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FIDELISSIMAMENTE - Final >> Albir José Inácio da Silva


No meio da noite, Benta ouviu os passos do marido. Ouviu também um tropel de cavalos. Chegou à porta no momento em que amarravam as mãos de Fidélio e a ponta da corda num arreio.   Lá se foi o Fidélio com passos trôpegos tentando acompanhar o trote do cavalo.

Benta esperou o dia clarear e foi procurar a vizinha noviça. A trupe estaria na praça à tarde. Se tinham que fugir, era agora!

                                                                                     ***

A praça estava lotada pelos que já aguardavam o espetáculo e por aqueles que foram atraídos pelos tambores e trombetas que precediam o entrudo.

Benta e a noviça chegaram cedo, só com a roupa do corpo para não chamar atenção, e ficaram atrás de uma carroça.

- Será que vão nos aceitar? – perguntou a amiga ainda desajeitada sem o hábito de freira.

- De certo que sim! Somos bonitas, jovens e gostamos de dançar – animou-se Benta.

A trupe já despontava na curva quando se ouviu o barulho da cavalaria. Os soldados passaram pelos lados da praça e se postaram a meio caminho entre os artistas e o público.

O arauto desenrolou o novo édito e com voz solene silenciou os dois grupos:

- O Bispo Corregedor do Santo Ofício e Ministro da Família, da Moral e dos Bons Costumes, por ordem do Suserano, decreta: FICA PROIBIDA QUALQUER FORMA DE ARTE DEGENERADA. DORAVANTE A ARTE NESTA ALDEIA SERÁ SACRA. OU NÃO SERÁ NADA!

 Os artistas em silêncio foram escoltados de volta à estrada.

No caminho de casa, Benta foi alcançada por Carluto e dois soldados.

                                                                                  ***

O primogênito entrou na sala do Santo Ofício cobrando providências. O Bispo sempre atendia aos pedidos e denúncias de Carluto. A boa vontade do Tesouro para com a igreja dependia de agradar a família do Senhor e muitos ministros já perderam a cabeça por desavenças com a prole sagrada.

- Mas, príncipe, a gente não tem provas. Vai ficar muito ruim perante a opinião pública – defendeu-se o Bispo – Ele não confessou nem sob tortura.

- Não tenho provas, mas tenho convicção! – disse Carluto.

- Precisamos ao menos de testemunhas, alguém que o tenha ouvido na Taberna.

- Não se preocupe, já tenho uma delação premiada.

Benta ficou dividida entre o pecado da mentira e a ameaça de excomunhão. Podia mentir e salvar o pescoço ou falar a verdade e ser excomungada pelo Bispo. Nos dois casos iria para o inferno.

- Mas ele não fez nada disso! - ainda argumentou.

- Escolha: o traidor vai sozinho ou você vai junto?

Quem acabou de convencê-la foi Fidélio. Conduzida à masmorra do Castelo, ela ouviu do apaixonado marido:

-Salve-se, Benta! Diga o que precisa ser dito. Eu estou perdido, mas você pode viver. De vez em quando, pensa em mim.

                                                                             ***

A praça está novamente lotada. O espetáculo é diferente, mas é espetáculo. O ritmo dos tambores é diferente, mas a euforia do público é a mesma.
  
No tablado, o Duque, sua família e outros nobres. Mais abaixo o clero, ministros e outras autoridades. No chão, os soldados, o carrasco e os que participarão da cerimônia.

Os outros dois condenados confessaram e isso lhes dá direito à extrema-unção e ao paraíso, segundo informou o Bispo.  Estão meio estropiados porque a confissão foi demorada, mas valeu a pena.

O caso de Fidélio é mais complicado. Ele se nega a confessar traição ao senhor que tanto venera. O processo então exige um último ato.

 O Inquisidor chama Benta à frente:

- Repete pro Duque o que você me disse, mulher!

Benta demora o que parece uma eternidade e todos se entreolham.

- Vamos, mulher, fale!

- Sim, Fidélio é um traidor – e acrescenta por sua conta: - e um idiota!

O Inquisidor estranha o acréscimo, mas se dá por satisfeito e ela volta ao seu lugar.

O Duque está entediado. Não há entre os condenados nenhum grande inimigo cuja morte ele possa comemorar. Só ilustres esfarrapados.

O carrasco caminha alguns passos com Fidélio e com a mão no ombro o faz ajoelhar-se. O camponês abraça o cepo e deita a cabeça de lado. Vê sua Benta, linda, seu amor. Eleva os olhos para o Suserano e pensa: “quanta nobreza e dignidade, um escolhido de Deus!”. O machado desce. A multidão se inflama.
  
Benta limpa uma lágrima e cochicha pra noviça que a ampara:

- Amanhã a trupe estará no Condado de Luzerna. Apenas quatro horas de caminhada!

Comentários

branco disse…
eles, independente da trupe, sempre existirão. para uma sequência de crônicas/contos de primeira ordem, esse final inspiradíssimo me deixou ensimesmado e pensativo.
Sandra Modesto disse…
Narrativa bem conduzida, Albir.Gostei muito.
Zoraya Cesar disse…
Albir, nem vou falar nada. Final perfeito. Qualquer outro seria falso, e vc jogou com as ironias de maneira acurada. Personagens bem definidos... enfim, o que dizer?
Albir disse…
Obrigado Branco, Sandra e Zoraya pelo carinho e generosidade de sempre.