segunda-feira, 11 de agosto de 2014

AS TRÊS MARIAS (continuação)
>> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/as-tres-marias-albir-jose-inacio-da.html)

No sertão de Sergipe uma vila se chamou “Enforcados” desde 1606. Ali eram enforcados os índios durante o seu longo processo de “salvação”. No século XIX o povoado passou a se chamar Nossa Senhora das Dores, um nome sem dúvida mais digno. É claro que lá também chegou a televisão e as novelas, com as lindas imagens do Rio de Janeiro. Maria das Dores se lembra da cena e não gosta mais de novela. Nem da vida. Ela conta por quê:

— Eu queria ter morrido nova, como morreram meus três irmãos. Assim não dava esse desgosto a meu pai. Meu pai é homem bom. Deixava de comer pra dar comida pra nós. Não precisava ter acontecido. Eu nem gostava daquele traste. Pra mim foi o diabo. Eu andava pensando umas bobagens, uns pecados, e não fui me confessar. O tinhoso aproveitou. Agora nunca mais vou ver meu pai. Aqui não é ruim. Madame me trata bem. Tem freguês que é bom. Ruim mesmo é a vida. Sabe de uma coisa: a gente nasce pra sofrer e a vida é muito comprida!

O pai de Maria das Dores não gosta de novela, nem de televisão e não gostou da primeira vez da filha. Não gosta mais da filha, nem de madame. E tem uma versão:

— Cumpri minha obrigação e madame vem me oferecer dinheiro. Vê se sou homem de vender filha. Filha não, que não é mais minha filha. Levei ela pra lá porque não podia ficar mais em casa. Nem no povoado. Lugar dela agora é ali: casa de perdida. Foi o que ela procurou. Até que era uma boa menina antes. Pra mim foi a tal da televisão. Dia antes do acontecido, vi uma pouca vergonha danada naquela caixa do demo. E eram duas criança ainda, da idade dela. Mandei desligar na hora. Depois da desonra, quebrei aquele troço num monte de pedaços. Aquilo não é coisa pra entrar em casa de gente honesta. Bom, agora vou atrás daquele porco. Vai aprender a não desgraçar mais filha dos outros. Vai aprender na faca.

Madame também viu a novela, aliás, vê todas as novelas. Não se lembra mais de sua primeira vez, mas conhece as histórias de primeira vez de muitas meninas. E conhece Maria das Dores:

— Geralmente as meninas chegam sozinhas. Mas Dasdô chegou aqui pela mão do pai. Tinha sido desonrada e ele, pra não matar, trouxe ela pra mim. Disse que tava cumprindo obrigação de homem honesto, e que Dasdô tinha sido boa menina antes. Depois falou umas bobagens sobre televisão. Eu trabalho com mulher perdida há muitos anos e nunca vi ninguém se perder por causa de televisão. O cabra não aceitou o dinheiro que eu dei, inda parece que ficou emputecido. Gente mais maluca! Disse que tinha serviço urgente pra fazer — serviço de sangue. Credo em cruz! Foi embora sem nem se despedir. Bom, o que eu não podia era deixar uma menina assim bobinha na rua, né? Lembro que Dasdô ficou parada no meio do salão e arriou a trouxinha bem devagar. Depois andou até perto da janela e ficou espiando o pai se indo pelo caminho. Cheguei mais perto, mas não tive coragem de falar nada, e a sala ficou naquele silêncio comprido. O pai chegou na curva sem se virar. Dasdô falou baixinho “bença, pai”. O “b” de bença explodiu em mil pedacinhos uma lágrima que tava nos lábios. Tive pena da menina. Boa menina, a Dasdô.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Quanta humanidade, Albir!

Zoraya disse...

Albir, esse foi um dos melhores! E é difícil selecionar!