quarta-feira, 6 de agosto de 2014

RELEVANTE >> Carla Dias >>


Logo cedo, senta-se diante do computador para conferir mensagens. Da média de 837 que recebe por dia, duas ou três são destinadas a ele, mas nem por isso são relevantes. A triagem é cansativa, e acaba por fazê-lo considerar se deve aproveitar aquela promoção que pipoca em sua caixa postal 321 vezes, até mesmo abrir uma conta naquele banco que insiste, 159 vezes, que ele deve atualizar um token que não lhe cabe.

Não é homem de se deixar enganar por conteúdo de folhetim marqueteiro. Não adere às promoções, não lê nem metade de mensagem de estrangeiro querendo investir milhões no Brasil, não aceita convite de quem escreve “me adiciona aí, vai”, tampouco é bobo de clicar no link “aumente suas chances!”.

Chances de quê?

Uma caneca cheia de café, a de sempre, a de diariamente, de várias vezes no diariamente, desde aquela quarta-feira em que se encontrou com os amigos e eles o presentearam com tal caneca de louça, na qual estava escrito “anime-se, existe vida sem café”. Desde então, tem bebido mais café do que nunca.

Esse é o máximo de rebeldia que vem deflagrando ultimamente.

Que houve aquele momento em que estava no meio do olho do furacão, a vida enlouquecida: média de 150 mensagens relevantes por dia, e apesar de se sentir pressionado, andava sorrindo, que ser necessário o tornara relevante também. Além da média de 150 mensagens por dia, havia a média de 61 telefones, 35 piscadelas da secretária bonitona do chefe, 15 pedidos de amizade em rede social, 3 doses de uísque antes do banho, da cama, do sono que demorava a chegar e, quando chegava, era conturbado.

Quando se senta diante do computador para conferir mensagens, também lida com um mundo imaginado pelo outro. Em quantas viagens desejou embarcar, em quantas mentiras descaradas ele quis acreditar, quantos estranhos ele pensou em conhecer. Depois de chegar ao topo do nonsense profissional e existencial, de compreender que seu corpo estava reclamando cuidados, sua cabeça necessitava de se esvaziar de tantos pensamentos ao mesmo tempo, e seu espírito clamava por pausas, por abrandamentos, foi então que ele compreendeu a irrelevância dessa espiral de buscas que ele nem mesmo almejara, na qual ele decidiu se embrenhar.

Hoje sabe que o tempo também deve ser sentido, e nem sempre como uma viagem em trem-bala. Aprecia as viagens mais longas, que pedem por paciência e oferecem paisagens. Tem consciência de que essa não é uma descoberta autoral, de que a maioria de nós chega a ela, às vezes, forçadamente. Como no caso dele, que sentiu um peso na alma quase insuportável, então parou e gritou, mas tão alto, que as pessoas a sua volta pensaram que ele estava sentindo a pior dor do mundo, que estava morrendo dela.

De certa forma, foi mesmo o que aconteceu.

Para ele, aquietar foi a melhor escolha. Da média de 29 broncas que distribuía por dia, nem sempre com alvo definido, a média de 45% delas era completamente desnecessária. Houve o dia em que verbalizou sua acidez com tal frequência que a voz sumiu de vez, antes do fim do horário comercial. Passou a sentir passageiro da vida com um único intuito, o de fazer a roda girar, as coisas acontecerem, a média diária de 150 mensagens relevantes não ganhar esse posto por acumulação. Acreditou, por um breve período, que fazia diferença.

Aconteceu o dia seguinte ao grito, em que ele não se levantou da cama às cinco, não verificou e-mail, não atendeu telefone, não ligou a televisão da sala no telejornal, a da cozinha, em outro telejornal, a do banheiro, em um terceiro telejornal. Seus pensamentos se aquietaram de tal forma que só conseguia se lembrar daquela única mensagem que recebeu no dia anterior, da qual protelou a leitura por achar que era irrelevante naquele momento. Aquela que não fazia parte de qualquer média, que, diferente do que ele imaginara, tinha toda relevância do momento.

De certa forma, foi mesmo o que aconteceu. Não atendeu ao telefonema, porque acreditou que poderia retornar depois que resolvesse pendências. Não leu a mensagem, que a leitura podia ficar para depois do expediente. Foi nesse depois, ao ler aquela mensagem, que compreendeu a fragilidade do poder de controle, até mesmo da própria existência. Foi por meio dela, menos de cento e quarenta caracteres, que tudo mudou.

“Sinto muito, mas sua esposa sofreu um acidente e morreu. Tentei ligar, mas você não atende. Aqui é a sua irmã, sabe quem?”

A média diária de abraços que recebe... Sabe apenas que são muitos, que é vizinho de sua irmã, e ela e seus sobrinhos adoram abraçar. Tomam chá juntos no final da tarde, Aprendeu a apreciar chás, sua preferência é por camomila com gengibre. Ela sempre lhe diz que a vida ficará mais leve. Ele tenta acreditar nisso, esforça-se para, ainda assim, a melancolia lhe cair bem.

À noite, uma última olhada nos e-mails. Da média diária de 127 mensagens que recebe entre 18h e 22h, uma é sempre relevante. Se não para ele, para alguém nesse mundo. E esse é o pensamento que lhe acalma.

carladias.com

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3 comentários:

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Ah esses novos números! Números que são também antigos, que não deixaram de ser antigos, que não deixaram de ser os mesmos só porque passamos a contabilizar os nossos erros e acertos de outra maneira. O assombro está na velocidade do processamento. E os gráficos?! As parábolas, que se revelam sorrisos quase sempre suspeitos porque, se há uma coisa suspeita num mundo tão terrível, ah, tem que ser o sorriso. Ótimo texto colega!

Élida Regina disse...

Como sempre, maravilhosa Carla Dias!

Carla Dias disse...

Obrigada André e Élida! Beijos :)