sexta-feira, 8 de agosto de 2014

LAÇOS EXISTENCIAIS >> Paulo Meireles Barguil

No final da década de 1980, eu era um estudante do Bacharelado em Computação, na Universidade Federal do Ceará, e não me divertia muito com os assuntos abordados  programação, banco de dados, compiladores, sistemas operacionais, redes, inteligência artificial... — motivo pelo qual, na metade do curso, minha vontade era pular fora, fosse pela porta ou pela janela...

Não o fiz simplesmente porque ignorava o que queria cursar e refutava em absoluto a hipótese de ficar de bobeira. Resolvi, então, obedecer à máxima: "Na dúvida, não desista!".

Quando eu descobri o próximo destino — Pedagogia — já estava no último ano e resolvi, em respeito à minha carga genética, mesclada com a pressão social, terminar a missão iniciada.

Refuto o entendimento de que o Homem é um computador, uma máquina de processar informações. Embora os componentes, de modo geral, sejam os mesmos, e a lógica de funcionamento deveras parecida, a depender do fabricante e do público alvo, a arquitetura, em virtude dos cromossomos, é única, com exceção para os raros gêmeos univitelinos.

O que dizer, então, do banco de dados? Experiências singulares fazem com que a percepção do mundo seja exclusiva: ninguém vê, sente o mundo como eu. Cada pessoa é, portanto, fora de série.

Um dos nossos objetivos na Computação era aprender a programar: construir uma sequência de instruções para realizar algo. No início, como sempre, tarefas simples. Depois...

Concluída a escrita, era hora de "rodar" o programa  colocar para funcionar — e rezar — torcer para ele funcionar adequadamente.

Não creio que existia uma relação — direta ou inversamente proporcional — entre tais variáveis, considerando os resultados e as práticas espirituais dos colegas...

Quando o programa não funcionava, entrava em cena o método mais utilizado na Ciência: ensaio e erro. O desafio era localizar a rotina que estava "dando pau" e consertar a dita cuja.

Uma estratégia para localizá-la era colocar marcadores — letras para aparecerem na tela, por exemplo — de modo que se pudesse descobrir onde estava o problema e tentar, posteriormente, resolvê-lo.

Algo muito frequente nas nossas produções acadêmicas era o loop, situação em que o programa executava indefinidamente uma sequência, não avançando nos comandos laboriosamente redigidos e nos obrigando a interromper o funcionamento da máquina.

No início deste ano, durante uma aula no curso de Pedagogia, mais de 25 anos depois de tais experiências na Computação, vislumbrei o fato de que nós, na maior parte da nossa vida, estamos presos em laços existenciais.

Deles somente nos livramos se tivermos a humildade de reconhecer quando estamos com a corda no pescoço, no bolso ou no pé, a coragem de colocarmos marcadores para identificar onde estamos atolados e a determinação de reescrever as instruções, quase sempre no sentido de simplificar o roteiro.

E viva o CTRL + ALT + DEL!


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