quarta-feira, 13 de agosto de 2014

PARA NÃO ESTRAGAR O MUNDO >> Carla Dias >>


Falar com o espelho é de praxe. E com a tevê, que se nega a passar os filmes que ela deseja assistir. Também com o beija-flor, que dá uma passadinha no bebedouro pendurado na varanda. Há dias em que fala com o teto, dá de discutir com ele a sua teoria sobre o silêncio.

No silêncio, faz as tarefas cotidianas. Às vezes, até dá espaço à música, mas a maior parte do tempo é o silêncio que acompanha a sua rotina. O que não significa que ela evite os longos monólogos, advertências e conselhos que costuma dar a si mesma, como se fosse outra pessoa que conduzisse a quase intervenção.

Para quem é conhecida por não falar palavra que seja, gerando comentários trágicos sobre sua saúde e apostas sobre uma possível voz tão irritante que melhor deixar no mute, até que ela é faladeira. Veja bem, mesmo com a cafeteira ela fala, porque há dias em que parece que o café fresco leva décadas para ficar pronto. Normalmente, isso acontece na manhã seguinte à noite em que o vinho fez o seu trabalho direitinho.

Fala com os livros que lê, intervindo no desfecho, morrendo de vontade de, às vezes, rabiscar a página e reescrevê-lo. Não raro, anda pela casa, explicando a si mesma que se tal personagem não convence, melhor seria se.

Melhor seria se...

Conversa online, nos finais de semana, com um grupo de ativistas que deseja mudar o mundo evitando estragá-lo. A forma que acreditam ser a mais eficiente de fazê-lo é não saindo de casa. Não é preciso dizer que eles não precisam trabalhar, não é mesmo? E que a geladeira cheia, a internet e a televisão tornam essa função menos desgastante. E que não sair de casa não significa estar proibido de receber visitas. Festas no exílio são recorrentes.

Mas para ela é estudo antropológico, porque gosta de saber o que as pessoas têm a dizer sobre assuntos tão importantes e as redes de salvação das quais dispõem, mesmo quando fazem de conta que elas não existem.

Ela sai de casa cinco vezes por semana, ausentando-se por sessenta horas, nesse período, quando o trânsito colabora com o ir e depois voltar do trabalho. Isso a desqualifica completamente para o grupo “para não estragar o mundo, fique em casa”, e assim, nada de carteirinha de filiada para ela.

Fala com o abajur, principalmente quando ele começa a apagar e a acender sozinho. Ela sabe que uma manutenção bastaria para deixá-lo tinindo de bom, mas ainda assim, discute com ele as facetas da culpa, assim como a sua possível autoria, e a complexidade da relação entre luz e escuridão.

Tem animadas conversas com as flores do jardim vertical que cultiva na parede da varanda. As tais estão escoladas no que diz respeito ao que faz a moça temer, desejar, arrepender-se, ousar. Tem íntimas conversas com as canções dos velhos discos a rodarem na vintage vitrola.

O zelador acredita que ela seja surda e muda, e se sinta tão frustrada com isso, que nem quis aprender Libras. Mas ele, que é homem dedicado ao trabalho, e ao trato com os moradores do prédio, aprendeu.  Já que ela parece não entender patavina do que ele diz, emitindo sons miúdos quando ele pergunta algo, grunhidos, ele se tornou voluntário em uma instituição que precisava de intérpretes. Ficou famoso no bairro como o Zelador Que Fala Com As Mãos. Na verdade, adotou o rótulo feito sobrenome. Ao conhecer alguém, oi, sou o Gregório Zelador Que Fala Com As Mãos.

O síndico, a vizinha do apartamento vinte e três, a assistente da limpeza, assim como o carteiro, todos acreditam que, na verdade, a moça sofra de aguda falta de educação.

Fala com o céu chispado, a lua cheia colada em sua tela. Há “por quê?”, “será?” e “quando?” envolvidos nessa conversa transcendental, e lenços de papel, que, vez ou outra, ela permite ser visitada pelas lágrimas.

Nas noites de sexta, a moça recebe em casa um colega de trabalho. Moço inteligentíssimo, prestativo, interessado, aparece para bate-papo informal sobre as regras que regem o movimento “para não estragar o mundo, fique em casa”. Como na casa dele não tem ninguém com quem compartilhar a experiência, ele exerce a função na casa dela, que fala com ele até a madrugada. Então, caem no sono, um nos braços do outro.

O advogado do apartamento sessenta e sete, a decoradora do quarenta e três, o professor de matemática da cobertura, o pastor do setenta e dois, o guitarrista do cinquenta e quatro, o cientista do quatorze,  todos eles acham que a moça não fala por pura tristeza, que pela insignificância da existência e da figura dela, não há o que celebrar.

O moço acha que a moça tem a voz que ele sempre quis escutar. E para não estragar o mundo, ele passa os finais de semana sem sair da casa dela.



Imagem: Mariana in the South © John William Waterhouse





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7 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, essa música dos Secos & Molhados merecia mesmo um personagem tão bonito quanto esses que você sabe criar.

Élida Regina disse...

Que alma linda!

Amanda disse...

Que texto lindo!

Cristiana Moura disse...

AMEI!

Cristiana Moura disse...

AMEI!

Douglas Feitoza disse...

Belíssimo!

Carla Dias disse...

Eduardo... A música é linda, não? E sim... Ela estava na minha cabeça, enquanto escrevia :)

Élida... Obrigada, minha cara!

Cristiana... Agradecida :)

Douglas... Agradecida :)