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SEGURANÇA E LIBERDADE >> Paulo Meireles Barguil

Era uma vez uma menina de 3 anos.

Como toda criança, o que mais desejava era se sentir segura, protegida, amada.

Naquela casa, repleta de homens — 4 irmãos mais velhos e o pai —, a sua mãe era o único referencial feminino, além das eventuais empregadas, que auxiliavam na organização do lar.

Sua genitora trabalhava os dois expedientes e elas pouco conviviam.

A criança, bastante criativa, inventava muitas brincadeiras sozinha, além de acompanhar os irmãos em tudo que era possível: jogava futebol, andava de bicicleta, jogava bila (bola de gude), andava de patins...

O mundo era mesmo muito divertido!

Ela, contudo, sentia falta do aconchego da sua mãe, por isso, nos dias úteis, a menina sempre ia para o portão, no final de tarde, esperá-la voltar da labuta.

O tempo foi passando e a menina se tornou uma moça muito espontânea e cheia de vida. O seu mantra era liberdade!

Numa festa de 15 anos, tal como nos contos de fadas, sua história foi marcada para sempre. Uma discussão com o pai e o cristal se quebrou: a relação pai e filha nunca mais seria a mesma, piorando a cada ano.

Explodira, naquela noite, uma luta insana, que duraria décadas, em que ambos duelariam, sem e com palavras, para ver quem era o mais forte.

Aos poucos, ela foi se esquecendo do quanto desejava ser amada e cuidada. Para isso, ela precisaria confiar no outro, algo que poucas vezes experimentara além dos fugazes momentos de lazer.

A ferida do passado era escondida pelo frenesi social, o qual funcionava como uma droga, requerendo doses cada vez maiores para produzir o efeito necessário, com duração decrescente.

Ninguém sabia isso, afinal ela se tornara uma mestra do disfarce.

Ela, então, teve uma filha. Era a natureza lhe dando a oportunidade de, ao vivenciar o cuidado no polo ativo, curar a sua chaga, fonte inesgotável de ansiedade.

Quando alguém lhe questionava sobre algo da sua conduta ou discordava da sua percepção, ela reagia com furor, afirmando estar sendo julgada ou incompreendida.

Escolhia suas amizades pela capacidade de elas não se contraporem a todas as suas escolhas, mas as aceitarem sempre, frutos dos seus caprichos, os quais mudavam tal como o vento!

Foi, contudo, uma brisa do oriente que lhe trouxe uma boa nova, que mudaria, lentamente, a sua vida:

— Pare um pouco... Olhe para dentro... — dizia a voz sagrada.

A jovem senhora, cansada das inúmeras tentativas de se esconder no discurso da independência, começara a compreender e a aceitar que a única liberdade é aquela expressa no cuidado pela vida: sua e dos outros.

E, então, aquela menina de 3 anos recebeu o abraço há tanto tempo esperado.

Comentários

Bendita voz, bendito abraço. :)

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