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VIAJANDO AO SOM DE BILL EVANS >> Sergio Geia



A música que toca agora no aparelho de som (sim, eu ainda tenho um aparelho de som, que é rádio e toca CDs) é Bill Evans. Manhã ensolarada, dez pras nove. Não há movimento na rua, é feriado; há silêncio. Junto a Bill, vez em quando, quebrando deliciosamente o silêncio (sim, é possível um silêncio delicioso ser quebrado deliciosamente), ouço passarinhos, bem-te-vis, até maritacas. Tenho um copo com água do meu lado (alcalina; um dia explico), e fotos. 

Agora, melhor do que apenas ver fotos nesse cenário, ou correr olhos sobre elas, é saborear imagens, como se deve saborear, por exemplo, uma crônica (aliás, já falei inúmeras vezes que fotos e crônicas têm muito em comum). Ah, e é tão bom nesta vida viver bons momentos... e, depois, saborear esses momentos que ficaram guardados na memória e, por que não, em fotos. 

Elas dão uma consistência material aos sabores, que ganham concretude, como um pedaço de trufa, um bombom, fica mais divertida, palpável a lembrança. 

Numa delas vejo Cristiana Moura, a escritora aqui do Crônica. Ela tirou o final de semana, deixou Fortaleza, veio aqui para o lançamento do folha, depois aproveitou para conhecer as belezas de Taubatexas. 

E a primeira foto que vejo foi tirada no Museu Mazzaropi. Vejam, lá no museu, há um cartaz muito interessante que traz os seguintes dizeres: 

NO MUNICIPAL. Dois grandes artistas em dois retumbantes espetáculos. Quinta-feira, 18 de março, MAZZAROPI, o incomparável artista da Alegria numa das mais belas noitadas da arte. VALDEMAR, o vaqueiro da harmônica, em esplêndido número (...). Sexta-feira, 19 de março, o mais popular e o mais famoso cantor brasileiro VICENTE CELESTINO, o famoso tenor cantando, dentre outras: O ébrio, Porta aberta, Coração materno, Minha Gioconda. Arte! Emoção! Beleza! 

Registrei no meu celular/máquina fotográfica, porque adoro essas coisas; sinto-me lá atrás (1936? Não anotei o ano, mas deve ser algo próximo disso), lendo o cartaz que lembra (pelo menos a mim) os programas de quermesses da Santa Teresinha, e assanhado para comprar o meu ingresso. Não comprei, mas Cristiana comprou um dos filmes do Mazzaropi, para dar de presente ao pai. 

Numa outra foto estamos no Sítio do Pica-pau Amarelo. Quem vem para Taubaté e não conhece o Sítio? Ah, amigo, é o mesmo que..., bom, você sabe. São quadros dispostos numa parede marrom, pintados por Monteiro Lobato, e um comentário em letras brancas atribuído a ele sobre a estética até então desconhecida: 

No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério, arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo de literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras. 

Melhor que seus quadros, suas palavras tocam fundo, pela profundidade, pelo encaixe, pela luz. Há cadeiras de madeira, um baú, coisas velhas, memória cultural. 

Por falar em Lobato, coincidência à parte, estive no final do ano na Biblioteca Monteiro Lobato, na General Jardim, em Sampa, num evento da editora. Foi um sábado lindíssimo, havia uma feirinha na rua da biblioteca com artesanato, comidas, doces, roupas. Ao lado da biblioteca, um evento para crianças, com palhaços, algodão-doce, pipoca, teatro, tudo de graça. E na biblioteca, nós, os escritores, acompanhados apenas de nossos livros, e de outros livros. 

Na foto, vejo a máscara mortuária de Lobato, protegida por uma caixa de vidro, que está exposta na biblioteca. E também outra coisa interessantíssima que pesquei num artigo do Antonio Silvio Lefèvre, pro Chumbo Gordo. 

É que não havia estátua ou busto de Lobato em lugar nenhum. E aí, Artur Neves, em pleno velório do escritor, incomodado com o fato, mandou chamar o Brecheret, que já era um famoso escultor brasileiro. Ali, com destreza e rapidez para não incomodar a família, ele aplicou uma massa no rosto do falecido e tirou dele um molde, que alguns dias depois se transformou num busto ou máscara mortuária em bronze, a primeira escultura de Monteiro Lobato, criada no dia de sua morte. 

Que delícia são esses registros. 

A foto faz isso: a gente viaja (ah, e as crônicas também).

Comentários

branco disse…
voltou em estilo , prosa e poesia. alegre regresso ao mundo real*!!!!

*tenho cá comigo que o mundo real é aquele no qual estamos realizados, sinto-me realizado escrevendo, penso que você também é assim. outras coisas como, o trabalho, preocupações rotineiras são apenas irrealidades que projetamos para nosso ganha pão e que permitimos a entrada em nosso mundo como inspiração.
Zoraya Cesar disse…
O cronista das pequeninas coisas, grandioso, como sempre!