e encerro com uma adivinhação. Tenho certeza que tem um versinho martelando nas cabeças por aí: "é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe". É, vamos beber da fonte do Poetinha. Esse, sim, sabia das coisas.

Foto: eu no auge da alegria dos cinco anos. Vou perder uma coisa dessas? Mas nunca!

http://www.blogdaferdi.blogspot.com/

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10 comentários:

Calypso Martins disse...

Como sempre, emocionante! Sorria, você tem inúmeros motivos a mais para isso.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fernanda, sua crônica me fez lembrar de uns versos de Fernando Pessoa, afinal a tristeza é uma forma de doença...

As quatro canções que seguem
Separam-se de tudo o que eu penso,
Mentem a tudo o que eu sinto,
São do contrário do que eu sou…
Escrevi-as estando doente
E por isso elas são naturais
E concordam com aquilo que sinto,
Concordam com aquilo com que não concordam…
Estando doente devo pensar o contrário
Do que penso quando estou são.
(Senão não estaria doente)
Devo sentir o contrário do que sinto
Quando sou eu na saúde,
Devo mentir à minha natureza
De criatura que sente de certa maneira…
Devo ser todo doente — ideias e tudo.
Quando estou doente, não estou doente para outra cousa.
Por isso essas canções que me renegam
Não são capazes de me renegar
E são a paisagem da minha alma de noite,
A mesma ao contrário…

Andrea Pio disse...

Comentarei este trecho de sua cronica.

''Quantos e quantos escritores e poetas se alimentaram da tristeza para escrever obras primas. Eu não sou assim. Primeiro porque não sou uma escritora, tampouco uma poeta. Sou nada mais que uma moça intrusa que força amizade com as palavras.''

Pois te digo que me sinto EXATAMENTE assim. Esta historia de a tristeza ser fonte inspiradora nao funciona comigo... quem sabe porque eu nao escreva poesias.

Me identifiquei mesmo com o que escreveu.
Parabens,
Andrea

Laís Bastos da Silva disse...

Não sei direito a tristeza, mas a raiva é muito produtiva para mim. Já percebi que seus melhores textos são os alegres, acho que diferenciamos uma da outra nesse quesito. Às vezes acho que, embora tenha vontade, não posso trabalhar escrevendo, por isso. Porque quando estou bem é mais difícil, as palavras fogem, fico rindo feito uma boba, achando tudo lindo, querendo ver todos os filmes, ler todos os livros. Sim, tenho muita vontade de expressar tudo isso na escrita, porque essa é, sem dúvida, minha maior paixão. Mas é mais difícil, confesso.
Que bom que você consegue, beijão

Loreyne disse...

Amiga Ferdi, vc nao pode ficar triste, vc faz nossa alegria, rsrs
Mas a vida eh assim, todos temos nossos dias ruins mas logo passam e vc graças a deus tem e vai continuar tendo muito mais dias alegres em sua vida!!!
Bjussss

..DONA DAS BATATAS.. disse...

Eu confesso que os sentimentos mais obscuros - tristeza, angustia e afins - é que na maioria das vezes me motivam a escrever. Mas nem é inspiração se assim posso dizer, sinto mais como desabafo, grito e às vezes, vômito! rsss... Escrever é uma necessidade pra quem tem palavras como pão, abrigo ou antídoto. E as suas palavras são minha dose vitamínica de Fernanda Pinho às quintas-feiras rssssss!

Jujú disse...

Sou como minha hermana que escreveu aí em cima, a tristeza, a raiva e outros sentimentinhos de merrd$% me dão vontade de escrever, muita, porque PRECISO tirar essa coisa ruim de mim, mas já escrevi umas 3 vezes no blog e apaguei. Tb achei que não tinha potencial para um bom texto!

Mas os seus, minha amiga, os seus textos são sempre alimentos para nossoa alma!

E eu te amo de qq jeito!

Besos

Kika disse...

Eu sempre me achei sortuda por perder a fome quando estava triste - tem gente que precisa de muita comida quando se está triste, e eu acho um desaforo que, estando triste, a gente engorde horrores.
Engordo melhor na alegria, e acredito que sim, temos vocações para aquilo que é bom.
Lindo texto, como sempre.
beijos

fernanda disse...

Caly e Lo: obrigada por sempre estarem comigo. Hoje é dia de alegria!

Lah, Thatha e Jujú: escrever pra desabafar tb me faz um bem danado. Entendo o que vcs dizem. Vale como terapia. Mas que os textos ficam uma droga, não posso negar.

Andrea: acho que somos exceção, né?

Kika: idem! Quase não como quando estou triste. O bom disso é que quando a gente tá alegre comemos sem culpa, pois estamos tão alegres que não nos prendemos a essas bobagens de calorias...rs

Eduardo: que rica lembrança. Esse poema é lindo!

Bjos!

Carla Dias disse...

Ah, que fiquei na curiosidade de ler essa feiúra toda de texto! Aposto que tinha beleza nas entrelinhas...