quarta-feira, 20 de agosto de 2014

DE NASCENÇA >> Carla Dias >>


Nascido, sabe onde. Criado, sabe como. Amado, nem sempre, mas sabe que tem culpa no cartório das desistências emocionais. Estudioso de autobiografia, inescrupuloso quando se trata de dar voz de prisão ao lamento. Acreditou, até os dezesseis, que se agarraria à felicidade de tal forma que não haveria tristeza que fosse capaz de desancorá-lo dela. Enganou-se, e aceita isso bem aos trinta e tantos, que se a vida fosse somente felicidade, ele não teria conhecido o silêncio.

Nascido na boca do trilho, escutando música de trem, encarando os passageiros que lutaram valentemente pelo banco da janela, enquanto ele estendia suas roupas, na cerca de arame, em dias de lavanderia coletiva na caixa d’água. Foi criado com a bola no pé, a roupa puída, a voz esganiçada na hora de pedir pão com manteiga e uma média, anos depois a pinga, dobre a dose, meu senhor, que hoje eu perdi o emprego e ele tem de se esbaldar na liberdade imposta, antes de voltar ao barraco e dar a notícia à mãe.

Bom de palavra, que pegou inteligência lendo tudo o que a mulher de outro lhe deixava tirar da estante, em jantar aos sábados, com direito a pernoite, que o homem dela estava fora a negócios. A mulher nunca entendeu por que Deus dera a ele, um pardo com miséria cravada na sua realidade, olhos azuis feito céu em dia de sol. Para ela, era desperdício. Para ele, ser pardo não coincidia. Era negro mesmo, com o maior orgulho e olhos azuis merecidos.

A mulher tentou reinventá-lo, torná-lo modelo, jurando que a vida dele seria outra, haveria dinheiro, prestígio. Ele foi embora, no dia dessa conversa, e não voltou mais. Modelo era o vizinho dele, que criou os guris tão bem que se tornaram doutores e pais tão competentes quanto o deles.

Ele sabe onde nasceu, sabe como foi criado. Das vezes que foi amado, sentiu-se grato. Nas noites de quinta, seu dia preferido da semana, senta-se na soleira de casa, observando o trem passando, os passageiros de olhos voltados para a sua casa. Ergue a caneca, oferece um café, um e outro passageiro ainda encontra tempo para sorrir para ele. Dia desses, ele vai entrar nesse trem, como vem sonhando desde muito moleque, sem vontade de futebol, brincadeira, somente o desejo de mudar de destino.

Segunda-feira, ele irá encontrar os meninos do vizinho, que eles têm emprego para ele melhorar de vida. Não fosse a gentileza dos moleques, ele continuaria a ir e vir em um lugar no qual essa é a única opção. Mas ele quer ir para ficar. Para que, depois de um mês, possa comprar vestido novo para mãe, camisa nova para o irmão, e levá-los naquele tal de Teatro Municipal para ver a tal orquestra tocar.

Pensando nisso, sente uma saudade ranzinza da mulher do outro homem. Se ela não tivesse se encantado com os olhos dele, a ponto de pensar que ele era somente isso, um par de olhos azuis, ele teria ficado mais um pouco, que os livros eram bons, assim como a música. Só que ele sabe onde nasceu, sabe como foi criado. E a mãe lhe ensinou, ainda moleque, que ninguém tem o direito de fazê-lo sentir um pedaço do que lhe é direito ser inteiro.

Mais um trem passa. Dia desses, ele vai passar junto. E sabe lá quem ele se tornará nesse mundo, além da cerca, além do trem, além desse tudo que compõe seu quase nada.

Imagem © Jackson Pollock

carladias.com

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5 comentários:

Alberto Lima. disse...

Ai, que texto!

Élida Regina disse...

Ai, que texto! (2)
É sempre maravilhoso ler seu textos!

Élida Regina disse...

seus textos*

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ô mulher pra criar personagens bons! :)

Carla Dias disse...

Alberto, Élida e Eduardo... Vocês é que são bondosos com meu laboratório existencial. Beijos!