domingo, 17 de agosto de 2014

COINCIDÊNCIA >> Whisner Fraga

Meu irmão tem muitas histórias e acho que nunca falei sobre nenhuma delas neste espaço. Sei que devia ter feito, mas algum assunto de última hora certamente se tornou mais urgente e deixei os causos do Wildner para depois. Wild, como os amigos o chamam e a família também. Hoje vou esquecer a candidatura de Marina, as questões em Israel, as baixarias em torno das eleições presidenciais, os problemas de minha cidade, para narrar algo mais engraçado.

Naquele dia o Wild olhou para o colega de trabalho e ambos tiveram uma revelação: precisavam de dinheiro para o final de semana. Ninguém consegue se divertir muito com os bolsos vazios neste nosso país e talvez em nenhum outro. Assim, meu irmão propôs que fossem ao banco para sacarem o bastante para as distrações de sábado e domingo. Fecharam as portas da loja e foram rumo a um caixa-rápido. O trânsito estava terrível, como tem acontecido com frequência em muitas cidades brasileiras. Lembrei-me de que o bom do engarrafamento é que é mais ou menos democrático: nele param Fuscas maltratados e Porsches tinindo de novos.

Como não havia estacionamento ali perto, meu irmão sugeriu que o colega descesse e sacasse o dinheiro, enquanto ele dava uma rodeada no quarteirão, para pegá-lo em seguida. Então, como estava tudo meio lento mesmo, chegaram à conclusão que era o melhor a ser feito e Roberto saltou. Havia filas lá também, o que de resto não foi grande surpresa, pois o brasileiro é craque em enfrentá-las por todos os cantos, com a paciência avantajada que Deus lhe deu. Alguns bons minutos depois, conseguiu os trocados salvadores: o fim-de-semana estava salvo.

Preocupado, Roberto correu para a rua e se deparou com a caminhonete vindo bem em frente ao banco, devagar diante do congestionamento. Não acreditava que tudo dera certo daquela maneira: um relógio suíço! Olhou rapidamente para os lados e, como não vinha nenhuma moto cortando caminho entre os carros, correu, abriu a porta e entrou, esbaforido, consciente de que cumprira com sua obrigação. Quando olhou para o lado, não reconheceu meu irmão. Em seu lugar estava outro: mais gordo, mais velho, mais assustado. Imaginem o que se passou na cabeça daquele motorista: certamente assalto foi uma das alternativas. Que risco! Ainda bem que não é qualquer um que anda armado hoje em dia. Apavorado também, Roberto não se conteve e soltou um grito, que foi logo respondido com outro grito, um pouco mais intenso e mais sobressaltado. Vejam como este mundo violento alvoroça as pessoas!

Não, não haviam roubado o carro de meu irmão. O que aconteceu foi que, naquele momento, passava uma caminhonete idêntica: cor, ano, modelo, filmes dos vidros, rodas, tudo. Um pouco atrás, o Wild assistia a tudo, passando mal de tanto rir. Como não tinha outra escolha, Roberto abaixou os olhos, pediu desculpas e saiu do assento desconhecido, cabisbaixo, rua afora. Avistou com facilidade o carro certo e entrou, já também não se aguentando de rir.

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3 comentários:

Alberto Lima. disse...

HAHAHAHAHA. Nossa, que belo mico!

whisner disse...

Oi Alberto, obrigado pela leitura! Um abraço.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Cena que bem poderia fazer parte do filme "Cães de aluguel" do Tarantino. :)