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PAPO DE VENDEDORA >> Fernanda Pinho


Aconteceu quando eu estava em Tiradentes, acompanhada do meu marido e dos meus sogros. Caminhando pelas bucólicas ruas de pedra, entrando e saindo de lojinhas de artesanato, acabamos numa especializada em cachaça. Eu entrei seguindo os três. Os três entraram seguindo o aroma da cachaça que parece fasciná-los. Não me surpreendi. Praticamente todos os programas que fazemos quando eles, chilenos, estão no Brasil envolvem cachaça em algum momento. Acontece também de, vez ou outra, meu sogro me fazer alguma pergunta sobre nossa famosa bebida. Já até pensei em dar respostas fantasiosas que me ocorrem, muito mais frutos da minha imaginação que dos meus conhecimentos. Mas, geralmente, respondo constrangida a verdade: “não sei”. Aliás, o pouco que sei sobre o assunto aprendi com as perguntas que os forasteiros me fazem sobre o tema. Uma vergonha. Afinal, sou brasileira. E o que é pior: sou mineira. Tenho obrigação de apreciar e entender tudo sobre cachaça. Pelo menos foi o que eu compreendi em nossa passagem pela lojinha de Tiradentes.

Meu sogro entrou na frente já fazendo perguntas sobre as cachaças vendidas ali. Meu marido foi atrás traduzindo para a vendedora com seu impecável portunhol. Eu fiquei calada porque: 1) o brasileiro definitivamente dispensa um tratamento mais polido aos estrangeiros do que a nós mesmos, então, por que não pegar carona nos privilégios alheios, não é mesmo? 2) Às vezes, muitas vezes, eu tenho preguiça de falar. Se passar por uma pessoa que não está entendendo nada do que está sendo dito e poder ficar calada sem pressão é muito relaxante. Experimente. 3) Eu realmente não entendo nada de cachaça, o que quer dizer que nem dúvidas sobre o assunto eu tenho a oferecer.

Empolgada com a presença de quatro estrangeiros na loja, a vendedora começou a discorrer sobre os efeitos terapêuticos da cachaça. Falou sobre os benefícios para os doentes, os idosos, os homens, até chegar na parte que me interessava (ou pelo menos deveria me interessar). Disse a moça que as mulheres mineiras tomam uma dose de cachaça diária (opa, tem alguém tomando duas. Uma no meu lugar). Devido a isso elas, as mineiras, não têm TPM (de soslaio vi meu marido arquear a sobrancelha) e nem passam pelos temidos sintomas da menopausa. E, além disso, chegam a viver até, ai ai, 120 anos.

Juro que eu não queria constranger a moça e pretendia manter minha identidade incógnita até o fim da venda. Mas as informações foram tão chocantes que não aguentei e deixei jorrar no estabelecimento toda a minha mineiridade. “Nuuuuuu, cê tá falando sério? Tô de cara. Capaz desse trem funcionar assim...”.

A vendedora ficou vermelha, confirmou o que havia dito e encerrou o discurso. Eu, por via das dúvidas, levei uma garrafa.

Comentários

Amiga, por via das dúvidas eu tratei pra casa uma garrafa quando nós estivermos em Tiradentes! \o/

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